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Região01/11/2018 | 07h30Atualizada em 01/11/2018 | 07h30

Memória: Antônio Prado recorda a tragédia de 1936

Comunidade inaugura nesta sexta um memorial em homenagem aos colonos mortos no conflito de 82 anos atrás

Memória: Antônio Prado recorda a tragédia de 1936 Prati Fotos Antigas / reprodução/reprodução
A Praça Garibaldi, a Igreja Sagrado Coração de Jesus e o centro de Antônio Prado, local do conflito de 1936, em meados dos anos 1940 Foto: Prati Fotos Antigas / reprodução / reprodução

Um trágico episódio, que marcou a história do município de Antônio Prado mas nem sempre recebe a devida relevância histórica, será recordado nesta sexta, Dia de Finados. É quando a comunidade da Capela São Pedro, na Linha Trajano, fará a inauguração do memorial em homenagem aos agricultores Antônio Perosa, Pedro Pastore e Vitório Meneguzzi. Os três foram mortos no conflito ocorrido em 25 de maio de 1936, no centro da cidade, quando também faleceu o então delegado de polícia, Armindo Cesa. 

A inauguração da placa ocorre nesta sexta às 16h, no cemitério do lugarejo, logo após a missa de Dia de Finados. Na sequência, haverá a palestra e lançamento de livro "Antônio Prado: religião, política e etnias no conflito de maio de 1936", do professor Valdemir Guzzo. À noite, ocorre um jantar alusivo, a partir das 20h, no salão da capela.

Conforme informações repassadas pela organização do evento, o conflito ocorrido há 82 anos traumatizou fortemente a localidade rural, que teve várias de suas famílias enlutadas pelos mortos e feridos durante o confronto.

— As lembranças daquele episódio ainda estão muito presentes na memória dos envolvidos. É importante realizar essa homenagem para resgatar um episódio que marcou a região e que precisa de reconhecimento e reparos — destaca o autor.

Por meio de documentos e depoimentos, o estudo analisa aspectos políticos, religiosos e sociológicos que resultaram no conflito na Praça Garibaldi durante uma manifestação de agricultores, descontentes com a alta de impostos, entre outras circunstâncias que motivaram os protestos.

Fruto de uma pesquisa realizada durante o curso de especialização em História Regional pela Universidade de Caxias do Sul, o livro de Guzzo descortina informações que jogam luzes sobre o acontecimento. O pesquisador apurou as motivações da comunidade e a conjuntura na qual ocorreu a tragédia, ainda nominada por alguns com termos como "guerra" ou "revolução", entre outras construções que povoam o imaginário popular.

 — Para se ter uma ideia, o conflito ocorreu em 1936, mas o registro policial veio apenas em 1938. Além disso, jornais que vieram fazer a cobertura na época ouviram basicamente a versão da prefeitura. Também não houve inquérito —  pontua.

Placa junto à fachada da prefeitura destaca apenas o nome do delegado Armindo CesaFoto: Stela Pastore / divulgação

Reconstrução dos fatos

O ato busca o reconhecimento público de todas as vítimas do episódio, destacando a necessidade da reconstrução do fato histórico com todas as suas nuances — corrigindo um desvio que precisava ser resgatado para cicatrizar as dores e lacunas nas famílias envolvidas. No prédio da prefeitura, por exemplo, ainda há uma placa fixada no ano do ocorrido, onde é citado apenas um dos mortos no conflito.

A jornalista Stela Pastore, sobrinha de um dos colonos atingidos, faz coro à iniciativa: 

— As reparações históricas são importantes e necessárias para reduzir danos e injustiças. Meu tio Pedro foi assassinado pelas costas a tiros enquanto socorria um ferido. Minha tia ficou viúva com seis filhos. A família e envolvidos foram perseguidos por meses por forças policiais. O processo para apurar os responsáveis "desapareceu". Como aconteceu na ditadura militar, é fundamental que a memória e a verdade prevaleçam para minimamente haver ideia de justiça.

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Professor Valdemir Guzzo abordará o conteúdo do livro que recordou do episódioFoto: Acervo pessoal / divulgação

Repercussão na época

A jornalista Stela Pastore também disponibilizou trechos do jornal Correio do Povo, um dos veículos que cobriu o conflito, em 1936. Numa das fotos (abaixo), o tio-avô de Stela, Carlo Pastore, é entrevistado por um repórter do Correio. Na sequência, as páginas com as fotos dos corpos dos três agricultores assassinados e dos colonos detidos pela polícia, logo após o atentado.

Agricultor Carlo Pastore é entrevistado por um jornalista do Correio do PovoFoto: Stela Pastore / Acervo pessoal, divulgação
A foto dos corpos dos agricultores assassinados estampou a reportagem do Correio do Povo na épocaFoto: Stela Pastore / acervo pessoal, divulgação
Os colonos detidos pela polícia, logo após o atentadoFoto: Stela Pastore / acervo pessoal, divulgação

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