Crônicas de Natal #10: "pela porta da frente" - Cidades - Pioneiro

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Especial12/12/2019 | 08h51Atualizada em 12/12/2019 | 08h51

Crônicas de Natal #10: "pela porta da frente"

As ceias são todas especiais, mas um professor não esquece da noite em que um convidado diferente compartilhou a mesa com a família

Crônicas de Natal #10: "pela porta da frente" Arte: Luan Zuchi/Arte: Luan Zuchi
"Vi um olhar que declamava as melhores poesias." Foto: Arte: Luan Zuchi / Arte: Luan Zuchi
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O professor César Augusto Nunes Pinto é um dos convidados do Crônicas de Natal, projeto do Pioneiro que traz histórias reais deste período tão marcante no ano. A série será publicada até o dia 25 de dezembro.

Lembro de um Natal, o de 1988. Algumas frutas frescas pareciam ser a própria geografia da mesa. Havia alguns pratos típicos e os presentes. As mãos de minha mãe eram de fada, transformavam tudo o que tocavam, davam outras cores às paredes, às portas. Quando se chegava em nossa casa, parecia que se entrava em um outro mundo, diferente daquele cinza que plainava na rua, daquele ano sem cor que tínhamos passado. Nossa casa estava viva, respirava o Natal. E cabia a nós, simples crianças, também enfeitá-la. Tínhamos muito medo de quebrar aquelas bolinhas que, a cada dia de dezembro, pareciam se multiplicar. E o melhor de tudo era quando a gente pegava uma bolinha na mão, aproximava dos olhos e distanciava. Fazia isso repetidamente só para ver o rosto aumentar e diminuir no mais engraçado zoom. Os risos também se multiplicavam.

Ouça o áudio da carta: 

E foi ali, naquela casa, que um personagem chegou para mudar o Natal. Foi alguém capaz de fazer a gente esquecer as bolinhas. Pouco antes da ceia, meu pai entrou pela porta da frente com um menino franzino, de andar torto, um ser em que o silêncio “inquilinava”. 

Vestia-se ele de roupas mínimas e da mais alta timidez. Entrou de cabeça baixa e um pouco descolorido, afinal tinha vindo da rua. Era um flanelinha, quiçá com a dúvida se ele morava na rua e ou se a rua morava nele.

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Antes da ceia, vi que o silêncio realmente fazia morada naquela alma. Mas vi também que seu rosto era o melhor de todos os textos para ser lido. Vi que a alegria foi se soltando, montando paulatinamente seus parágrafos até que já não podia ser medida. Vi um olhar que declamava as melhores poesias.  

Aquela noite teve seu fim, o menino voltou às ruas onde o encontrei algumas vezes. Uma flanela na mão, o jeito tímido, mas com um sorriso enorme feito bolinha bem de perto.

Naquele Natal, o melhor presente não estava em um trenó,  não escorregou pela chaminé e nem veio embrulhado em papel bonito. A fraternidade entrou pela porta da frente.

César Augusto Nunes Pinto, professor

 *Crônicas de Natal é um projeto assinado por Adriano Duarte, Andressa Paulino, Juliana Rech, Luan Zuchi e Manuela Balzan.

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