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Caxias antiga06/03/2018 | 07h30Atualizada em 19/04/2018 | 10h15

Memória: Estátua da Liberdade, um símbolo da Praça Dante desde 1922

Monumento esculpido por Michelangelo Zambelli foi inaugurado por ocasião do centenário da independência do Brasil

Memória: Estátua da Liberdade, um símbolo da Praça Dante desde 1922 Giacomo Geremia/Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
A solenidade de inauguração da Estátua da Liberdade, em 8 de setembro de 1922 Foto: Giacomo Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

A notícia da chegada de uma réplica da Estátua da Liberdade na RS-122, em frente à futura megaloja Havan, traz à tona uma história que muita gente desconhece. Caxias do Sul conta com uma Estátua da Liberdade desde 7 de setembro de 1922. E bem no coração da cidade.

Instalado na Praça Dante Alighieri por ocasião do centenário da Independência do Brasil, o monumento, na verdade, representa a liberdade de Portugal conquistada em 1822. É obra de dois mestres que deixaram profícua herança artística e arquitetônica no município: o construtor Silvio Toigo (autor da coluna, do pedestal e da balaustrada) e o escultor Michelangelo Zambelli (responsável pela escultura em si e seus ornamentos).

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Inauguração da Estátua da Liberdade durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, na Praça Dante Alighieri. Monumento foi inaugurado em 8 de setembro de 1922, um dia depois, devido ao mau tempo. Ao fundo, a Catedral Diocesana, o Bispado e o antigo quiosque localizado na área do futuro chafariz, inaugurado 15 anos depois, durante a Festa da Uva de 1937. Estátua foi esculpida por Michelangelo Zambelli e pedestal foi obra de Silvio Toigo.
População lotou a antiga praça para conferir a cerimôniaFoto: Giacomo Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

Estátua sentada

Conforme informações contida no livro "Os Filhos da Arte - Documentário Artístico de uma Família de Imigrantes", de Irma Buffon Zambelli, a estátua foi idealizada por Michelangelo e executada no atelier de seu irmão, Estácio Zambelli, por ter mais condições de espaço. A escultura recebeu molde em argila e foi fundida em cimento. 

Porém, antes de ficar pronta em definitivo, sofreu alguns "imprevistos". Segundo o relato do livro, "o peso da massa do corpo não resistiu, e sua frágil estrutura dobrou-se na altura dos joelhos, caindo para trás. Como havia às suas costas uma parede, deu a impressão que a estátua havia sentado". 

Refeita e devidamente instalada na praça, a uma altura de 12 metros, a estátua repousa sobre uma coluna de oito metros e meio, em cimento armado. Faz ângulo com os dois primeiros monumentos erigidos em Caxias, em 1914: os bustos de Dante Alighieri (à esquerda) e Júlio de Castilhos (à direita), olhando-se a partir da Avenida Júlio - segundo historiadores, a disposição dos três monumentos na Dante dialoga com a simbologia maçônica (o triângulo).

Na sequência, em 1925, Caxias ganharia seu quarto monumento: o obelisco em homenagem aos 50 anos da imigração italiana, instalado no também recém-inaugurado Parque Cinquentenário. Mas este encontra-se sem identificação e abandonado há tempos, nos fundos do parque.

Inauguração da Estátua da Liberdade durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, na Praça Dante Alighieri. Monumento foi inaugurado em 8 de setembro de 1922, um dia depois, devido ao mau tempo. Ao centro o antigo quiosque localizado na área do futuro chafariz, inaugurado 15 anos depois, durante a Festa da Uva de 1937. Estátua foi esculpida por Michelangelo Zambelli e pedestal foi obra de Silvio Toigo. Em primeiro plano, desfile dos alunos do Colégio Elementar José Bonifácio.
Desfile dos alunos do Colégio Elementar José Bonifácio durante a cerimônia de 8 de setembro de 1922Foto: Giacomo Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
Inauguração da Estátua da Liberdade durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, na Praça Dante Alighieri. Monumento foi inaugurado em 8 de setembro de 1922, um dia depois, devido ao mau tempo. Ao centro o antigo quiosque localizado na área do futuro chafariz, inaugurado 15 anos depois, durante a Festa da Uva de 1937. Estátua foi esculpida por Michelangelo Zambelli e pedestal foi obra de Silvio Toigo. Em primeiro plano, desfilo dos alunos do Colégio Elementar José Bonifácio.
Desfile dos alunos do Colégio Elementar José Bonifácio durante a cerimônia de 8 de setembro de 1922Foto: Giacomo Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

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capa do Jornal Cittá de Caxias de 7 de setembro de 1922, quando foi inaugurada a Estátua da Liberdade, na Praça Dante Alighieri, por ocasião do centenário da independência do Brasil
Capa do jornal Cittá Di Caxias destacando o centenário da independência e a estátua em 1922Foto: Acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul / Reprodução
Anúncio do antigo Atelier Zambelli, de Estácio Zambelli e Michelangelo Zambelli, publicado no jornal Citta Di Caxias, mo dia da inauguração da Estátua da Liberdade, na Praça Dante Alighieri, em 7 de setembro de 1922. Michelangelo Zambelli foi o escultor da obra.
Anúncio do Atelier Zambelli, onde a estátua foi moldada em 1922Foto: Acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul / Reprodução

A inauguração

A programação alusiva ao centenário da independência ocorreria durante quatro dias, de 7 a 10 de setembro de 1922. Mas o mau tempo adiou a festa para o dia 8. Conforme divulgado pelo antigo jornal Cittá Di Caxias, às 5h, ocorreu a alvorada com a bateria de morteiros e o repique de sinos em todas as igrejas. 

A Estátua da Liberdade (na época chamada de Coluna da Independência) foi inaugurada às 9h, com a presença em massa da população, de autoridades locais, do Tiro de Guerra 248, do Conselho Municipal (embrião da Câmara de Vereadores), de associações esportivas e recreativas, clero, escolas públicas e particulares, capelas, congregações religiosas e uma banda de música. Tudo tendo como orador o coronel José Penna de Moraes, então o intendente do Município. 

Também houve missa ao ar livre na Praça Dante, parada do Tiro de Guerra, celebração na Catedral Diocesana e sessão cívica no antigo Theatro Apollo (Cine Ópera).

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Postal da Comemoração do Centenário da Independência do Brasil e inauguração da Estátua da Liberdade, na Praça Dante Alighieri. À esquerda, a Avenida Júlio de Castilhos. Ao fundo, a antiga sede do Banrisul, na Rua Marquês do Herval.
Postal da comemoração do Centenário da Independência do Brasil e inauguração da Estátua da Liberdade, em 1922Foto: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / Divulgação

Detalhes

Quando surgiu, em 1922, a Estátua da Liberdade situava-se em um ponto mais elevado da praça. Anos depois, com as mudanças no terreno e as reformas urbanísticas, as escadarias e a balaustrada (conjunto de colunas de concreto que serviam de apoio e proteção, como se vê na sequência abaixo) foram suprimidas do entorno, descaracterizando o conjunto original.  

Inauguração da Estátua da Liberdade durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, na Praça Dante Alighieri. Monumento foi inaugurado em 8 de setembro de 1922, um dia depois, devido ao mau tempo. Ao fundo, a Catedral Diocesana, o Bispado e o antigo quiosque localizado na área do futuro chafariz, inaugurado 15 anos depois, durante a Festa da Uva de 1937. Estátua foi esculpida por Michelangelo Zambelli e pedestal foi obra de Silvio Toigo.
Praça Dante em 1922, com a balaustrada e o antigo quiosque de José Dal Prá próximo à futura área do chafariz (ao centro)Foto: Giacomo Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
Estátua da Liberdade na Praça Dante por volta de 1930, quando a praça começava a sofrer reformas e nivelamento do terreno. Imagem captada a partir da Av. Júlio, com a a ntiga Casa Serafiini ao fundo, na esquina da Sinimbu com a Dr. Montaury. Ao centro, os casarões que deram espaço à Loja Magnabosco.
Reformas na praça no início dos anos 1930 modificaram o entorno da estátua. Ao fundo, à direita, a antiga Casa Serafini, na esquina com a Rua Dr. MontauryFoto: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / divulgação
Praça Dante Alighieri em 1947, quando era conhecida como Praça Ruy Barbosa. Ao fundo, a catedral Diocesana e o Bispado, com o Magnabosco à direita. Em primeiro plano, a Estátua da Liberdade, inaugurada em 1922, por ocasião do centenário da Independência do Brasil. Nessa época, praça recém havia sido reformada e modernizada, recebendo o famoso calçamento de pedras portuguesas e os cachos e uva e folhas de parreira.
A estátua em 1947, já sem a balaustrada e com o novo calçamento em pedras portuguesasFoto: Reno Mancuso / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
Outro registro, desta vez captado pelo fotógrafo Reno Mancuso do alto do Banrisul (esquina da Júlio com a Marquês do Herval), mostra a movimentação no entorno da então Praça Rui Barbosa. Conforme informações disponibilizadas pelo pesquisador Renan Carlos Mancuso (filho de Reno), à direita, vemos um ônibus da Empresa Santos de Transportes. O coletivo fazia o trajeto do Monumento ao Imigrante até o bairro Rio Branco pela Av. Júlio e, a partir de São Pelegrino, pela Av. Rio Branco. Ao fundo, na esquina da Montaury com a Júlio, vemos o prédio do Banco Nacional do Comércio por inteiro. À esquerda, ao fundo, a torre da Igreja de São Pelegrino.
A antiga Praça Ry Barbosa e a Estátua da Liberdade no início dos anos 1950Foto: Reno Mancuso / Acervo de Renan Carlos Mancuso,divulgação

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Caxias pelas lentes do fotógrafo Reno Mancuso 

Houve um tempo em que a Praça Dante Alighieri atendeu por Praça Ruy Barbosa (meados dos anos 1940 até 1990). Mas outra denominação também ficou na lembrança de quem tem mais de 40 anos. A chamada Praça das Rosas remete à época em que os canteiros eram circundados por cercas de arame, o chafariz era rodeado de roseiras vermelhas e brancas, e o cartão postal de Caxias ainda era roteiro para passeios e todo tipo de registro para a posteridade. Tal característica, banal para os caxienses que circularam pelo Centro até os anos 1980, chamou a atenção da escritora Rachel de Queiróz (1910-2003) durante uma breve passagem por Caxias, à época em que colaborava com a revista O Cruzeiro.Recordada pelo jornalista e ex-cronista do Pioneiro Jimmy Rodrigues (1925-2013) em 2011, a história ressurgiu novamente a partir de uma publicação dos alunos do curso de Jornalismo da UCS no site Tá na Pauta (www.tanapauta.com.br) _ espécie de laboratório on line para os estudantes coordenado pela professora Branca Sólio _, que abordou o tema parques e praças da cidade.Embora hoje os canteiros e aléias da praça cheguem aos noticiários mais pela profusão de pombas, ratos e sujeira, o coração de Caxias já contou com uma referência digna de poesia.
A Praça Dante em 1969, com a Estátua da Liberdade em primeiro planoFoto: Acervo pessoal de Aires Lopes de Oliveira / divulgação
Antigas rosas da Praça Dante Alighieri nos anos 1950 e 1960, cujas mudas eram cultivadas no Horto Municipal por José Zugno e pelo jardineiro Manoel Martins. O filho de Manoel, Nereu Martins, ajudava o pai no horto. Ao fundo, a Estátua da Liberdade, obra feita no antigo Atelier Zambelli, fundado em 1915.
A Estátua da Liberdade e as antigas rosas da praça, por volta de 1965Foto: Hildo Boff / acervo pessoal de Ricardo Boff,divulgação

As inscrições em mármore

Ao norte: O Município de Caxias no primeiro centenário da Independência do Brasil. 7 de setembro de 1922

Ao leste: Homenagem. Aos pioneiros da indústria vitivinícola da região colonial italiana: Dr. Antonio Casagrande, Abramo Eberle, Dr. João Maria Paldaoff, AntonioPieruccini, Felice Laner, Dr. Ricardo Machado, Luiz Antunes & Cia e Dr. Ildefonso Simões Lopes. A Comissão Diretora da 3ª Festa Regional da Uva: Dr. Celeste Gobbato, Joaquim Pedro Lisboa, Rodolpho Rossarola, Dr. Luiz Faccioli e Marcos Fischer. Oficializada pelo Prefeito Municipal, Cel. Miguel Muratore. Patrocinada pelo Interventor Federal Gal. José Antônio Flores da Cunha, sob os auspícios do Ministro da Agricultura, Major Juarez Tavora, e com o concurso dos estabelecimentos vinícolas da região colonial italiana. 18 de fevereiro a 4 de março de 1933.

Ao sul: Sob a administração do Coronel Penna de Moraes, intendente reeleito para o quatriênio MCMXX-MCMXXIV (1920-1924)

A oeste: (1875-1933) Ao colono, que em 57 anos de profícua atividade irmanado à indústria, ao comércio e sob a égide de governos patrióticos, transformou o Campo dos Bugres na Metrópole Intelectual e Industrial da Região Colonial Italiana. Homenagem da Prefeitura Municipal e da Comissão Diretora da 3ª Festa Regional da Uva. 18 de fevereiro a 4 de março de 1933. 

Detalhe do pedestal da Estátua da Liberdade, inaugurada em 1922 na Praça Dante Alighieri. Obra de Silvio Toigo (pedestal) e Michelangelo Zambelli (estátua)
A Estátua da Liberdade hoje, um símbolo pouco conhecido dos passantes do CentroFoto: Rodrigo Lopes / Especial/Pioneiro
Detalhe do pedestal da Estátua da Liberdade, inaugurada em 1922 na Praça Dante Alighieri. Obra de Silvio Toigo (pedestal) e Michelangelo Zambelli (estátua)
Placas de mármore trazem homenagens a personagens da cidade, à Festa da Uva e ao Intendente Penna de MoraesFoto: Rodrigo Lopes / Especial/Pioneiro
A estátua emoldurada pela neblinaFoto: Bruno Zulian / divulgação
A Praça Dante, o calçamento de pedras portuguesas com desenhos de uvas e a Estátua da Liberdade, captados a partir do terraço do Edifício Caixa de FósforoFoto: Rodrigo Lopes / divulgação

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