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Religiosidade16/06/2018 | 09h00Atualizada em 16/06/2018 | 09h00

Fiéis comemoram inicio de processo para beatificação de Frei Salvador, em Flores da Cunha

Trâmite, aprovado pela Igreja Católica, agora depende de comprovação de milagre

Fiéis comemoram inicio de processo para beatificação de Frei Salvador, em Flores da Cunha Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Maria Zin (de vermelho) e Lígia Pedron Vaneli são devotas ao religioso Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

A devoção e admiração ao frei Salvador Pinzetta estão muito vivas entre os moradores de Flores da Cunha. Basta circular pelas ruas da cidade ou no interior para ouvir histórias de quem conviveu com ele ou cresceu ouvindo relatos sobre sua simplicidade, fé e amor ao próximo. São tantas vidas tocadas por ele antes ou depois da sua morte que o frei capuchinho poderá se tornar um santo da Igreja Católica. 

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Há pouco mais de uma semana, a Congregação para a Causa dos Santos aprovou a documentação para o início do processo de beatificação, um segundo estágio que antecede a canonização. Os esforços para tornar o frei venerável Servo de Deus começaram em 1977, cinco anos após sua morte, em 31 de maio de 1972, mas foram oficializados apenas em abril de 2011, quando o processo foi aberto oficialmente na Diocese de Caxias do Sul, com a instauração do Tribunal Eclesiástico Diocesano. 

Os documentos foram levados para Roma pelo então postulador local, dom Ângelo Domingos Salvador, no ano seguinte. Como o bispo ficou doente, o vice-postulador da causa, frei Celso Bordignon, ficou responsável por dar prosseguimento ao processo. Bordignon ressalta que agora, o próximo passo é a confirmação de um milagre. 

— É preciso um registro concreto de um fato que seja explicado unicamente pela fé, que seja realmente um milagre, como uma doença que foi curada, e que seja comprovado que não ocorreu por meio da medicina, e, sim, pela fé. Pode levar um tempo para dar prosseguimento ao processo, mas o primeiro passo já uma conquista para Flores da Cunha e para a ordem dos Capuchinhos — afirma. 

Se depender de Flores da Cunha, casos de graças intermediadas por meio do religioso não vão faltar. A professora Lígia Pedron Vanelli, 67 anos, tinha 21 quando o frei Salvador morreu. Ela convivia com ele e lembra de sua bondade e fé, sempre fazendo o bem aos moradores da cidade. Anos depois, quando já era mãe de um bebê de um ano e três meses, Lígia orou ao capuchinho por um milagre: a menina estava entre a vida e a morte.

— Saí de casa para lecionar e minha filha estava bem, brincando e saudável. Meia hora depois, foram me buscar na escola, avisando que a Larissa entrou em coma, de uma hora para a outra. Ela estava um trapo, parecia uma boneca de pano, não falava, não se mexia. Os médicos fizeram vários exames e disseram que minha filha estava morrendo. E se vivesse, ficaria em estado vegetativo. Depois, me perguntarem: "tu sabe rezar? Eu disse que sim e que era devota do frei Salvador. Então, com muita fé, eu pedi a ele que salvasse a minha filha. Então voltamos para casa para tentar descobrir o que havia acontecido, procurar alguma pista. Foi então que achamos uma aranha no teto da garagem onde ela estava brincando. Graças a isso que os médicos conseguiram descobrir o que deixou ela doente — revela. 

A filha de Lígia saiu do hospital no dia seguinte, curada e sem sequelas. Também devota do frei, Larissa, hoje com 34 anos, casou-se na capela de Nossa Senhora de Fátima, no Eremitério que homenageia o Servo de Deus. 

"O frei Salvador é vida", emociona-se Maria 

 FLORES DA CUNHA, RS, BRASIL, 15/06/2018 - Congregação das Causas dos Santos aprovou a documentação para iniciar processo de beatificação do Frei Capuchinho Salvador Pinzetta. NA FOTO: Maria Zin, devota ao Frei Salvador. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

A comerciante Maria Dal Bó Zin, 58 anos, viveu histórias com o frei Salvador em vida e após a morte dele. Quando pequena, ouvia o pai contar que Pinzetta dizia aos moradores para orarem, que Deus os ajudaria na plantação e em tarefas do dia a dia. O capuchinho morreu quando ela tinha 12 anos e, desde então, Maria tornou-se devota. A primeira prece foi por uma irmã que sofria de depressão, há 20 anos. Depois, pediu pela vida do marido, Luís, 63. 

— Há seis anos, levamos um susto muito grande com o meu marido, que tinha uma tosse forte e esquisita. Ele estava há três anos em busca de diagnósticos e os médicos achavam que era pulmão. Numa viagem com amigos para a praia, ele sofreu um infarto e, na hora que soube, gritei: "frei Salvador, me socorre". Descobrirmos que ele não podia pegar frio pois passava muito mal. O médico proibiu até que tomasse banho. Não sabíamos o que fazer, e o Luís me olhou e disse: "o frei Salvador vai ajudar". Decidi voltar ao médico que sempre nos atendeu e, tenho certeza que por intercessão do frei, ele indicou um alergista que descobriu o verdadeiro diagnóstico: alergia ao frio, que desencadeia hipotermia. O olhar do frei Salvador acalma o coração — conta.

A devoção está presente diariamente na vida de Maria. No trabalho, ela entrega os folhetos e as novenas. No quarto do casal, há uma imagem do frei na lâmpada sobre a cama, para proteger a casa e os familiares. Segundo a comerciante, a causa mais recente que Salvador intercedeu foi pela vida de um sobrinho: 

— Há duas semanas, no feriado de Corpus Christi, saí da romaria ao frei Salvador e fui cuidar do meu sobrinho, de 24 anos, que estava no hospital. Ele estava isolado, de máscara, e os glóbulos brancos estavam muito baixos. Na hora, chorei e disse ao meu irmão: "vamos orar ao frei". No domingo, quatro dias depois, repetiram os exames, e os glóbulos já estavam subindo. Ele fez uma série de exames e hoje não tem mais nada. Para nós, o frei Salvador é santo, é vida. Ele intercede por nós e está sempre conosco. 

Eremitério virou lugar de peregrinação

 FLORES DA CUNHA, RS, BRASIL, 15/06/2018 - Congregação das Causas dos Santos aprovou a documentação para iniciar processo de beatificação do Frei Capuchinho Salvador Pinzetta. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Peregrinos de Flores da Cunha e da região caminham cerca de três quilômetros a pé do Centro até o Eremitério Frei Salvador Pinzetta, no bairro Villaggio. O capuchinho costumava percorrer esse mesmo trajeto, todos os dias, em meio à mata, para rezar a Nossa Senhora de Fátima. Na época, a imagem ficava em um pequeno altar de pedra, no alto da colina, e o religioso ia até lá para trabalhar em um pomar, onde cultivavam-se legumes e hortaliças. Quem o via, sabia que para ele esses momentos do dia eram de oração e contemplação. 

Logo depois que ele morreu, a busca pelo eremitério começou a crescer, e os moradores se uniram para promover melhorias no local. Primeiro, construíram uma escadaria, onde antes havia apenas uma trilha em meio às pedras. A união da comunidade aumentou e o lugar começou a ficar a cada dia mais confortável para os visitantes.  Os degraus da escada, estreitos e feitos de terra e pedras, foram substituídos por concreto, e a escada foi alargada.

Em 2005, foi erguida uma capela em honra a Nossa Senhora de Fátima e foi aberta uma rua no entorno da colina, onde fica a igreja. Dez anos depois, a capela passou ter missas no segundo domingo de cada mês, às 15h. Hoje, são duas missas por mês, uma no segundo e outro no último domingo. 

A ideia das celebrações é homenagear o frei Salvador e propiciar aos devotos maior contato com uma das principais expressões de fé do capuchinho, que era de rezar todos os dias no ponto onde está o eremitério. Até hoje um grupo de moradores se reveza para cuidar da grama, varrer as escadas e arrumar as flores que emolduram as escadas, além de ajudar nas celebrações.  

O local, isolado e em meio à natureza, também é o tradicional palco para a celebração da Romaria a Frei Salvador, realizada anualmente no dia de Corpus Christi. Essa data foi escolhida porque o religioso morreu justamente quando se celebrava a festa de Corpus Christi. O religioso também é reconhecido por levar a hóstia aos doentes. 

Os restos mortais do Servo de Deus, hoje depositados na Igreja Matriz, serão transferidos para um túmulo no eremitério assim que a beatificação for confirmada, o que, para a comunidade, é apenas uma questão de tempo.

QUEM FOI 

Frei Salvador Pinzetta nasceu em 29 de julho de 1911, em Casca.  Iniciou a vida religiosa com os capuchinhos no ano de 1944 em Marau e logo depois, foi para o Seminário Sagrado Coração de Jesus, de Flores da Cunha, onde desenvolveu a maior parte de seus trabalhos religiosos. Ele morreu, aos 61 anos, após um acidente vascular cerebral (AVC). Segundo relatos dos moradores de Flores da Cunha, o frei levava uma vida humilde e tinha como principais características a fé, caridade, oração e trabalho.  

O processo 

:: Até 1997, foram escritas inúmeras biografias pelos freis Adelino Pilonetto, Achylles Chiappin e Carlos Coloda. Também ocorreu a exumação dos restos mortais do irmão capuchinho e o traslado para a Igreja Matriz de Flores da Cunha no final de década de 1990. Nesta época, também foi criada a Romaria Vocacional Frei Salvador, que no último dia 31 de maio chegou à 30ª edição. 

:: No final de 2007, o então ministro provincial dos Capuchinhos do RS, frei Álvaro Morés, solicitou ao dom frei Ângelo Domingos Salvador, que se tornasse postulador e retomasse o processo jurídico. 

:: Na ocasião, testemunhas, sob juramento de dizer a verdade, falaram sobre a vida, as obras, virtudes, fama de santidade e defeitos do do frei.  

:: Quando a causa é iniciada, o candidato recebe o título de Servo de Deus, que é o caso de Irmã Dulce. O primeiro processo é o das virtudes ou martírio. Este é o passo mais demorado porque o postulador deve investigar minuciosamente a vida do Servo de Deus. Em se tratando de um mártir, devem ser estudadas as circunstâncias que envolveram sua morte para comprovar se houve realmente o martírio. Ao terminar este processo, a pessoa é considerada Venerável.

:: O segundo processo é o milagre da beatificação. Para se tornar beato é necessário comprovar um milagre ocorrido por sua intercessão. No caso dos mártires, não é necessária a comprovação de milagre. Irmã Lindalva passou a ser Venerável em 16 de dezembro de 2006, quando o decreto do seu martírio como serva de Deus foi promulgado. Agora é aguardada a cerimônia da beatificação, já que ela é dispensada de milagre.

:: O terceiro e último processo é o milagre para a canonização. Este tem que ter ocorrido após a beatificação. Comprovado este milagre o beato é canonizado e o novo Santo passa a ser cultuado universalmente.

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