Memória: Lucia Dalle Molle, a heroína da grande explosão de 1943  - Cidades - Pioneiro

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Caxias antiga11/07/2018 | 07h30Atualizada em 17/07/2018 | 17h38

Memória: Lucia Dalle Molle, a heroína da grande explosão de 1943 

Operária da fábrica de munições da Gazola Travi & Cia auxiliou no resgate às vítimas da tragédia de 75 anos atrás

Memória: Lucia Dalle Molle, a heroína da grande explosão de 1943  Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação/Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Lucia Dalle Molle recebe os cumprimentos de um oficial do Exército durante a cerimônia no pátio da fábrica, em 25 de agosto de 1943 Foto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Quando se fala na grande explosão de 22 de julho de 1943, na antiga fábrica de munições da metalúrgica Gazola Travi & Cia, imediatamente vem à lembrança o grupo de mulheres mortas no acidente. Uma personagem pouco lembrada, porém, é a jovem Lucia Dalle Molle, cuja atuação no resgate às vítimas sob os escombros foi fundamental. 

Um dos raros registros sobre Lucia integrou a reportagem especial do jornal "O Momento" de 24 de julho de 1943, dois dias após a catástrofe. Intitulado "Uma heróica e um abnegado", o texto destacava, além de Lucia, o jovem Nilo Travi, outro funcionário da empresa:

"É digno de pública recomendação o gesto heróico de uma moça, operária da fábrica sinistrada. Chama-se ela Lucia Dalle Molle, que, enfrentando toda a sorte de perigos e por vezes arriscando a vida, com o espanto de todos, atirou-se heroicamente sobre os escombros e chamas, sobraçando e retirando as colegas feridas. Indiferente ao ameaçador perigo e toda ensanguentada, Lucia, com sua bravura, concitou os homens ali presentes a secundarem-na. Outro que se destacou foi Nilo Travi, que, secundando Lucia Dalle Molle, agiu com calma e verdadeira abnegação". 

A bravura da operária foi reconhecida oficialmente no dia 25 de agosto de 1943, quando a empresa inaugurou o Marco em Memória às Moças Operárias. Na cerimônia junto ao obelisco, Lucia foi condecorada por um oficial do exército, conforme vemos na imagem acima. O registro traz ainda o juiz Eduardo Caravantes (à esquerda) e o sócio-diretor da metalúrgica, Otarino Travi (segundo à direita). 

Na solenidade também estiveram presentes o empresário José Gazola, fundador da empresa, o padre Eugênio Giordani, o prefeito Dante Marcucci, as Samaritanas da Cruz Vermelha Brasileira — Núcleo Caxias e representantes do Exército Brasileiro e da Liga de Defesa Nacional, além de trabalhadores e autoridades civis, militares e religiosas. 

Segundo registros contidos nos livros de sepultamentos do Cemitério Público Municipal, Lucia Dalle Molle faleceu em 12 de maio de 1967, 24 anos após a explosão. 

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A cerimônia em 25 de agosto de 1943, quando foi inaugurado o Marco em Memória às Moças OperáriasFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Obelisco traz uma placa com os nomes das sete vítimas da explosãoFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Obelisco inaugurado em 25 de agosto de 1943 traz uma placa com os nomes das sete vítimas da explosãoFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

A Gazola na Segunda Guerra Mundial

À época da explosão, a empresa Gazola Travi havia sido declarada de interesse militar pelo Exército Brasileiro. Foi quando passou a produzir material bélico para as tropas brasileiras em combate na Itália. Naquela manhã de 22 de julho de 1943, as jovens enchiam os cartuchos de pólvora, momento em que uma sequência de estampidos fez o pavilhão de munições voar pelos ares. 

Na hora morreram Graciema Formolo, Maria Bohn, Julia Gomes e Olívia Gomes. Uma semana depois, sucumbiram Tereza Morais e Irma Zago. Sobrevivente da explosão, Odila Gubert teve a perna amputada no Hospital Pompéia e faleceu em 2003, 60 anos após a tragédia.

Matéria do jornal "O Momento" de 24 de julho de 1943 relatou o horror daquela manhã.

"O maior número de funcionários que empregam sua atividade na fabrica Gazola Travi & Cia é de meninas, cuja idade varia de 14 a 20 anos. A seção onde ocorreu a primeira detonação era efusivamente ocupada por operárias, A maioria delas foi atingida pelo material que desabou do teto, sofrendo, as que morreram, as consequências dos estilhaços da explosão. Algumas das vítimas foram atingidas na face, ficando horrivelmente deformadas, enquanto outras apresentam queimaduras e escalpelo total".

As causas do acidente nunca foram devidamente esclarecidas. A mais provável é de que uma faísca tenha dado início aos estouros, visto que a empresa manejava o explosivo fulminato de mercúrio, muito sensível à fricção e ao impacto. 

Dona Zulmira Mazzochi Florian e as lembranças da explosão da Gazola

Cerimônia contou com a presença do empresário José Gazola e do padre Eugênio Giordani (à direita)Foto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Representantes do Exército e da Liga de Defesa Nacional compareceram à cerimôniaFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Representantes do Exército, Liga de Defesa Nacional e Samaritanas da Cruz Vermelha compareceram à cerimôniaFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

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Outros socorristas

Além de Lucia Dalle Molle e Nilo Travi, auxiliaram no socorro funcionários do antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), cujo escritório ficava a poucos metros da fábrica, na BR-116. 

Entre eles, Ivo Maciel, Alcides Reali, Maximino Peroni, Adelino Fabrin, Emanuel Correa, Laurindo Cardoso, Avelino Cardoso, Joaquim Slongo e Benedito da Silva. Outros envolvidos no resgate foram o chofer de praça Carelli e os funcionários da prefeitura Izolino da Costa e Fermino Inácio, este último guarda da Praça Vestibular Abramo Eberle, em frente ao Imigrante. 

No Hospital Pompéia, as vítimas foram atendidas pelos médicos Félix Spinato, José Brugger, Decio Merlotti Pereira, Ataliba Finger, Oscar Teles, Luiz Faccioli e Rocha Neto.

Na imprensa

A seguir, a capa e contracapa do jornal "O Momento" de 24 de julho de 1943, destacando o "sinistro de grandes proporções".

Foto: Acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul / reprodução
Foto: Acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul / reprodução
Foto: Acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul / reprodução

Cerimônia lembra a explosão

No próximo dia 21 de julho, sábado, véspera do aniversário de 75 anos da explosão, o Memorial Gazola — Museu da Metalurgia de Caxias do Sul sedia uma programação especial para recordar do episódio. Haverá uma celebração religiosa conduzida pelo frei Jaime Bettega e a apresentação da banda do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea. 

Um dos momentos de destaque será a inclusão de uma placa extra no obelisco, em homenagem à operária Anoema da Costa Lima — morta em 1945 em função dos ferimentos e da grande quantidade de estilhaços de ferro espalhados pelo corpo. Esquecida pela história oficial, Anoema teve sua história recuperada por este colunista em uma reportagem especial publicada no Pioneiro de 14 de janeiro deste ano, dia de sua morte, há 73 anos. 

O Memorial Gazola fica junto ao antigo complexo da Gazola, na BR-116. A entrada é franca. 

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O momento de descerramento do obelisco, em 25 de agosto de 1943Foto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
A placa com o nome das seis vítimas mortas e da sobrevivente Odila Gubert, que teve a perna amputadaFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Personagens e suas histórias

Você tem mais informações ou conhece familiares de Lucia Dalle Molle? A coluna Memória e o Memorial Gazola estão coletando informações que ajudem a recontar a trajetória de todas as vítimas e personagens da grande explosão de 1943. Entre em contato pelo e-mail rodrigolopes33@gmail.com.

Representantes do Exército e da Liga de Defesa Nacional compareceram à cerimôniaFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Memorial Gazola

Boa parte da trajetória da antiga Metalúrgica Gazola pode ser conferida no Memorial Gazola — Museu da Metalurgia de Caxias do Sul. O espaço, junto à antiga fábrica, na BR-116, preserva centenas de documentos, fotografias, catálogos, objetos de cutelaria, artefatos bélicos e material referente à participação da Gazola Travi & Cia na Segunda Guerra Mundial, quando a empresa foi declarada de interesse militar pelo Exército Brasileiro. 

As visitas podem ser feitas às terças e quintas, das 14h às 17h. Mais informações pelos fones (54) 3041.1511 e 98132.5438 ou pelo www.memorialgazola.com.br.

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