Centro cultural caxiense oferece frutas e verduras de graça para quem passa pelo local - Cidades - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Gentilezas urbanas22/01/2019 | 19h21Atualizada em 23/01/2019 | 21h28

Centro cultural caxiense oferece frutas e verduras de graça para quem passa pelo local

Ação busca demonstrar que a convivência na cidade pode ser mais humana

Centro cultural caxiense oferece frutas e verduras de graça para quem passa pelo local Lucas Amorelli/Agencia RBS
Em dias alternados, sacolas com frutas, verduras e hortaliças são dispostas nas grades do Instituto Samba Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

A aposentada Maria de Fátima Daitx, 64, acordou mal nesta terça-feira (22), com dores no corpo. Moradora do loteamento Jardim Itália, em Caxias do Sul, ela pegou um ônibus pela manhã até o Centro, para uma das sessões de fisioterapia receitadas como tratamento. Na volta, uma surpresa transformou o dia dela: enquanto esperava o ônibus de retorno, na esquina da Rua Visconde de Pelotas com a Hércules Galló, ela notou uma mulher colocando diversas sacolinhas com tomates, cebolas, espigas de milho, ameixas e hortaliças na grade de uma casa atrás da parada. O que Maria não viu foi um cartaz que acompanhava os produtos: "pode levar, são suas", dizia o aviso. 

Leia mais
3por4: Conheça mais sobre o Instituto Samba, que abrirá as portas em Caxias em breve
Memória: um casarão de 1973 que deu "Samba"

— Eu até perguntei quanto que saia, porque tinha só R$ 2 no bolso. Quando ela disse que era para pegar, fiquei surpresa. Achei fora de série. Amanheci ruim, fui na fisioterapia e encontrei uma coisa boa. Cheguei em casa e comi seis ameixas — conta. 

Maria foi uma das pessoas beneficiadas pelo projeto do Instituto Samba. Há cerca de três meses, integrantes do centro cultural penduram sacolas com frutas, legumes e hortaliças em frente à sede. Tudo é destinado a qualquer pessoa que passar por ali. Conforme Mara De Carli Santos, responsável pela atividade, os produtos são provenientes da própria horta do local e também da chácara dela, no interior de Caxias. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 22/01/2019Projeto que disponibiliza de graça frutas e legumes cultivados ali para quem passa pelo local. (Lucas Amorelli/Agência RBS)
Ação tem surpreendido quem espera o ônibus na parada da Rua Visconde de Pelotas com a Hércules GallóFoto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

A ideia, porém, não deve ser confundida com uma simples doação: o dia em que os produtos estão disponíveis varia, bem como a quantidade deles, com o intuito de abranger o maior número de pessoas, estimular a convivência entre o instituto e a comunidade e motivar novas boas ações entre os moradores da cidade. 

— Há quase 30 anos, eu e meu marido temos uma chácara e a produção sempre foi para o consumo de casa, com o restante entregue a alguma instituição. Quando o instituto abriu, a gente percebeu a parada de ônibus e uma possibilidade de fazer os saquinhos para colocar ali e ver o que acontecia. E foi uma coisa fascinante. Mais do que isso, emocionante — relata Mara.

"Todo dia tem um depoimento, um sorriso"

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 22/01/2019Projeto que disponibiliza de graça frutas e legumes cultivados ali para quem passa pelo local. Jéssica de Carli(Lucas Amorelli/Agência RBS)
A artista Mara De Carli Santos é a responsável pelo abastecimento dos produtosFoto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Segundo Mara, a reação das pessoas inicialmente é de dúvida quanto à possibilidade de levar os produtos de graça. Vencido o receio, porém, logo se desenvolve uma relação entre o instituto e os beneficiários.

— A gente espera que as pessoas vejam, leiam e, às vezes, a gente conversa. E quando um toma a iniciativa, vem todo mundo. A gente esperava que as pessoas levassem, mas não que recebesse tanto em troca de algo que é tão pequeno. Uma sacola é quase nada, não muda a vida de ninguém. Mas todo dia tem um depoimento, um sorriso, um obrigado. Já ganhei mil beijos — conta. 

Mara se emociona ao lembrar de algumas experiências que já vivenciou desde o início do projeto: entre elas, a de uma senhora que disse que não tinha o que almoçar até que ganhou uma sacola de verduras; e de uma mãe que, a caminho de visitar filho internado numa clínica, no dia de Natal, acabou levando um saco de pêssegos como presente.

— Um dos dias mais emocionantes também foi próximo do Natal, era época de guabiroba. Eu trouxe um monte, mas pensei que não iam pegar, porque talvez as pessoas nem conheçam mais. E um senhorzinho viu e ficou olhando. Eu perguntei se ele queria, ele disse que não tinha dinheiro para comprar. Eu falei que era pra levar e ele me abraçou tanto... Contou toda a história, que veio dos Campos de Cima da Serra e veio trabalhar aqui, e que lá tinha uma casinha, com um pé de guabiroba — lembra. 

Gentileza gera gentileza

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 22/01/2019Projeto que disponibiliza de graça frutas e legumes cultivados ali para quem passa pelo local.Case: Maria de Fátima cel: 55 9 9138 6963 (Lucas Amorelli/Agência RBS)
A aposentada Maria de Fátima Daitx (à direita), 64, foi surpreendida com os produtos e aproveitou para levar ameixas e espigas de milho para casaFoto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

O compartilhamento da colheita do instituto faz parte do projeto Samba Verde, uma das atividades previstas para esse ano, focada na preservação do meio ambiente. O formato da ação, no entanto, tem contribuído também para melhorar, um pouquinho, o dia a dia atarefado de quem está acostumado com a rotina da cidade.

— Vivemos numa sociedade individualista, as pessoas não são acostumadas a receber sem que tenham que dar algo em troca. E com uma coisa, nada excepcional, que eu chamo de gentileza urbana, as pessoas se tornam gentis, elas se tornam permeáveis. Esse é um objetivo, não ter dia, não ter a promessa do produto, porque é sempre sazonal, e porque é surpresa. Não vamos criar o hábito, queremos que a pessoa se surpreenda — aponta Mara.

De acordo com Jessica De Carli, filha de Mara e coordenadora do instituto, a ideia é inspirada no conceito de "acupuntura urbana", do arquiteto Jaime Lerner. 

— É como a acupuntura do corpo, tu faz uma coisa num pontinho, mas que reverbera no todo. Então, eu acredito em cidades melhores quando a gente pensa pequeno, em fazer pequenas gentilezas urbanas. A gente sonha também em adotar a parada de ônibus, e esses limites de território começarem a se diluir — explica.

Para Mara, os resultados já são claros: a partir do momento em que uma pessoa é tratada com gentileza, ela imediatamente retribui o gesto: até o momento, ninguém se aproveitou do fato de os produtos estarem disponíveis para levar mais do que necessita. Da mesma forma, as pessoas começaram a pensar duas vezes no que realmente precisam antes de pegar os alimentos.

— É uma ação que gera uma reação de igual natureza. Tem pessoas que olham, mas dizem que não vão levar porque têm tomates numa horta em casa, que vão amadurecer logo e tem consciência de que alguém que não tem vai levar. Hoje, um senhor passou e disse que adoraria pegar, mas deixou porque tinha condições de comprar no mercado. A gentileza é tu entender o teu entorno e querer se relacionar com ele. É nisso que a gente acredita. 

Leia também
Vistoria aponta irregularidades na clínica psiquiátrica Paulo Guedes, em Caxias do Sul
Caxias do Sul tem ao menos 580 vagas de empregos abertas
Prefeitura identifica homem que aparece sendo molhado por seguranças em Caxias

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
Imprimir
clicRBS
Nova busca - outros