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Patrimônio público04/09/2018 | 19h53Atualizada em 04/09/2018 | 20h44

Prefeitura de Caxias cede área verde que era usada para ritos religiosos a escoteiros

Grupos poderão solicitar espaço no bairro Cruzeiro para realizar atividades voltadas à preservação ambiental

Prefeitura de Caxias cede área verde que era usada para ritos religiosos a escoteiros Lucas Amorelli/Agencia RBS
Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Depois de solicitar a desocupação da área verde batizada de Parque Ecológico Reino dos Orixás, no bairro Cruzeiro, a prefeitura de Caxias do Sul decidiu ceder o local a grupos de escoteiros e bandeirantes. O destino do espaço, com cerca de 11 mil metros quadrados, era incerto desde o mês de maio, quando o município interrompeu o convênio com a Associação de Umbanda de Caxias do Sul. 

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Desde 2001, adeptos da religião afro-brasileira podiam usar o local para ritos, e as oferendas eram recolhidas uma vez por mês pela entidade. Em maio, quando o presidente da associação, Saul de Medeiros, buscou a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) para uma proposta de ampliar o convênio, foi informado que o município pretendia retomar a área. Na época, ele diz não ter recebido justificativa para a decisão. 

Há cerca de um mês, o Pioneiro visitou o espaço. Sem a manutenção corriqueira, as oferendas começaram a se acumular pelo espaço, misturando-se com resíduos diversos, o que indica que o local começou a ser usado como lixão clandestino. Um portão de ferro e os adornos do pórtico de entrada, além de partes da cerca de arame, foram furtados. 

Questionada pelo Pioneiro, a Semma informou que estava encaminhando os trâmites para fechar a área e que a Codeca realizaria a limpeza do local, o que parece ainda não ter ocorrido. Já o convênio com a Associação de Umbanda teria terminado por necessidade legal, já que a parceria se encerrou em 2016 e não houve pedido de renovação dentro do prazo. 

É nesse contexto que a prefeitura anunciou o projeto "Flor de Lis: a vida ao ar livre". O novo uso da área foi divulgado na última sexta-feira, durante atividade do movimento escoteiro. O município informou, por meio de nota, que a proposta "consiste em oportunizar a grupos escoteiros e núcleos de bandeirantes a execução de ações voltadas à conservação ambiental, tendo em vista a existência de elementos naturais como mata, pedreira, curso d'água e cachoeira", com o propósito de "proteger o espaço". 

Na nota, a secretária do Meio Ambiente, Patrícia Rasia, afirmou que a proposta partiu da pasta e foi apresentada ao coordenador do 16º Distrito Escoteiro, Ricardo Canevese. O Pioneiro tentou entrar em contato com Patrícia diversas vezes durante esta segunda-feira, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Em entrevista ao Pioneiro no dia 6 de agosto, porém, a secretária havia afirmado que um projeto para o espaço e para outras áreas verdes passava por estudo para que os locais pudessem ser utilizados por "toda a comunidade". No projeto Flor de Lis, porém, somente grupos de escoteiros e bandeirantes poderão frequentar a área, a partir de pedido de reserva encaminhado com 15 dias de antecedência para a Semma. 

O presidente da Associação de Umbanda de Caxias critica que a oportunidade de renovação do convênio nunca foi oferecida pela administração municipal. Perguntado sobre o fim do convênio, em agosto, Saul de Medeiros também disse que tentou o conversar com o prefeito Daniel Guerra (PRB) três vezes na tentativa de reverter a decisão, mas não foi recebido. A afirmação não foi contestada pela prefeitura.  

Medeiros afirma que buscará retomar o assunto na Câmara de Vereadores, em manifestação em nome da associação no dia 10 de outubro. A área de preservação permanente foi batizada como Parque Ecológico Reino dos Orixás em 2008, por meio de lei municipal. Não há informações se, como o novo uso, a prefeitura de Caxias buscará a mudança do nome. 

"Vamos ajudar a preservar", garante coordenador de escoteiros 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 04/09/2018Parque reino dos Orixás, área verde no cruzeiro. (Lucas Amorelli/Agência RBS)
Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Alheios à polêmica em torno do espaço, escoteiros e bandeirantes comemoram a cessão da área verde. Segundo o coordenador do 16º Distrito Escoteiro, Ricardo Canevese, a ideia foi avaliada de forma positiva pelo movimento:

— A secretária Patrícia teve essa ideia de projeto-piloto e conversamos sobre. Eu achei muito interessante, porque os escoteiros e bandeirantes têm esse viés de preservação do meio ambiente. Acredito que só tenha a somar para as duas partes. 

Conforme Canevese, alguns grupos ficam próximos do Parque Reino dos Orixás e poderão aproveitar bem o espaço para piqueniques e atividades educativas voltadas à sustentabilidade. Quando visitou a área, o coordenador disse que a encontrou depredada, mas afirma que, se necessário, os escoteiros ajudarão a manter o local.

— Eu acredito que a prefeitura já tenha feito uma limpeza, e se não fez, vamos todos limpar juntos para preservar o meio ambiente lá — projeta. 

Hoje, cerca de 800 pessoas fazem parte do movimento escoteiro em Caxias. Todos os grupos filiados aos Escoteiros do Brasil e núcleos de bandeirantes da cidade poderão usar a área. 

ENTENDA O IMPASSE

:: O convênio para usar o Parque Ecológico Reino dos Orixás foi firmado entre a Associação de Umbanda de Caxias do Sul e a prefeitura em 2001. 

:: A ideia era concentrar as oferendas deixadas durante ritos afro-brasileiros no local, evitando a poluição de outros espaços públicos.

:: Conforme Saul de Medeiros, há cerca de 500 casas de umbanda de Caxias. Ele explica que, pelos preceitos da religião, as oferendas são feitas nos templos e depois levadas locais com elementos naturais (árvores e água corrente, por exemplo).

:: Enquanto o convênio perdurou, Medeiros diz que a entidade chegou a recolher quase uma tonelada de resíduos por mês do local, além de ter elaborado uma cartilha ecológica com orientações para os ritos e implantado melhorias como a construção de um pórtico, a colocação de cercas e paralelepípedos na entrada e uma escadaria para o acesso à parte de baixo do terreno.

:: Desde maio, com o fim do convênio, a área ficou abandonada. Resíduos e oferendas começaram a se acumular no local. Conforme Medeiros, umbandistas continuaram depositando as oferendas ali por costume e pela falta de espaços alternativos para a prática. O local também virou deposito de lixo irregular. 

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