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Memória30/08/2019 | 07h00Atualizada em 30/08/2019 | 07h00

De olho nas alturas e com o coração na boca em 1957

Apresentação do grupo de acrobatas alemães Zugspitz Artisten eletrizou o público que compareceu à antiga Praça Rui Barbosa, há 62 anos

De olho nas alturas e com o coração na boca em 1957 Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação/Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
O alemão Alex Schack equilibra-se sobre a praça, aqui entre o antigo Hotel Menegotto e o Edifício Minghelli Foto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

A década de 1950 ficou marcada por três acontecimentos que movimentaram o Centro como poucas vezes visto: as Olimpíadas Caxienses, organizadas pelo Departamento de Esportes da Rádio Caxias, nos dias 15, 16 e 17 de agosto de 1952; o incêndio na Ferragem Caxiense, em 23 de novembro de 1952; e a apresentação do grupo de acrobatas alemães Zugspitz Artisten, em 5 de junho de 1957. 

Tanto as olimpíadas quanto a performance dos artistas europeus foram filmadas por seu Oscar Boz, 99 anos completados no último dia 11 de julho. Cineasta amador nas horas vagas, seu Oscar costumava registrar o cotidiano da família e dos filhos munido de sua Kodak Magazine, quando decidiu captar também a passagem da trupe de malabaristas pela cidade.

Confira o vídeo original das Olimpíadas Caxienses de 1952, feito por seu Oscar Boz
Francisco Michielin: "E nós tivemos Olimpíada"

Sem desmerecer as Olimpíadas, o filme dos trapezistas é algo que impressiona até hoje. Tanto que a apresentação bem que poderia ter ganho o subtítulo "o dia em que o Centro de Caxias parou" – por ter atraído milhares até os arredores da então Praça Rui Barbosa.

Confira o filme original dos acrobatas alemães em 1957
A Praça Rui Barbosa em 1969

Famosos desde 1948 em todo o mundo pelas acrobacias sobre cabos de aço, os integrantes deixavam o público boquiaberto equilibrando-se a pé, de motociclo ou bicicleta. As acrobacias, oito no total, tinham nome e sobrenome: O Voador, Motociclo Aéreo, A Travessia Solitária, O Mastro Humano, O Trapézio Duplo, A Travessia às Cegas, Convite ao Bailado e Eletrizante. Este última, inclusive, vinha acompanhada de um aviso no programa:

"Número inconveniente para pessoas que sofrem dos nervos. A maravilha do equilíbrio combinado. Causa calafrios o desafio às alturas feito pelos três acrobatas alemães. Com motociclo, trapézio e escada, chegam à máxima exibição que tanta fama lhes deu".

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Acrobatas equilibram-se sobre motociclo, trapézio e escada nos cabos de aço instalados na esquina da Sinimbu com a Marquês do Herval.Foto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Trapézio e motociclo: uma apresentação que marcou época e nunca mais se repetiuFoto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

As atrações

A Travessia Solitária deu-se por um cabo de 16mm entre o recém-construído Edifício Minghelli (o prédio da Joalheria Kayser) e um poste instalado próximo à Rua Dr. Montaury, passando exatamente pelo centro do chafariz (foto que abre a matéria).

Outros destaques foram O Mastro Humano,  em que um dos integrantes realizou uma série de acrobacias no topo da Metalúrgica Abramo Eberle, e O Voador. Neste último, o artista Rudi Berg, suspenso unicamente por uma corda na nuca e com os braços abertos, desceu pelo cabo em alta velocidade desde o alto do Edifício Minghelli até a frente da Catedral Diocesana.

Redes de proteção e equipamentos de segurança? Nenhum, conforme vemos nas imagens do antigo Studio Geremia.

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O Mastro Humano: acrobacias no terraço da Metalúrgica Abramo Eberle atraíram todas as atenções para o altoFoto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
A Travessia Solitária: o alemão Alex Schack equilibra-se sobre a Praça Dante, aqui entre o antigo Hotel Menegotto (à esquerda) e o Edifício MinghelliFoto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Os artistas após a realização das acrobacias, na esquina das ruas Sinimbu e Dr. Montaury. À esquerda, o prédio do Magnabosco e, à direita, parte da antiga casa da família SerafiniFoto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Os artistas após a realização das acrobacias, na esquina das ruas Sinimbu e Dr. Montaury. À direita, parte da antiga casa da família SerafiniFoto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Os artistas

Surgido no pós-guerra, em 1946, o grupo era formado pelos artistas Alex Schack, Siegward Bach, Rudi Berg e Miss Sylvia, sob a direção do também alemão Wilhelm Butz. O nome era uma referência ao monte Zugspitz, o mais  alto da Alemanha, onde o quarteto deu início às suas mais incríveis façanhas. 

Reportagem do jornal Pioneiro da época fazia um alerta: “Não resta a menor dúvida de que quem sofre dos nervos não deve assistir a espetáculos dessa natureza, embora a beleza que transmitam esses verdadeiros homens voadores”.

 No Rio Grande do Sul, os alemães fizeram apresentações também em Porto Alegre e Pelotas (foto abaixo), também em 1957.

A apresentação do grupo alemão em Pelotas em maio de 1957Foto: Reprodução / Agência RBS

Curta-metragem e livro

Filmes como o da apresentação dos artistas alemães e vários outras "produções caseiras" de seu Oscar Boz chamaram a atenção do diretor Jorge Furtado em 2003. Foi quando os originais do aposentado caxiense deram entrada na Casa de Cinema de Porto Alegre. Na época, o material serviu de matéria-prima para um emocionante curta-metragem sobre a família, Oscar Boz: Aprender e Ensinar.

Oscar Boz em 2010, época do lançamento do livro "Tecendo Memórias"Foto: Roni Rigon / Banco de dados, Agência RBS

Boa parte da trajetória de seu Oscar está registrada também no livro autobiográfico Tecendo Memórias, organizado pela filha Maria Elena Boz Nora e lançado em 2010, quando o pai completou 90 anos (foto ao lado). Estão lá dezenas de histórias de família, depoimentos de amigos, nuances do cotidiano, o aprendizado adquirido ao longo dos anos, enfim, um registro dos hábitos e costumes de uma época que não volta mais.

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Parte das informações desta página foi publicada originalmente na coluna de 28 de outubro de 2015.

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