"Vendi tudo para pagar a passagem", diz venezuelano que se estabeleceu em Caxias do Sul - Cidades - Pioneiro

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Imigração22/08/2018 | 17h47Atualizada em 22/08/2018 | 17h47

"Vendi tudo para pagar a passagem", diz venezuelano que se estabeleceu em Caxias do Sul

Imigrantes que ingressam pelo norte brasileiro começam a chegar à região, mas falta de estrutura de acolhimento preocupa entidades

"Vendi tudo para pagar a passagem", diz venezuelano que se estabeleceu em Caxias do Sul Felipe Nyland/Agencia RBS
Elvis Mercado, 33 (à direita), com a esposa Mayela, 35, e os filhos Jeremias, sete e Emily, 13 Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Quase 6 mil quilômetros separam o venezuelano Elvis Mercado, 33 anos, de sua terra natal. Ele chegou a Caxias do Sul há cerca de duas semanas, em busca de uma vida melhor. Mesmo trabalhando como operador de grua em uma metalúrgica na cidade Guayana, no leste da Venezuela, ele conta que não conseguia ganhar o suficiente para sustentar a mulher e os dois filhos. O salário mínimo, segundo Mercado, não dá nem para comprar um "pollo (frango) completo". 

— Um frango nem dá para comer por três dias. Tendo filhos, muito menos — relata. 

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A crise econômica e política provocou uma inflação estimada em um milhão por cento para 2018, conforme estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nos últimos dias, o governo anunciou um corte de zeros na moeda desvalorizada, a multiplicação do salário mínimo e a criação de uma criptomoeda lastreada pelo preço do petróleo. Mercado não sabe se a reforma monetária dará resultado, mas ouve pelos familiares que ficaram que a situação no país segue "caótica". 

A incerteza quanto ao futuro fez com que ele decidisse apostar na Serra. Por que Caxias? O venezuelano foi encorajado pela irmã Glorielys, 27, que chegou na cidade há cerca de cinco meses. Ela, por sua vez, ouviu falar daqui por amigos brasileiros que são Testemunhas de Jeová. 

— Vendi meu carro, tudo o que tinha na minha casa, e deu somente para pagar a passagem. Me disseram que era tranquilo, tinha oportunidades — lembra Mercado.

O marido de Glorielys, Wilmer, 29, encontrou emprego em uma empresa do setor plástico e eles estão estabelecidos em uma casa no bairro Charqueadas com os sogros, o cunhado e o filho Diego, de um ano e oito meses — que é brasileiro, nasceu em Roraima, perto da fronteira com a Venezuela.

— Ficamos dois anos lá. O plano era permanecer, mas a situação estava tensa e tivemos de vir mais para cá. () já tinha muitos imigrantes, e não tinha muito trabalho — conta Glorielys, acrescentando que aqui "tudo é diferente", mas já se acostumou e se sente mais tranquila. 

Adaptação

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL 22/08/2018Imigrantes venezuelanos começam a chegar a Caxias do Sul.  Glorielis Mercado, 27, está em Caxias desde abril. Veio com toda família com ajuda de testemunhas de jeová, congregação da qual faz parte. O filho dela, Diego, 1 ano e 8 meses, nasceu em Roraima. (Felipe Nyland/Agência RBS)
Glorielys Mercado, 27, chegou a Caxias em abril e conseguiu se estabelecer com a famíliaFoto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Para seu irmão, os últimos dias foram dedicados a colocar a documentação em ordem: Elvis Mercado e o filho Jeremias, sete, já encaminharam pedido de refúgio para conseguir a residência no país. A seguir, será a vez da mulher, Mayela, 35, e da filha Emily, 13. Depois, a prioridade é conseguir carteira de trabalho. Por intermédio da irmã, Mercado também recebeu doações de roupas e eletrodomésticos de Testemunhas de Jeová, mesmo sem ser parte da congregação. A partir de agora, diz, é uma aposta. Mesmo tendo experiência na área de mecânica industrial, ele aceita o trabalho que aparecer. 

Nas primeiras andanças para distribuir currículos, ele e a mulher se surpreenderam com a calmaria da cidade, que contrasta com a movimentação frenética de Ciudad Guayana, com mais de 1 milhão de habitantes.

— Lá, as pessoas estão buscando maneiras de encontrar dinheiro, não podem ficar em casa esperando. Todos andam vendendo algo, buscando, esse é o ambiente. As pessoas conseguem um quilo de arroz e se comunicam por telefone com outra que tem um quilo de espaguete, para trocar — exemplifica.

— É um modo de vida estressante. Nas ruas, as pessoas andam alteradas, para comprar a comida diária. Tudo é um desafio — complementa Mayela.

Eles preveem que daqui para frente será mais fácil. Mayela diz estar acostumada a "matar tigritos", fazer bicos para conseguir fechar as contas. Mercado compartilha a opinião, mas espera conseguir um trabalho em tempo integral para dar tranquilidade à família. Adaptar-se, segundo ele, não será problema. 

— Dá medo, porque não sabemos o que pode se passar. Para migrar para um país tem que ter um propósito. Claro, o governo tem de fazer algo (se referindo à situação em Roraima). E nós temos a obrigação de nos adaptar também. Porque não dá para voltar à Venezuela — aponta.

Diferenças

Para Elvis Mercado, o obstáculo inicial é o frio: nas últimas semanas, a temperatura ficou na casa dos 5ºC em Caxias, enquanto na Venezuela, era comum ver os termômetros nos 37ºC. De acordo com Mercado, a temperatura faz com que os filhos não saiam da cama. Já Glorielys conta que o que mais sente falta é da arepa, típico prato venezuelano feito com farinha de milho. 

Crises

Ao falar sobre a crise política no país natal, Mercado defende que a solução passa pela saída do presidente Nicolás Maduro, mas evita tomar partido entre governo e oposição.

— Há pessoas que apoiam o governo e respeitamos isso. Mas, ao ver tantas pessoas passando fome, não dá para dizer que eu torço para esse ou aquele time. Vai além. Temos escutado que aqui também tem crise. Mas é uma crise diferente da Venezuela — acredita.

Interior do Estado deve receber mais imigrantes

Sob pressão diante da crescente visibilidade do processo migratório de venezuelanos para o Brasil, o Governo Federal articula como medida emergencial o início da interiorização,  ou seja, o encaminhamento de grupos de estrangeiros para outros Estados, além do norte do país, onde se instalam a maioria deles atualmente. 

Na região Sul — que abrange Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul — está previsto o envio de mil estrangeiros nas próximas semanas. No Estado, Porto Alegre (que já conta com um contingente de cerca de 300 venezuelanos) é a principal cidade cotada para receber os estrangeiros. Mas Caxias do Sul também já começa a receber sua cota de imigrantes, de forma espontânea.

O Centro de Atendimento ao Migrante (CAM) informou ao Pioneiro ter atendido 12 venezuelanos nas últimas três semanas. Oito deles compunham duas famílias e o restante procurou os serviços de maneira individual.

— A demanda certamente chegará até nós, até pela cidade ser referência. Seria bom se as discussões de planejamento iniciassem em Caxias para que estivéssemos mais preparados quando eles vierem para cá — afirma a coordenadora do CAM, Maria do Carmo Gonçalves.

Para avançar no esclarecimento quanto ao abrigamento dos imigrantes, um grupo de trabalho com entidades envolvidas na rede de acolhimento do Estado foi criado. 

— O CAM faz parte desse grupo. Nosso objetivo é entender como será a partilha de responsabilidades. O governo informou que será repassado auxílio de R$ 400 por pessoa por tempo limitado. Mas, fora isso, ficam as perguntas: vai ter aluguel social? Será facilitado o abrigamento? Precisamos saber como se dará esse processo para assumir os compromissos — questiona o advogado de migrações do CAM, Adriano Pistorelo.

Atualmente, mais de 500 venezuelanos entram no país diariamente, por Roraima. Conforme Maria do Carmo, considerando a intensidade desse fluxo, a dispersão dos imigrantes deve superar inclusive a de haitianos que chegaram ao Brasil nos últimos anos. Porém, segundo ela, desta vez o atendimento será mais complexo.

— Não é um grupo tão homogêneo quanto o dos haitianos ou senegaleses. Há desde indígenas até médicos que estão buscando refúgio. Teremos de tratar cada caso à sua maneira — comenta.

Diferentemente da forma como o município se articulou no caso dos haitianos e senegaleses, ela acredita que desta vez não haveria viabilidade de o CAM atender uma nova demanda em grande escala de migrantes.

— Não estaríamos preparados. Até mesmo pela questão da dificuldade que a rede está tendo hoje. Basta ver que entidades da sociedade civil é que estão auxiliando em diversos setores, como a própria assistência social. Se tivéssemos fluxo como tivemos de senegaleses, a rede não teria capacidade de absorver essa demanda. Estamos aqui para dar apoio, mas não deveríamos tomar conta de tudo — ressalta Maria do Carmo.

Fugindo da crise para a crise

A crise econômica que a Venezuela atravessa há cerca de três anos começou a influenciar na debandada da população do país sul-americano por volta de um ano e meio atrás. Naquele contexto, segundo explica o professor de Direito Internacional e de Direitos Humanos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) Gustavo Oliveira de Lima, os problemas já haviam afetado a própria governança, que não soube lidar com as pressões.

— O que aconteceu foi que os Estados Unidos deixaram de ser compradores da principal commodity da Venezuela, que é o petróleo. E com a redução dessa venda, a economia sofreu. Para piorar, o próprio governo do (Nicolás) Maduro não soube lidar com a situação. Não foi necessariamente uma decisão política equivocada que resultou na crise econômica em si, mas é inegável que foram praticados excessos do governo venezuelano com a população — afirma.

Com ambas as crises deflagradas, segundo ele, o perfil das migrações acaba sendo bastante diversificado, havendo desde refugiados por divergências políticas até pessoas que fogem da miséria. 

— Não há mercadorias em supermercados, há violência policial nas ruas. Segundo dados divulgados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), mais de 4 milhões de venezuelanos teriam deixado o país. É um fluxo muito intenso que tende a continuar — ressalta.

Indecisões reforçam confusão

Apesar de estarem fugindo de um país em crise, ao chegarem ao Brasil, segundo o professor, os imigrantes enfrentam outra crise, a organizacional, causada pelo despreparo do governo brasileiro. Em cerca de um ano e meio que o fluxo migratório tornou-se intenso, nenhuma medida foi encaminhada.

A falta de decisões por parte do Itamaraty sobre as formas que irá lidar com o fluxo (mais de 55 mil venezuelanos entraram no país no primeiro semestre deste ano) já gera, inclusive, conflitos civis: no sábado,  moradores da cidade de Pacaraima, em Roraima, atacaram acampamento de venezuelanos e atearam fogo em barracas e pertences dos imigrantes. 

— Acredito que a postura do governo brasileiro não vai ser receptiva, vai ser de resistência. Só irá acontecer algo quando entidades de direitos humanos tentarem impor algo. Caso contrário, casos como a expulsão dos imigrantes como o de Pacaraima podem continuar — acrescenta.

A ação de expulsão dos imigrantes, segundo ele, reflete o comportamento do brasileiro médio baseado em preconceitos quanto aos diferentes perfis migratórios. Postura que afirma ser preocupante quanto ao processo de recepção aos migrantes venezuelanos.

— O brasileiro médio só acolhe quando acaba tendo reconhecimento. Basta pensar na hipótese de terem mandado médicos suíços em vez de cubanos (pelo Programa Mais Médicos). O tratamento teria sido bem diferente. Há também contradições: pessoas que alegam que os venezuelanos que vêm para cá trazem problemas e, ao mesmo tempo, criticam o governo da Venezuela pela forma que trata a população. É como na Europa, que alegam que os imigrantes são terroristas, sendo que eles estão é fugindo do terrorismo — complementa.

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