Rafael Zambelli: combate e morte durante a Primeira Guerra Mundial - Cidades - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Caxias antiga25/04/2018 | 07h30Atualizada em 15/08/2018 | 18h49

Rafael Zambelli: combate e morte durante a Primeira Guerra Mundial

Soldado nascido em Caxias do Sul foi capturado pelos alemães durante o conflito e morreu há 100 anos, em 2 de março de 1918

Rafael Zambelli: combate e morte durante a Primeira Guerra Mundial Livro Os Filhos da Arte, de Irma Buffon Zambelli / reprodução/reprodução
Rafael Zambelli com o uniforme de soldado ao chegar à Itália, em 1915 Foto: Livro Os Filhos da Arte, de Irma Buffon Zambelli / reprodução / reprodução

Quando se fala em Zambelli, a referência imediata é o lendário atelier de esculturas e imagens sacras produzidas pelo fundador, Tarquinio Zambelli, e os filhos, principalmente Michelangelo e Estácio. Uma história pouco conhecida, porém, ressurge em 2018, quando se completam 100 anos da morte do soldado Rafaelle Zambelli (Rafael), durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Nascido em 15 de março de 1899, em Caxias do Sul, Rafael Zambelli era o filho mais moço do primeiro casamento do imigrante italiano Tarquinio Zambelli com Rosa Pizzon Zambelli. Juntamente com os irmãos, integrava o grupo de artífices do "Grande Laboratório Artístico Tarquinio Zambelli e Filhos", dedicando-se ao aprimoramento e estudos constantes em escultura, no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Porém, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o jovem resolveu alistar-se como voluntário para defender a pátria de origem, rumando à Mântova, na Itália, em 1915. 

Conforme informações contidas no livro Os Filhos da Arte — Documentário Artístico de uma Família de Imigrantes, de Irma Buffon Zambelli, após dois anos de combate, Rafaelle foi ferido e capturado pelos alemães, tornando-se prisioneiro de guerra a partir de 15 de novembro de 1917.  Foi no cativeiro que ele adquiriu a pneumonia dupla que acabou levando-o à morte, em 2 de março de 1918, no hospital militar de Langensalz, na Alemanha. 

Rafael Zambelli tinha apenas 18 anos.

Leia mais:
Atelier Zambelli: um ícone da arte sacra
O Cine Central e as esculturas de Estácio Zambelli
Para recordar de Estácio Zambelli  
Os leões de Michelangelo Zambelli no Parque Cinquentenário
Estátua da Liberdade, um símbolo da Praça Dante desde 1922

Rafael Zambelli com o uniforme de soldado ao chegar à Itália, em 1915Foto: Livro Os Filhos da Arte, de Irma Buffon Zambelli / reprodução

O cativeiro

O período no cativeiro e posterior à morte, aliás, é bastante detalhado em cartas enviadas por ex-companheiros de luta aos familiares de Rafael no Brasil. Em uma delas, um amigo relata ao pai, Tarquinio Zambelli:

“A única recordação que tinha vosso filho era um bracelete, um relógio e um anel do mesmo metal, que tinha dado a um alemão em troca de um pedaço de pão, pouco depois que ficou prisioneiro. Envio-lhe os objetos dos quais lhe falei, pois sei da sua dor e afeto. Preciso dizer-lhe que vosso filho tinha à sua cabeceira o vosso retrato, e como ele morreu durante a noite, os objetos foram recolhidos pelo serviço sanitário para enviar à família. Eu, com receio que a carta fosse interceptada, dei o endereço à Cruz Vermelha de Gênova, para que o senhor soubesse da morte de vosso filho”. 

Rafael Zambelli (à direita, atrás) e colegas do atelier de escultura da Academia de Artes em Buenos Aires, em 1914. À frente, à direita, o irmão Michelangelo ZambelliFoto: Livro Os Filhos da Arte, de Irma Buffon Zambelli / reprodução
Rafaelle Zambelli em 1913, aos 14 anosFoto: Livro Os Filhos da Arte, de Irma Buffon Zambelli / reprodução
Em 1937: placa original ficava aos pés da herma de Dante Alighieri, mas foi removida durante a Segunda Guerra MundialFoto: Livro Os Filhos da Arte, de Irma Buffon Zambelli / reprodução

Placa de bronze na Praça Dante

Após o final da Primeira Guerra Mundial, tanto Rafael Zambelli quanto o soldado Angelo Bracagioli, mortos lutando pela Itália, foram homenageados em Caxias. Uma placa de bronze exultando a participação dos dois foi afixada aos pés da herma de Dante Alighieri, na praça central de Caxias, em 1918. 

Porém, durante a Segunda Grande Guerra (1939-1945), a placa foi um dos tantos símbolos italianos removidos de praças e logradouros públicos da região, em função das fortes restrições aos imigrantes e seus descendentes. Ela só retornaria, em outro formato, em 1978. Desta vez, junto ao Monumento à Itália, a famosa bota de pedra, localizada na esquina da Av. Júlio com a Feijó Júnior — danificada por um acidente em 2017 e à espera de restauração até hoje. 

A homenagem partiu dos então vereadores Mário Gardelin, Dino Périco e Remo Marcucci, que buscavam recordar do aniversário de 60 anos do armistício no front italiano, em 4 de novembro de 1978.

Leia mais:
Restauro do Monumento à Itália ainda não tem data para começar
Segunda Guerra Mundial: as placas de Nova Milano
Metalúrgica Gazola homenageia pracinhas em 1950

O molde da placa original, encontrada no atelier de Michelangelo ZambelliFoto: Livro Os Filhos da Arte, de Irma Buffon Zambelli / reprodução

Os dizeres

A placa original (desaparecida) trazia os seguintes dizeres: 1915-1918, Sargento Zambelli Raffaele, Soldato Bracagioli Angelo, figli di questa terra, morti combatendo per l´Italia. Caxias ricorda. a existente até hoje, em São Pelegrino, descreve: "Eles não voltaram... À memória do sargento Rafael Zambelli e do soldado Angelo Bracagioli. Caxienses voluntários do Real Exército Italiano tombados na I Guerra Mundial. Homenagem da Câmara de Vereadores. 04-11-1978". 

A placa em bronze compõe o Monumento à Itália juntamente com a referência à visita do presidente italiano Giovanni Gronchi a Caxias em 1958, quando a estrutura foi inaugurada.

Leia mais:
Monumento à Italia e bairro São Pelegrino em 1958
Aparício Postali e Giovanni Gronchi em 1958
O guardião da chave da Igreja São Pelegrino em 1953
São Pelegrino e o novo espaço da Casa de Memória
Suzana Postali Fantinel: uma página para recordar do bairro São Pelegrino
Memórias de São Pelegrino: do Cine Real às Lojas Brasileiras
São Pelegrino: ontem e hoje

Em São Pelegrino: o Monumento à Itália, onde uma placa homenageia Rafael Zambelli e Angelo BracagioliFoto: Diogo Sallaberry / Agência RBS
Monumento em pedra segue à espera de restauração. No detalhe, a placa homenageando Zambelli e Angelo BracagioliFoto: Diogo Sallaberry / Agência RBS

Leia mais:
Os antigos quiosques da Praça Dante Alighieri
Um coreto no coração da Praça Dante
Jardins da Praça Dante Alighieri nos anos 1950
Confira um vídeo com imagens raras da Praça Dante em 1957
As rosas da praça e o horto municipal nos anos 1960
Busto de Dante Alighieri completa 100 anos na Praça
Jimmy Rodrigues e a antiga praça das rosas
Praça Dante Alighieri e arredores nos anos 1930 e 1950
Anos 1950: flertes dominicais nos arredores da Praça Dante 

Confira outras publicações da coluna Memória
Leia antigos conteúdos do blog Memória   



 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros