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Comportamento03/04/2020 | 16h45Atualizada em 03/04/2020 | 16h45

Confinamento desafia a harmonia entre casais e filhos. Confira o que dizem especialistas caxienses

Crianças podem apresentar ansiedade, enquanto adolescentes podem ficar mais mau humorados 

Confinamento desafia a harmonia entre casais e filhos. Confira o que dizem especialistas caxienses Antonio Valiente/Agencia RBS
Márcio e Eliane Rezzadori, com as filhas Isabele e Manuele e o cachorro Thor Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Dos muitos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, manter a sanidade no confinamento é um dos mais urgentes. Famílias que tiveram suas rotinas afetadas passam a ter de lidar com as idiossincrasias do convívio forçado nas 24 horas do dia, num momento em que as emoções alteradas e os nervos à flor da pele não eximem de ter de cuidar uns aos outros. Como manter a leveza das relações e não fazer do isolamento um fardo para pais e filhos, maridos e esposas?

No apartamento em que vivem no bairro cinquentenário, em Caxias do Sul, a psicóloga Eliane Rezzadori e o gerente bancário Márcio Rezzadori descobriram que não existe mágica ou milagre, mas sim a atenção maior aos valores do dia a dia. Além de companheirismo, exercitar ainda mais a paciência, virtude que faz controlar o impulso. Exercitar a tolerância entre eles e também na relação com as duas filhas, Isabele, 12, e Manuele, 7.Se a  angústia e a ansiedade são inevitáveis, isso não é razão para não tentar controlá-las.

- É preciso reconhecer que passar tanto tempo em casa vai provocar irritação em alguns momentos, e nessas horas é preciso ficar um pouco sozinha. Dividir as tarefas domésticas e os cuidados com as filhas é fundamental e isso só é possível com muita cumplicidade entre o casal. Tem que saber entender a singularidade da situação. Todos estamos expostos a uma carga emocional que nunca tivemos, então vamos rir das nossas próprias reações exageradas, colocar a cabeça no lugar e seguir em frente - sugere a mãe. 

No comportamento das filhas, que desde o último dia 18 estão confinadas em casa, Eliane diz perceber uma alternância entre achar legal e achar chato estar há tanto tempo sem sair. E percebe, principalmente na caçula, Manuele, traços de ansiedade:

- É aquele "mãe, tô com fome" que tu percebe que não é fome, mas sim ansiedade e um pouco de tristeza, principalmente por estar longe das coleguinhas. Ligar para a melhor amiga é o que acalma. E é bonito de ver como as crianças se reinventam rapidamente. Ela e a amiga brincam até de se esconder nas chamadas por vídeo.

A mais velha, Isabele, passou a repetir com mais frequência o bordão da pré-adolescência, o "ai, que saco", diverte-se mãe. Manter a mente bem ocupada, contudo, foi a forma de evitar o mau humor. Tendo de passar os dias em casa, a menina aproveitou para exercitar o lado "influencer", publicando no Instagram comentários sobre livros e séries que ela gosta. E pela manhã, desde que as aula passaram a ser online, a capacidade de organização surpreendeu a mãe.      

- No horário que começaria a aula ela já está na bancada, pronta pra assistir. Ela e mais três colegas se conectam e ficam em grupo, como se estivessem na aula presencial. É claro que as duas apresentam momentos em que é mais difícil lidar, até por ser normal da infância e da adolescência. O confinamento evidencia esses traços. Mas algo que ajuda muito é colocar tudo em palavras, ao invés de achar que o olhar ou o gesto resolvem. Deixar claro aquilo que está errado facilita o entendimento - avalia Eliane. 

Irritabilidade e humor instável são naturais

   Entre as alterações esperadas no comportamento de crianças confinadas durante a pandemia, a psicopedagoga caxiense Salete Anderle considera natural que haja uma maior irritabilidade, instabilidade de humor e agitação. Elas também irão requisitar mais a presença dos adultos, seja para atividades boas, como brincar, ou para reclamar e choramingar. 

O que pode ajudar a resgatar uma normalidade no convívio, diz a profissional, é ser para a criança o exemplo de comportamento sereno que ela precisa.

 - Não adianta esperar que uma criança fique calma se os adultos que ela tem em casa estão estressados e envolvidos em mil tarefas ao mesmo tempo. É preferível optar por realizar menos atividades, que possam ser feitas de forma mais serena, do que encher a si próprio ou a criança de tarefas. O mundo está nos dizendo que é hora de lentificar nossas ações e de cumpri-las com mais atenção ao presente. Neste momento em que não temos a liberdade quanto ao que fazer, ainda resta escolher o "como fazer". E minha sugestão é curtir cada momento, tendo momentos de interação e mostrando à criança que, mesmo em casa, há limites, há hora para a comida, para os estudos e para as brincadeiras - comenta. 

A psicopedagoga ainda ressalta que, desde o início da pandemia, o que mais tem chamado a atenção dos pais é o quanto as crianças questionam sobre o atual momento, mostrando-se conscientes e preocupadas com a doença que ameaça a todos. Por se tratar de um assunto que os próprios adultos desconhecem muitas respostas, muitos pais têm se mostrado atônitos:

-  Às vezes a gente tende a subestimar a capacidade que as crianças têm de absorver a realidade. Tem chegado a mim relatos de pais preocupados com crianças muito cientes de que a saúde das pessoas está em risco, que querem saber se o vô e a vó vão ficar bem. São questões que exigem um grau de serenidade que muitos ainda não tinham experimentado.

Invista (tempo) em histórias

A neuropsicóloga caxiense Salete Anderle incentiva a contação de histórias para crianças em tempos de pandemia<!-- NICAID(14468751) -->
A neuropsicóloga Salete Anderle sugere a contação de histórias como alternativa ao excesso de exposição a animações digitaisFoto: Amanda Vanassi / Divulgação

Se uma das características das crianças que nascem e crescem na era digital é a exposição muito maior à tela, seja do celular, do tablet ou da televisão, também é preciso saber dosar o tempo que ela passa assistindo desenhos ou programas infantis. Salete Anderle faz uma crítica à qualidade desses conteúdos:

- Reparo que os desenhos estão cada vez mais caricaturizados, perdeu-se muito na construção de boas histórias ou de bons personagens. Isso atrapalha na medida em que a criança passa a ter dificuldade em ver o sentido das coisas. Elas querem apenas o brinquedo do personagem que está no desenho. É um tempo muito grande em que a criança fica apenas como espectadora, sem articular nenhum novo conhecimento ou aprender a solucionar problemas - aponta. 

Salete sugere a contação de histórias com um recurso inestimável para a formação da criança, mesmo as que já aprenderam a ler:

_   É algo que uso no consultório como instrumento terapêutico, como distração e método de alfabetização, com resultados muito positivos. Quando alguém lê uma história para uma criança, e depois a convida a recontá-la, desenhando, por exemplo, ela mistura elementos da história com os da sua própria vida e isso ajuda a entender as coisas boas e conflitivas na cabecinha dela. O efeito da literatura infantil é muito mais amplo do que se imagina. Tanto é que ninguém esquece da sua história infantil preferida.

"Já não somos as mesmas pessoas"

Neuropsicóloga caxiense Salete Anderle dá dicas de como tornar mais fáicl o convívio entre pais e filhos durante a pandemia. Foto genérica, do consultório da profissional.<!-- NICAID(14468781) -->
Desenhar é uma das formas de aliviar a pressão mentalFoto: Amanda Vanassi / Divulgação

A psicóloga e psicanalista caxiense Camila Lang define como uma "salada de frutas de sentimentos" o que se passa em nossas mentes e transborda para nossas casas no período de quarentena. Diz não gostar de receitas, pois cada um encontra sua forma de dar conta da sua angústia. Diante de um cenário novo, que desafia também os profissionais dedicados a tratar a mente, ressalta que as famílias devem dar uma importância ainda maior ao ato de ouvir. 

_ Ainda não temos como mensurar as consequências psíquicas da pandemia, mas muita gente irá sucumbir pelos efeitos sociais do vírus. O que podemos fazer, desde já, é estarmos mais atentos aos que nossos entes queridos estão manifestando. Diante de um cenário que ainda não conhecemos, teremos de encontrar formas de sobrevivência coletiva, que não se resume a uma saída pela economia, mas a uma coletividade de valores, bem como uma tolerância ainda maior com o outro e com a gente mesmo, a partir do momento em que sabemos que já não somos os mesmos. Somos pessoas tocadas por uma situação nova _ analisa. 

Camila reforça que uma realidade difícil de encarar será a impossibilidade de voltar a uma vida anterior. A palavra "voltar", diz, sequer deveria ser usada, pois é enganosa. Todos, de alguma maneira, serão impactados pela pandemia. 

- A gente adoraria voltar para a infância, que é o nosso paraíso perdido. A vida não será mais como antes. A educação dos nossos filhos não será mais a mesma. Temos de aprender a redimensionar nossas vidas. Como não enlouquecer neste momento em que sabemos tão pouco o que nos espera? Alguns sobreviventes de campos de concentração recorreram ao simbólico: escreveram cartas, fizeram desenhos, elaboraram músicas mentais. O simbólico ocupa um espaço muito importante em nossa mente.   

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