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Campus da UCS #1/321/06/2018 | 20h30Atualizada em 22/06/2018 | 13h35

Universidade de Caxias do Sul quer controlar acesso ao campus

Instituição encaminhou proposta ao Legislativo, mas medida desagrada estudantes, comunidade e o Ministério Público

Universidade de Caxias do Sul quer controlar acesso ao campus Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Uma das possíveis mudanças seria o deslocamento do terminal de ônibus para a construção de um edifício para estacionamento Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

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Objetivo antigo da instituição, o controle de acesso ao campus-sede da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a Cidade Universitária, voltou a ser discutido na tarde desta quinta-feira, na Câmara de Vereadores. Ainda no ano passado, a universidade encaminhou proposta de desafetação das vias internas do campus à Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) e ao Legislativo, como sugestão de emenda à revisão do Plano Diretor da cidade.

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A desafetação consiste na desvinculação das vias do sistema viário público. Elas passariam a ser tratadas, efetivamente, como propriedade privada. Como consequência, o transporte coletivo deixaria de circular dentro do campus, por exemplo. A proposta da UCS também prevê a implantação de estacionamentos regulamentados, embora representantes da instituição digam que a cobrança para estacionar não está diretamente vinculada ao plano. 

De qualquer maneira, a medida é vista com desconfiança pela comunidade acadêmica e moradores do entorno da instituição, além do Ministério Público (MP). O principal argumento da universidade para a mudança tem a ver com a segurança do local. 

— Temos um seriíssimo problema de segurança, com assaltos diários. É a única universidade comunitária do Rio Grande do Sul que não tem o campus fechado — argumenta Gilberto Chissini, diretor executivo da Fundação Universidade de Caxias do Sul (Fucs), mantenedora da universidade. 

A UCS solicitou a reunião desta quinta com a Comissão de Desenvolvimento Urbano, Transporte e Habitação (CDUTH) da Câmara para convencer os vereadores da importância da aprovação da proposta. Além da segurança dos alunos e funcionários, a comitiva da instituição defende que não há como manter a integridade de todo o patrimônio da instituição — como mais de 400 laboratórios, incluindo os do Hospital Geral — com o campus totalmente aberto. 

Como forma de convencer os vereadores, a UCS colocou em jogo inclusive a própria sobrevivência da instituição: 

— Felizmente, estamos num país capitalista. Há concorrência e a UCS está sofrendo concorrência ferrenha no nosso setor, em termos de custos e produtos, e temos a pior logística da cidade. Queremos, pelo menos, melhorar nesse aspecto (da segurança). Não há outra alternativa — declarou Chissini.

Comissão quer diálogo com a comunidade

A Comissão legislativa questionou se houve diálogo da instituição com a comunidade e solicitou a elaboração de um projeto concreto para apresentar à população. Como a desafetação das vias influencia diretamente na mobilidade das pessoas, que usam a área há três décadas, os vereadores também sugeriram que a UCS trabalhe em conjunto com o Executivo. 

Conforme o diretor administrativo e financeiro da Fucs, Candido da Roza, a instituição tem tentado dialogar com todos os setores. Ele afirma que UCS trabalhará para responder a todas as dúvidas e garante que a mudança seria benéfica para a região.

— No final de semana, mais de 5 mil pessoas utilizam a UCS como espaço de lazer. Isso continuaria assim. A desafetação está sendo ligada a um isolamento da instituição, mas isso é uma incompreensão. Há interesse social. Estamos em uma região que tem mais de 1 milhão de habitantes. Há necessidade de diversificação da matriz produtiva. Queremos implantar um parque tecnológico e, sem segurança, não há investimento. A UCS é da comunidade, está aberta, mas não dá para fingir que o problema da criminalidade não existe — conclui.

OS ARGUMENTOS

:: Segurança

O que diz a UCS:
O acesso por veículos ao campus seria controlado, provavelmente, por cancelas. A passagem de pedestres continuaria liberada por três portões, na divisa com as ruas Alan Kardec e Raul Pilla, no bairro Presidente Vargas, e Antônio Xavier da Luz, no Petrópolis, conforme decisão judicial resultante de ação proposta pelo MP em 2014.

O controle parcial dos acessos permitiria à universidade direcionar melhor os investimentos em segurança, que vêm aumentando gradativamente e não resolvem os problemas detectados, conforme Candido da Roza, diretor administrativo e financeiro da Fucs. Na proposta encaminhada para a revisão do Plano Diretor, também fala-se na implantação de sistema de monitoramento por câmeras. 

As medidas permitiriam diminuir o número de roubos e furtos, além de garantir a proteção do zoológico e laboratórios com agentes biológicos, que exigem segurança especial. 

O que diz o DCE:
O Diretório Central de Estudantes enviou proposta ao Legislativo contrapondo os argumentos da UCS. Para os estudantes, a instituição busca "fechar-se em si mesma e dar as costas para a cidade". O diretor de Relações Institucionais do DCE, Otniél Borges, diz que a instituição não tem se preocupado, na prática, com a segurança dos alunos como alardeia.

— Hoje, o bloco S (na Rua Francisco Getúlio Vargas) é um dos principais focos de furtos. E não existe nenhum segurança ali para atender os alunos. O segurança circula para proteger o patrimônio da UCS, mas a UCS não apresenta nenhum dado de que o acesso liberado provoque prejuízos — defende.

Para Borges, há alternativas para implementar a segurança ao promover a maior circulação de pessoas. 

— Existem estudos de que ao deixar mais restrito um ambiente, tu fica mais seguro dentro, mas menos no entorno. E uma hora tu tens de sair. A universidade quer diminuir o custo com a segurança privada. Nós temos alternativas para isso, que é a realocação dos pontos de segurança, em vez de tornar ambiente mais hostil, ampliar a circulação e iluminação — defende. 

:: Mobilidade:

O que diz a UCS:
A proposta da instituição fala em regulamentar o estacionamento, mas o diretor administrativo e financeiro da Fucs diz que ainda não há nada definido. Uma possível proposta seria permitir o estacionamento a alunos e funcionários e cobrar para eventos externos, por exemplo. Há planos de construir um prédio-estacionamento próximo ao terminal de ônibus após o acesso à UCS pela BR-116, pela Rua Gilda Marcon Grazziotin Nora.

Como os ônibus do transporte coletivo deixariam de circular pelo campus, o embarque e desembarque poderia ser feito pela Rua Gilda Marcon Grazziotin Nora. Esse era o planejamento acordado junto à administração do ex-prefeito Alceu Barbosa Velho (PDT), conforme Candido da Roza. Os ônibus, então, iriam até o bloco A, na Rua Francisco Getúlio Vargas, e retornariam para a BR-116. No plano, também consta proposta de transferência do terminal de ônibus atual, próximo à rótula de acesso pela Rua Gilda Marcon Grazziotin Nora, para o estacionamento da Vila Poliesportiva, onde ficava o antigo Teatro de Lona. 

A mobilidade interna seria feita pelo transporte gratuito da instituição, que atende funcionários e alunos. A proposta fala em investir em novos veículos movidos por fontes de energia renováveis e na construção de um funicular para a ligação dos blocos do entorno do Instituto de Biotecnologia, que fica no acesso pela Rua Travessão Solferino, que vai ao bairro Cruzeiro. 

Adicionalmente, o projeto inclui a transferência da rotatória próxima à escadaria e ao chafariz para mais perto da BR-116, em frente ao Hospital Geral, embora Candido admita que seja necessário estudar o impacto que a medida ocasionaria no trânsito.

O que diz o DCE:
A UCS acredita que tirar os ônibus de circulação do campus aliviaria os congestionamentos nas vias internas. O DCE, porém, duvida que um único ponto seja suficiente para o embarque e desembarque de todos os alunos. Além disso, a entidade considera que o transporte gratuito não poderia atender a todos os estudantes. 

— O transporte gratuito, com a demanda atual, já tem superlotação. Para todos os cursos, aumentaria muito a demanda e provocaria novos transtornos, já que não há estrutura para ônibus grandes — pontua Otniél Borges.

Conforme, Candido da Roza, porém, a universidade não tem reclamações na ouvidoria sobre o transporte gratuito. 

O DCE também defende a abertura de novos acessos aos bairros Cruzeiro e Presidente Vargas, como alternativa ao fluxo intenso de veículos pela BR-116. 

— Nós não somos contra o controle de acesso, mas numa universidade com terreno doado pelo Estado, que recebe recurso público, não podemos aceitar que os estudantes paguem uma reforma para piorar. É possível melhorar a mobilidade com propostas concretas e factíveis, que não sejam unilaterais e que não desrespeitam a própria história da UCS — conclui. 

Propostas ao Plano Diretor passam por análise

Além das sugestões da UCS e do DCE, outras 137 propostas foram encaminhadas para a Revisão do Plano Diretor Municipal pela comunidade à Comissão de Desenvolvimento Urbano, Transporte e Habitação (CDUTH). Elas foram remetidas ao Executivo para parecer técnico. 

O secretário do Planejamento, Fernando Mondadori, reclamou que não houve triagem do Legislativo. Por isso, mais de mil páginas ainda pendem de análise e não há previsão de prazo para que as solicitações retornem para votação pelo legislativo. A assessoria da CDUTH, por outro lado, aponta que não é papel do legislativo excluir propostas. A filtragem de sugestões deveria ter sido feita em conjunto pelos dois poderes, mas não teria havido entendimento. 

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