Conheça a história do casarão mais antigo do centro de Caxias habitado pela mesma família - Cidades - Pioneiro

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Memória03/01/2020 | 18h21Atualizada em 05/01/2020 | 15h03

Conheça a história do casarão mais antigo do centro de Caxias habitado pela mesma família

Endereço dos Amoretti, na Rua Marechal Floriano, entre a Júlio e a Sinimbu, mescla-se à evolução de Caxias desde o final do século 19

Conheça a história do casarão mais antigo do centro de Caxias habitado pela mesma família Acervo de família / divulgação/divulgação
O casarão dos Amoretti, o lendário Studio Beux e o Edifício Rosário, na Sinimbu (subindo, ao fundo), em meados de 1960 Foto: Acervo de família / divulgação / divulgação

Impossível passar indiferente por ele. Em meio ao corre-corre do Centro e à "cidade que não para", adentrar no antigo casarão de madeira da família Amoretti, na Rua Marechal Floriano, 858, entre a Júlio de Castilhos e a Sinimbu, é embarcar em uma espécie de túnel do tempo. Um oásis onde as horas passam mais devagar, onde quase não se ouve o barulho da rua, dos carros e ônibus, do entra e sai nos modernos prédios envidraçados do entorno, do vaivém de gente, enfim, do fluxo constante de uma das vias mais movimentadas de Caxias.

Foi o que aconteceu no início de dezembro, quando as irmãs Ivanize Maria Amoretti Sartori, Teresinha Lais Amoretti e Gislaine Diniza Amoretti abriram as portas para este jornalista, que há muito observava e tinha curiosidade sobre a história por trás daquelas paredes e daquele imenso "lote" verde. Uma história de mais de 120 anos, cujos detalhes vão muito além dos limites do terreno. Mesclam-se ao pioneirismo do filho de imigrantes italianos Nicolau Amoretti ainda em Porto Alegre, à sua decisão de mudar para a Serra Gaúcha, aos primórdios da Freguesia de Santa Tereza, à Colônia Caxias, à evolução da cidade, à família, aos filhos, netos, bisnetos e a uma descendência que segue gerando frutos até hoje.

Nicolau Amoretti: um porto-alegrense na Colônia Caxias
A padaria dos irmãos Amoretti e o clássico pão "cervejinha"

Quem tomou a iniciativa de resgatar todo esse baú de memórias foi dona Ivanizi Maria Amoretti Sartori, 86 anos. Professora aposentada, ela responde pela publicação Resgatando o Passado, fruto de mais de 10 anos de pesquisas e lançada no último dia 29 de novembro em um local estratégico: a Livraria do Maneco, a poucos metros do casarão da Marechal Floriano — onde ela morou de 1950 até casar, em 1962. Neta do casal Nicolau Amoretti e Maria "Marieta" Santini e a quarta dos 10 filhos de Antônio "Nico" Amoretti e Victória Troian, dona Ivanizi faz um relato minucioso, didático e, por isso mesmo, apaixonante da história familiar, cujos trechos originais iremos reproduzir em itálico ao longo desta reportagem:

"Este é o início de uma história que veio de longe. A história que vou contar  é baseada em relatos orais que ouvi de meus antepassados, sendo que datas e certos relatos extraí de obras e registros dos historiadores caxienses João Spadari Adami e Mário Gardelin. De Gênova, região da Liguria, situada ao norte da península italiana, partiram três jovens da família Amoretti: um deles radicou-se na França, os outros dirigiram-se para a América do Sul. Chegando em São Paulo, ali não se adaptaram, continuando sua viagem mais para o Sul. Um seguiu para a Argentina, onde fincou raízes. O terceiro, João Baptista, meu bisavô, apelidado de “Rato”, fixou residência em Porto Alegre, onde constituiu família. Sua esposa, também italiana, chamava-se Catherina. Em 1852, nasceu seu filho Nicolau Luiz Amoretti, meu avô".

O avô de dona Ivanizi chegou ao antigo Campo dos Bugres por volta de 1876, como auxiliar da Comissão de Terras e Medição de Lotes, ajudando a fiscalizar os terrenos vendidos. 

"Nicolau adquiriu o lote três da quadra cinco, onde construiu sua residência e nela criou sua numerosa família. Este terreno atualmente está situado na Rua Marechal Floriano, 858, e ainda continua na posse e propriedade de seus herdeiros, descendentes de seu décimo sexto filho, Antônio Amoretti".

Imagem de Nicolau Amoretti e de seu cão perdigueiro durante uma caçada é praticamente a única existente na famíliaFoto: Acervo de família / divulgação
A matriarca Maria “Marieta” Santini Amoretti, esposa de Nicolau Amoretti, com os 15 filhosFoto: Acervo de família / divulgação

Os filhos

Além de Antonio Amoretti, o "Nico", a prole de 19 filhos de Nicolau e sua esposa Maria era completada por João, Luiz, Sebastião, Nina, Carlim, Antonieta, Hermínia, Amélia, Zulmira, Ida, Arnaldo, Delícia, Maria, Marina, José, Cecília, Gastão e Silvia. Foi na época em que os filhos mais velhos tinham em torno de 15 anos que o primeiro casarão erguido por Nicolau sucumbiu.

"A primeira casa de meu avô foi destruída por um incêndio ocorrido durante a Revolução (Federalista) de 1893. Cheguei a esta conclusão ao ler a História de Caxias do Sul, escrita por João Spadari Adami. Como a casa de Nicolau situava-se na mesma quadra de importantes prédios públicos que foram atacados, saqueados e incendiados durante as 15 horas de estadia dos revolucionários, ela também deve ter tido o mesmo fim". 

Sem moradia, os Amoretti migraram para São Sebastião do Caí, dando continuidade à produção de pães, uma atividade desenvolvida pela família ainda em Porto Alegre. No Caí ficaram até a construção de outra casa, em meados de 1898, no mesmo local da consumida pela fogo, à Rua Marechal Floriano, 858, o que permite afirmarmos: trata-se, muito provavelmente, do mais antigo endereço de Caxias habitado por descendentes de uma mesma família.  

"Com a forte madeira extraída dos pinheiros nativos, com os grossos caibros de madeira de lei a sustentá-la, a casa, ora centenária, continua a abrigar os descendentes de quem a construiu, sendo que ainda hoje existe o anexo de toscos tijolos unidos a barro onde era padaria. Hoje, adaptado, é o salão de festas da família. Mais tarde, as tabuinhas do telhado da casa foram substituídas por folhas de zinco, foram acrescentados uma cozinha e dois banheiros de alvenaria. Com um conserto aqui, uma pintura ali, ela vai resistindo ao tempo, acolhedora como sempre foi".

Os Amoretti na década de 1950. Em pé, Rogério, Sérgio, Marina, Teresinha, Natal, Ivanizi, Arnaldo e Mário. Sentados, o casal Antônio (Nico) e Victória, entre as filhas Gislaine (à esquerda) e IracemaFoto: Acervo de família / divulgação

A família de Antônio Amoretti

Antônio Amoretti, cujas filhas Teresinha Laís Amoretti e Gislaine Diniza Amoretti moram no casarão até hoje, nasceu em 27 de setembro de 1902. Com a morte do pai, Nicolau, em 1908, "Nico" precisou auxiliar a mãe no sustento da casa e dos irmãos desde cedo. Aos 14 anos, juntamente com o irmão Arnaldo, fundou um estabelecimento comercial, a Casa Gaúcha, localizada entre Ana Rech e Vila Seca. 

Foi lá que ele conheceu a jovem Victoria Troian, com quem casou em 7 de janeiro de 1928. A união foi abençoada com o nascimento de 10 filhos: Iracema de Lourdes, Gislaine Diniza, Sergio Nicolau, Ivanizi Maria (autora do livro da família), Arnaldo Antonio, Natal José, Marina, Teresinha Laís, Mario Alberto e Rogério (todos na foto acima).

"Os quatro primeiros filhos de Nico e Victória nasceram na Casa Gaúcha, estabelecimento comercial localizado na Boca da Serra. Até que o irmão e sócio Arnaldo adoeceu e o negócio foi encerrado. Em 1934, Nico transferiu-se com a família para a Fazenda dos Ilhéus, nos Campos de Cima da Serra, onde, em sociedade com o irmão Gastão adquirira uma propriedade de 100 hectares do cunhado Guerino Sartori. Estabeleceu-se com outra loja, a Casa Branca da Serra, que muito progrediu. No ano de 1942, a família mudou-se para Caxias."

Por aqui, Victória e Nico, em sociedade com as irmãs Maria e Ida Amoretti, atuaram como ecônomos do Recreio da Juventude, então localizado no prédio da esquina das ruas Visconde de Pelotas e Sinimbu (atual Círculo Operário Caxiense), onde a família também passou a morar. Posteriormente, em 1946, instalaram um restaurante na Avenida Júlio, ao lado do Cine Central, residindo na parte superior e nos fundos do sobrado. Já em 1948, Nico adquiriu o velho casarão da Rua Marechal Floriano, porém, "habitado".

"Os Amoretti, meu pai e seus irmãos, haviam doado suas partes da propriedade da Rua Marechal Floriano para as irmãs solteiras Maria, Ida e Hermínia. Tia Ida já falecera e as outras queriam vender, para sua sobrevivência. Mas tinha de ser para um dos irmãos, pois os tios doentes João e Arnaldo, mais o tio Carlim, tinham de ficar morando na casa".

Assim foi. A mudança para o casarão da Marechal Floriano deu-se em 1950, quando o imóvel foi adquirido das tias que haviam herdado a propriedade. Era fevereiro, e a adolescente Ivanizi retornava das férias na Praia da Cal, em Torres. A chegada na nova moradia, "a espaçosa e velha casa de madeira", foi relembrada com riqueza de detalhes no livro:  

"Achei tudo muito bonito. Tinha sido adaptada, toda pintada e a cozinha era construção nova. As manas Ira (Iracema) e Laine (Gislaine) iam me mostrando as peças arrumadas. No fim do corredor, um alçapão com escada, dando para o porão de chão batido, onde se guardavam, e ainda se guardam, lenha, garrafas e velharias. Separada ficava a parte onde moravam os tios. Uma passagem coberta ligava e liga o corpo da casa de madeira à cozinha velha de tijolos com barro, onde ainda existia, nos fundos, o forno da antiga padaria dos tios. Mais tarde, com o passamento dos tios, esta parte da casa destinada a eles foi modificada e utilizada por nós. Todas essas peças, 17, fazem parte do casarão, de uns 14 metros de frente por uns oito de fundo, edificado junto à calçada, num terreno de 22 por 44 metros". 

Aliada a toda essa área, a localização privilegiada, obviamente, já despertou a especulação imobiliária. Conforme a família, várias propostas para a compra do terreno já foram feitas nos últimos anos, algo que nunca passou pela cabeça dos herdeiros — e que encontra eco em uma das passagens do livro: 

"Suas tábuas e caibros resistentes são de cerne de pinho. Para fincar um prego, ainda hoje, precisa-se de muita força".

A mesma força que mantém os Amoretti à frente do casarão há mais de um século…

O casarão em meados da década de 1990, ainda com o estacionamento de veículos na ruaFoto: Acervo de família / divulgação
Casarão de madeira é um ícone do Centro históricoFoto: Antonio Valiente / Agência RBS
Madeiras datam do fim do século 19Foto: Antonio Valiente / Agência RBS
Foto: Antonio Valiente / Agência RBS
Foto: Antonio Valiente / Agência RBS
Foto: Antonio Valiente / Agência RBS

Diversão e aulas particulares

Lembranças da juventude no casarão não faltam às irmãs Amoretti e a quem passou por lá, seja à diversão ou para "reforçar" o aprendizado. Professoras "desde sempre", dona Teresinha, 78 anos, e dona Gislaine, 90, até hoje são procuradas por ex-alunos que passaram pelo casarão para visitas e aulas particulares de Português, Inglês, Francês, Matemática, além de várias outras disciplinas das séries primárias. Outra constante na casa era — e ainda é — o entra e sai de amigos, parentes e vizinhos, recordado em uma das passagens do livro:

"Na casa da Rua Marechal Floriano, onde moramos mais tempo, foi onde fizemos as amizades mais duradouras: os De Carli, os Paglioli, os Da Poian, os Estiphan, os Stedile, os Hudson, estes dois últimos pastores da Igreja Metodista".    

Aliás, de todos os endereços e locais que fizeram história na antiga vizinhança dos Amoretti, a Igreja Metodista, fundada em 1892, é a única que segue firme. Ficaram na memória a Garagem Modelo, as lojas Alfred (Tecidos e Artefatos Kalil Sehbe), o posto de gasolina da família Da Poian, o palacete de Ary De Carli (na esquina da Marechal com a Júlio), o lendário Foto Studio Beux, praticamente grudado à casa, e a mansão da família de Angelo De Carli, na esquina com a Sinimbu — atual Centro Comercial Victoria De Carli. 

Uma das passagens do livro destaca as festas no terreno vizinho:

"Em conjunto com a vizinhança, por duas ou três vezes, organizou-se a Festa de São João. O terreno do seu Angelo De Carli, ao lado do nosso, estava sem muros por causa das obras. Nele armava-se a fogueira, com muita lenha e muitos pneus. Eu e minhas irmãs não deixávamos de fazer as simpatias de São João, como a do papel pingado de tinta e dobrado. Conforme o desenho que se formava, vinha a previsão do futuro. Flores significava alegria, festa. Cruz significava morte. Grinalda, casamento. Bons tempos aqueles!" 

Falando em grinalda, o casarão também foi cenário para o namoro da jovem Ivanizi com Venísio Sartori, falecido em 2015.

"Ele trabalhava em Galópolis, no Lanifício São Pedro, e eu lecionava em Santa Corona, na metade do caminho. Disse que, às vezes, viajávamos no mesmo ônibus, outras vezes me avistava aguardando condução, na estrada. Venísio começou a frequentar a casa, com a aquiescência dos meus pais, às quartas-feiras, sábados e domingos. No Natal de 1961, noivamos. Um ano depois, a 4 de janeiro, unimos nossas vidas pelos laços do casamento".

Não por acaso, é uma foto de Ivanizi e de seu Venísio na janela da construção de tijolos aparentes da velha padaria, no meio do terreno, que estampa a última página de Resgatando o Passado. E anexado à contracapa, uma detalhada árvore genealógica da família, atualizada e escrita à mão pela autora, com os bisavós, avós, tios, primos, segundos primos, filhos, netos e bisnetos da linhagem Amoretti, já em sua quinta geração. Tudo emoldurado por uma frase que antecipa o novo livro que está sendo preparado por dona Ivanizi : 

"E a história continua…"

Foto: Acervo de família / divulgação
Construção de tijolos aparentes é uma das surpresas do meio do terreno e abrigou a a antiga padaria da famíliaFoto: Acervo de família / divulgação

O livro

:: Título: "Resgatando o Passado"
:: Autora: Ivanizi Maria Amoretti Sartori
:: Editora: São Miguel - 162 páginas
:: Preço: R$ 40, disponível na Livraria do Maneco

Foto: Agência RBS / reprodução

Datas

Nicolau Amoretti, pioneiro de toda essa história, faleceu em 1908, aos 56 anos. A esposa, Maria Santini Amoretti (Marieta) morreu em 1939, aos 77. O filho Antônio Amoretti nasceu em 1902 e faleceu em 1970, aos 68 anos. A esposa Victoria morreu em 1991, aos 81 anos.   

Antônio Amoretti, o Nico, na juventude, nos anos 1920, e pouco antes de falecerFoto: Acervo de família / divulgação
Victória Troian Amoretti, esposa de Antônio Amoretti, com quem casou em 1928Foto: Acervo de família / divulgação

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