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Caxias antiga19/02/2018 | 07h30Atualizada em 19/02/2018 | 07h30

Memória: demolição da Vinícola Mosele em 1981

Fachada da década de 1930 seria preservada, mas acabou vindo abaixo com as obras de construção da nova sede da Receita Federal, na Av. Rio Branco

Memória: demolição da Vinícola Mosele em 1981 Wanderley Rocha/Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação
Complexo da Av, Rio Branco foi demolido aos poucos a partir de novembro de 1981 Foto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação

Passados mais de 35 anos, a demolição da antiga Vinícola Mosele, na Avenida Rio Branco, ainda desperta um misto de indignação e revolta. Principalmente porque, mesmo com a anunciada derrubada de parte do complexo para a instalação da nova sede da Receita Federal, um acordo entre representantes do órgão e uma comissão municipal formada por defensores do patrimônio histórico previa a preservação da lendária fachada em pedra.

Lembranças da Vinícola Mosele

Conforme matéria publicada pelo Pioneiro em 30 de outubro de 1981, "o prédio da Vinícola Mosele começará a ser demolido parcialmente nos próximos dias. Ontem à tarde esteve em Caxias o diretor do Departamento de Administração do Ministério da Fazenda, Jorge Caetano, que fez um acordo com a Sociedade de Engenharia e Arquitetura para preservar a parte da frente do prédio, que sofrerá apenas uma reforma".

Na mesma matéria, o arquiteto Paulo Bertussi, principal articulador do movimento a favor da preservação, enfatizava, após uma visita a Brasília, que "o acordo com o Ministério da Fazenda foi uma vitória da população caxiense". Segundo relatou Bertussi ao Pioneiro, "... todas as pessoas de nossa cidade estavam torcendo para que o prédio não fosse destruído. Mesmo sendo demolido em parte, ficará bom porque a área mais importante ficará preservada e recuperada."

Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
O prédio mais emblemático do conjunto, já sem o telhadoFoto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação
Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Prédios da fachada foram demolidos e cederam espaço para o jardim da Receita Federal, na Av. Rio BrancoFoto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação
Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Complexo da Av, Rio Branco foi demolido aos poucos a partir de novembro de 1981Foto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação

As obras

O acordo previa a demolição da fábrica apenas na parte de trás. Os 1,2 mil metros quadrados de frente para a Avenida Rio Branco seriam preservados e reformados, com a finalidade de abrigar a biblioteca e os arquivos da Receita Federal. Porém, não foi o que aconteceu. 

Os magníficos prédios datados da década de 1930 foram ruindo aos poucos, às vistas de quem passasse pela avenida, mesmo com os tapumes de isolamento. Sob a supervisão da empresa Stacon - Estaqueamento e Construções, de Santa Rosa, o terreno foi completamente limpo, com parte da demolição feita manualmente, a outra com o uso de explosivos.

Cerca de três anos depois, em novembro de 1984, a Receita Federal migrava do Edifício Adelaide (galeria do Bar 13) para uma Avenida Rio Branco sem o menor resquício da velha vinícola. Diferentemente da Cantina Antunes e da Cervejaria Pérola, nem a chaminé da Mosele sobreviveu. 

Sobreviventes mesmo, apenas os enormes portões de ferro da fachada, resgatados pelo historiador Juventino Dal Bó e salvaguardados no pátio interno do Museu Municipal até hoje.

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Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Belíssima fachada em pedra original dos anos 1930 seria preservadaFoto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação
Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Tapumes isolavam a demolição, que podia ser acompanhada diariamente pelos passantesFoto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação
Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Prédio da Rua Protásio Alves, na lateral da antiga fábricaFoto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação
Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Portões foram resgatados e hoje encontram-se no pátio interno do Museu MunicipalFoto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação

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Matéria sobre a demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Reportagem do Pioneiro de outubro de 1981 destacava a demolição e o acordo de preservação da fachadaFoto: Acervo Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul / divulgação
Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Complexo da Av, Rio Branco foi demolido aos poucos a partir de novembro de 1981Foto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação
Demolição da Vinícola Mosele em outubro de 1981, na Avenida Rio Branco. Local passou a abrigar, a partir de 1984, a nova sede da Receita Federal.
Em 1981: fachada em pedra seria preservada, mas acabou ruindo na sequência das obrasFoto: Wanderley Rocha / Acervo Fototeca do Museu Municipal de Caxias do Sul,divulgação

O início

Fundada em 1935 pelos empresários Eduardo Mosele, José Jaconi e Fortunato Mosele, a Vinícola E. Mosele & Cia localizava-se em local privilegiado para o escoamento da produção: na Av. Rio Branco, poucos metros acima da Estação Férrea e do terminal de cargas. 

Em 1947, a firma transformou-se em Sociedade Anônima, com sua razão social alterada para E. Mosele S/A – Estabelecimentos Vinícolas, Industriais e Comércio. Entre seus acionistas figuravam, além do presidente Eduardo Mosele, o diretor técnico Fortunato Mosele, o gerente João Mosele e os diretores comerciais Firmino Bisol, Hugo Castello Koeche, José Mosele, Beno Weirich, Adelino de Barros, Paulo Segalla, Orlando Mosele e Rodolfo Schio.

Vinícola E. Mosele & Cia, fachada leste (testada para Avenida Rio Branco). A mesma foi fundada em 1935, por Eduardo Mosele, José Jaconi e Fortunato Mosele. Foto de 1948
O complexo da Mosele e uma bucólica Av. Rio Branco em meados dos anos 1950Foto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,Divulgação

Fábrica de garrafas

Em 1950, a empresa somava mais de 200 operários, possuindo ainda fábricas próprias de garrafas, barris e caixas para acondicionamento das bebidas, além de dois engenhos com destilaria para a produção de álcool e outros derivados.

Na parte logística, a Mosele contava com escritórios e depósitos no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Também mantinha representantes em cerca de 200 praças do país.

Vinícola E. Mosele & Cia, fachada leste (testada para Avenida Rio Branco). A mesma foi fundada em 1935, por Eduardo Mosele, José Jaconi e Fortunato Mosele. Foto de 1950
Auge: a Vinícola Mosele em meados dos anos 1950, com a belíssima fachada em pedra e a chaminéFoto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,Divulgação

Fartura

Nos tempos áureos, a produção da Mosele era vasta. Da fábrica para a mesa dos consumidores do Estado e do Brasil saíam o Branco Seco, o Clarete Mosele, o Riesling Mosele, o Espumoso Frisante Branco Seco, o Reno Mosele, o Frisante Tinto, o Vermuth Branco, o Gemado OK, o Quinado e o Conhaque Mosele, além do suco de uva e do Fino Champagne Mosele. Sem falar, claro, nos lendários vinhos Raposa e Raposa Verde.

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