Infectologistas afirmam não existir embasamento científico em declaração de prefeito sobre contaminação da água em Farroupilha - Cidades - Pioneiro

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Coronavírus08/04/2020 | 13h01Atualizada em 08/04/2020 | 13h43

Infectologistas afirmam não existir embasamento científico em declaração de prefeito sobre contaminação da água em Farroupilha

Não há relatos de contágio de covid-19 por meio aquático no mundo e tratamento com cloro já é medida eficiente contra outros riscos

Infectologistas afirmam não existir embasamento científico em declaração de prefeito sobre contaminação da água em Farroupilha Antonio Valiente/Agencia RBS
Prefeito Claiton Gonçalves (PDT) reclama sobre esgoto tratado em Farroupilha Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

A comunidade médica recebeu com espanto as declarações do prefeito de Farroupilha, Claiton Gonçalves (PDT), de que a água da cidade estaria contaminada com coronavírus. Infectologistas salientam que nenhum vírus é transmissível de forma aquática, com exceção de água não tratada e contaminada por fezes. O cloro, que é procedimento padrão no tratamento para abastecimento de água nas cidades brasileiras, elimina este risco. Sobre o coronavírus, não há nenhuma comprovação científica de contágio pela água. A contaminação da covid-19 acontece pela respiração e contato com boca e nariz. Por isso, a recomendação é pelo uso de máscaras e manter uma distância de um metro e meio com outras pessoas.

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Em entrevista ao Pioneiro no final de semana, o prefeito Claiton, que é alvo de dois processos de impeachment atualmente, afirmou que o vírus deve chegar a toda população até o final deste ano:

— O vírus vai estar na água, no ar, no esgoto. Basta a ver a situação de Manaus, que está metida num problema porque eles têm problema no esgoto, que não é tratado. Aí estudos demonstraram que o vírus já está presente no esgoto. Caxias, vamos lá, tem 82% do esgoto tratado, mas é tratado convenientemente? Farroupilha tem zero metro cúbico de esgoto tratado. Então todos nós teremos contato com o vírus até o final do ano.

Na manhã de terça-feira (7), o prefeito declarou à rádio Spaço FM que a chuva estaria levando o novo vírus para o esgoto pluvial e que de lá "voltaria para a torneiras". A sugestão do prefeito, que é médico obstetra, foi que as pessoas grupo de risco comprem água mineral engarrafada ou fervam o líquido antes do consumo.

— Gostaria de saber qual a metodologia cientifica para fazer esta afirmação? Tanto do coronavírus infectar a água e também sobre o tempo que ele ficará na água. Não há nenhuma evidência de transmissão aquática do coronavírus. O que se sabe é que o (tratamento com) cloro elimina o vírus e se sabe que existe este tratamento nas cidades, então me surpreende este tipo de fala de um prefeito sobre a água que fornece em seu município — aponta a diretora da Sociedade Brasileira de Infectologistas, Lessandra Michelin.

Logo após a declaração do prefeito, a Sociedade Médica de Farroupilha (Farmed) emitiu uma carta à população repudiando as declarações infundadas e sem respaldo científico emitidas pelo gestor municipal. A nota ressalta que notícias falsas atrapalham o árduo trabalho de assistência em saúde neste momento de incertezas.

— Não há nenhuma informação sobre contaminação de pessoas pela água. Nem da chuva, nem de rios, muito menos da água que é tratada. Não há qualquer sugestão ou referência no mundo. Inclusive, o cloro é recomendado para limpar as residências. É o saneante mais utilizado. Teoricamente, não faz sentido (a declaração do prefeito) — afirma a infectologista Viviane Buffon, da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e que também atua em Farroupilha.

Tratamento elimina riscos de qualquer vírus

A infectologista Lessandra explica que, em regra, nenhum tipo de vírus é transmissível pela água. Neste sentido, a preocupação deveria ser com parasitas, bactérias e até fungos. O que já previsto e tratado pelos responsáveis pelo abastecimento.

— O vírus é uma partícula de material genético e precisa de uma célula para se reproduzir e ser viável (o contágio). Em outras infecções virais, não é a água que transmite, mas sim as fezes. Uma água que não é tratada pode transmitir aqueles vírus que têm uma carga viral muito alta em fezes. Conforme relatos em literatura cientifica, a carga viral do coronavírus nas fezes varia de 5% a 29%, o que é uma quantidade muito baixa e não considerada suficiente para contaminação. Principalmente, quando pensamos que temos uma rede hidráulica bem tratada. É o que acreditamos, este trabalho responsável para não existir qualquer transmissão fecal – destaca Lessandra.

Para comparação, a diretora da Sociedade Brasileira de Infectologistas aponta que a carga viral do coronavírus na respiração, como tosse e espirros, é de 97%. Por isso, as recomendações são para manter distância, uso de máscaras e colocar o cotovelo quando for espirrar e tossir. Sobre a água, a infectologista Lessandra ressalta que esta é recomendada, com sabão, como uma medida eficiente e importante de limpeza das mãos.

Confira na íntegra a carta à população divulgada por médicos de Farroupilha

"A Sociedade Médica de Farroupilha, no seu dever de orientar a população em relação às melhores práticas durante a Pandemia de covid-19, vem à público externar seu repúdio às declarações infundadas e sem respaldo científico emitidas pelo gestor municipal. Não existem evidências cientificas atuais de que a água da chuva ou mesmo a água tratada pela rede pública transmita ou cause infecção pela covid-19.

Alguns estudos sugerem que o vírus possa ser encontrado no esgoto, entretanto, não há nenhuma evidência de que a água tratada transmita a doença. Conforme o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, o novo coronavírus ainda não foi detectado em amostras de água tratada. Portanto, os dados informados pelo gestor municipal são inverídicos.

A divulgação de notícias falsas atrapalha o árduo trabalho das equipes de assistência em saúde neste momento de incertezas. Pedimos ao gestor municipal responsabilidade em suas palavras e atos.

A FARMED reforça:
:: O momento é de atenção.
:: É preciso conscientização social, cuidados e compartilhamento de informações corretas.
:: Fique em casa.
:: Cuide de sua família, seu bem mais precioso.

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