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Saneamento14/11/2018 | 20h15Atualizada em 14/11/2018 | 20h15

Moradores de Gramado reclamam de falta de água há 15 dias

Abastecimento volta apenas durante algumas horas na madrugada; Corsan promete solução com obra na próxima semana

Moradores de Gramado reclamam de falta de água há 15 dias Divulgação/Divulgação
Nesta terça-feira, Escola Municipal Gentil Bonato, na Vila Prinstrop, teve que ser abastecida com caminhão-pipa Foto: Divulgação / Divulgação

Cidade vitrine da Serra gaúcha, Gramado recebeu no fim de outubro a notícia de que uma empresa investiria R$ 115 milhões no município para a instalação de um aquário com mais de 60 tanques para a exibição de centenas de espécies. Quase simultaneamente, porém, moradores reclamavam da falta de água em diversos pontos do município. 

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Eles denunciam que o abastecimento tem sido interrompido diariamente nas primeiras horas da manhã, para retornar somente na madrugada seguinte. Esse é o cenário recorrente na Vila Prinstrop, bairro ao sudoeste do centro da cidade, de acordo com a jornalista Deise Mariani, 58. 

— Começou na semana do (feriado) de Finados. Tu levanta de manhã cedo e consegue lavar uma remessa de roupa, e só. Mas minha filha, que trabalha dois turnos, não consegue nem tomar banho — reclama.  

A moradora diz que diversos vizinhos entraram em contato com a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), concessionária do serviço da cidade nos últimos 15 dias, mas a empresa teria afirmado que não há falta de água na cidade. 

Na última semana, relatos semelhantes se intensificaram nas redes sociais. 

— Há duas semanas, falta água o dia inteiro. Volta às 2h e às 8h já não tem mais. O pessoal está indignado — relata outra moradora, que não quis se identificar.

A fotógrafa Patrícia Marques Costa, 30, vive no bairro Moura, no norte da cidade. Ela diz que o desabastecimento tem prejudicado a rotina dos moradores.

— Na segunda-feira, trabalhei no sol quente e cheguei em casa às 16h. Fui tomar banho, não tinha água. E, se volta no fim da tarde, não tem pressão para o chuveiro. Meu marido está tomando banho de madrugada, para ir trabalhar às 6h — reclama. 

O problema também está afetando os serviços públicos. Durante esta semana, moradores compartilharam fotos e vídeos de escolas tendo de ser abastecidas por caminhões-pipa. Na terça-feira (13), a falta de água foi o principal tópico discutido na sessão do legislativo municipal. Os parlamentares cobraram movimentação política para pressionar a gestão da Corsan, mas moradores criticaram a falta de resolutividade. 

O vereador Volnei da Saúde (PP) abriu a sessão dizendo que o gerente local da Corsan, Neocir Jose Zorzo, foi questionado pelos parlamentares, mas ofereceu apenas explicações vagas para o problema. Volnei também afirmou que Gramado vive o período de maior fluxo turístico do ano, com o Natal Luz. Por isso, o tema deveria ser tratado com "extremo cuidado". 

— Nós não podemos permitir que o nosso turista leve essa imagem de Gramado. Porque isso vai acabar refletindo em cada um dos nossos moradores. É sabido por todos que Gramado vive o turismo. A dificuldade que cada um vem enfrentando com a falta de água, a gente sabe. Mas, se além da falta de água, a gente tiver o desemprego, a situação vai se agravar cada vez mais — discursou. 

A fala caiu mal entre alguns gramadenses, que entenderam a manifestação como sinal de que os turistas têm prioridade ante os nativos da cidade.

— Basicamente, foi falado que ou temos água ou emprego — criticou uma moradora que não quis ser identificada. 

— É complicado, temos medo que no mês de dezembro piore — declara a fotógrafa Patrícia Costa.

Procurada pelo Pioneiro, a assessoria de comunicação da prefeitura de Gramado disse que não se manifestaria sobre a situação, já que o serviço é de responsabilidade da Corsan.

Corsan diz que obra resolverá problema de abastecimento

Falta de água em Gramado. No dia 28 de setembro, novo reservatório foi inaugurado, em evento com a presença de políticos locais.
Com a promessa de resolver problemas, novo reservatório foi inaugurado em cerimônia com políticos locais no dia 28 de setembro Foto: João Paulo Flores / Divulgação

Quem sofre com a falta de água recorrente também questiona a utilidade de um reservatório instalado pela Corsan no dia 28 de setembro, na Aldeia do Papai Noel. O equipamento foi inaugurado em cerimônia com diversos gestores da concessionária e políticos locais. Com investimento de R$ 3,6 milhões e capacidade para armazenar 3 milhões de litros de água, mais de o dobro da capacidade da cidade, a ideia era prevenir o desabastecimento. Não parece ser, porém, o que vem ocorrendo. 

Com o intuito de apresentar soluções, representantes da Corsan estiveram na cidade na tarde desta quarta-feira (14) para uma coletiva de imprensa. O gerente local também foi substituído, conforme o diretor de operações da companhia, Eduardo Carvalho, em decisão tomada ainda na segunda-feira (12).

Depois do evento, Carvalho conversou com o Pioneiro. Ele diz que o novo reservatório ainda não está operando na capacidade total porque não está recebendo água suficiente do sistema.

O diretor explica que a água de Gramado vem de São Francisco de Paula até duas estações de tratamento em Canela. Dali, a água potável é distribuída por Gramado. Hoje, o consumo médio da cidade é de 270 milhões de litros d'água por mês, o que, segundo o diretor, é atendido pela infraestrutura atual. O problema, segundo ele, ocorre em horários de pico de consumo. 

— Déficit não tem, o volume que é consumido diariamente nós produzimos. O que ocorre, muitas vezes, é que em algum momento do dia, em função de um fluxo maior de pessoas, acabe diminuindo a pressão, provocando a falta em alguns pontos mais altos. 

Ele defende, porém, que o desabastecimento não é recorrente.  

— No feriado de finados, recebemos 70 reclamações no call center, entre 18h e 20h. Neste último fim de semana também, entre 70 e 80. Estimamos que o dobro de usuários tiveram algum problema, mas são 140 casos num universo de 35 mil clientes, entre Canela e Gramado — aponta.

Situações mais prolongadas, segundo o diretor, poderiam estar relacionada com vazamentos, que ele afirma estarem sendo reparados pela concessionaria, que contratou empresa para verificar as tubulações.

A maior intervenção, no entanto, vai ocorrer semana que vem. No dia 21, quarta-feira, uma tubulação que leva a água de São Francisco até Canela será duplicada. Com a obra, o sistema deve ter mais vazão e o abastecimento deve aumentar em 30% em gramado, impedindo novas situações de falta de água. 

— Estamos permanentemente buscando e descobrindo vazamentos para a redução de perdas. Em 10 dias, essa intervenção também dará uma produção maior. Pedimos que as pessoas entendam, estamos com a perspectiva de um futuro melhor sem falta de água ou redução de pressão para os bairros mais altos da cidade. 

Durante o dia da obra, o abastecimento será interrompido das 8h às 18h. Depois, o sistema será religado. A melhoria deve ser percebida após sete dias, quando a nova tubulação entrar em operação. 

MP pede providências

Relatos de falta de água nos meses de novembro e dezembro não são novidade em Gramado. O problema é histórico, de acordo com Max Guazzelli, da Promotoria de Justiça de Gramado. Em 2017, o promotor moveu ação civil pública contra a Corsan e o município após um inquérito apontar deficiências no serviço de distribuição de água e tratamento de esgoto. 

Guazzelli pede o encerramento do contrato de concessão com a companhia ou a adequação do termo ao Plano Municipal de Saneamento, aprovado em dezembro de 2016. O processo tramita na 1ª Vara Judicial da Comarca de Gramado, mas o promotor já conseguiu liminar exigindo a substituição de tubulações com vazamento pela Corsan. 

— Na ação, colocamos que crescia 8% ao ano a demanda por água em Gramado, a maior do Estado. As informações que temos é de que em torno de 36% da água tratada se perde no subsolo. É um índice altíssimo — aponta. 

O promotor diz que a companhia não apresentou cronograma ou planos para resolver o problema. Por isso, no final de outubro, ele solicitou que a Corsan fosse intimada a se manifestar, sob pena de multa diária de R$ 20 mil. O prazo começou a contar no dia 5 de novembro. Fora do âmbito judicial, ele diz reconhecer o esforço da direção atual da empresa, mas lamenta que as ações sempre tardem a aparecer.

— Na ação, já pedimos um aumento na capacidade de reservação da água, o que a Corsan acabou fazendo só agora, em época de Natal Luz. Também pedimos em liminar uma nova adutora entre Gramado e Canela, o que o Tribunal (de Justiça) derrubou em segunda instancia. Mas a Corsan sabe que vai ter que fazer, sob pena de que nos próximos anos o problema seja agravado — projeta.

Agora, ele diz que o papel do Ministério Público é aguardar o resultado das medidas anunciadas. Por enquanto, o promotor orienta que os consumidores que tenham problemas entrem em contato com a prefeitura de Gramado, por meio do Fala Cidadão, já que o município é o fiscalizador primário da Corsan.

— Há relatos de frustração com o 0800 da Corsan, mas o Fala Cidadão tem se mostrado meio mais eficiente. Inclusive, é maneira de dar informação para que o município cobre a eficiência do serviço — defende. 

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