Carnaval floresce nas ruas de Caxias, mas escolas de samba silenciam mais uma vez - Cidades - Pioneiro
 

Indefinição09/02/2018 | 20h24Atualizada em 09/02/2018 | 20h44

Carnaval floresce nas ruas de Caxias, mas escolas de samba silenciam mais uma vez

Se blocos resgataram popularidade da festa, desfiles carnavalescos estão esquecidos no município

Carnaval floresce nas ruas de Caxias, mas escolas de samba silenciam mais uma vez Juan Barbosa/Agencia RBS
Foto: Juan Barbosa / Agencia RBS

O Carnaval vive um momento contraditório em Caxias do Sul: com a multiplicação dos blocos de rua, cada vez mais foliões são atraídos para a festividade. O maior deles, o da Velha, reuniu 40 mil pessoas no ano passado. Neste ano, 100 mil devem ocupar as ruas durante a festa que já começou nesta sexta-feira (9) e terá eventos até o dia 18, em pelo menos sete blocos diferentes. 

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No entanto, nem tudo é glitter e serpentina na folia caxiense: as escolas de samba, que por décadas sustentaram a mais brasileira das festas, enfrentam o segundo Carnaval consecutivo sem conseguir realizar os desfiles. Em anos anteriores, o evento marcava o ponto culminante de um ano de trabalho das comunidades que, no seu ápice, atraía entre 25 e 30 mil pessoas. Neste ano, apenas três agremiações da cidade planejam festas internas. 

Para Elvino Santos, último presidente do Carnaval de rua da cidade, que aconteceu em 2016, há várias explicações para o momento de transição da festa.  

— É um movimento natural da cidade. Tínhamos época em que Caxias era do Carnaval de clubes. Quando o Carnaval de rua passou a crescer, meio que de uma forma natural os clubes pararam de realizar a festa — exemplifica.

No entanto, atitudes recentes do poder público também contribuíram, direta e indiretamente, para a mudança no perfil e público da festa. Ele cita como exemplo a mudança do local do desfile da Rua Sinimbu para a Plácido de Castro, em 2015, criticada por parte do setor envolvido com o Carnaval. 

— As próprias escolas de samba tiveram contribuição importante para o surgimento desses blocos, quando houve toda a polêmica envolvendo a mudança de local de desfile, o Carnaval acabou ganhando visibilidade. Tanto que tivemos recorde de público na Plácido — lembra.

Inegavelmente, porém, o principal fator que impede a programação das escolas é financeiro. Sem aporte de recursos por parte do poder público desde 2017, as agremiações não têm garantia de retorno com o evento e nem estrutura para sustentar a festa. Ainda assim, prefeitura e escolas acreditam que o desfile voltará em 2019. 

Permanente ou não, a mudança de perfil do Carnaval traz consequências. Os blocos de rua, em Caxias, cresceram com a adesão de um público mais elitizado, que se esbalda numa festa que lembra o Carnaval baiano. Contudo, as periferias que mobilizavam as escolas de samba perdem uma valiosa oportunidade de expressão cultural.

Para Caetano Sordi, doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a ascensão dos blocos de rua traz prós e contras. Entre os pontos positivos, está a reapropriação das ruas e da espontaneidade do Carnaval. Ao mesmo tempo, há o risco de que a nova festa passe a selecionar seu público.  

— Um risco é que o negócio (os blocos de rua) se "gourmetize" muito, excluindo o público que não seja mais de classe média. Que se acentuem as distinções sociais entre estratos da população a partir de mecanismos de exclusão mesmo, tipo bloco VIP ou coisas assim, ou a lógica dos abadás em Salvador, que hoje são caríssimos — aponta. 

Sem a recuperação das escolas de samba e a mobilização das comunidades, o Carnaval vai perder a própria essência, alerta o antropólogo. 

— O bloco, mesmo o mais elitizado, para manter a característica de bloco, precisa aceitar quem quer aparecer para participar. Esse é o espírito do Carnaval na cultura brasileira. Em antropologia, chamamos de ritual de inversão. É o momento em que as hierarquias e diferenças são temporariamente suspensas, para depois serem repostas novamente — defende. 

CARNAVALESCOS OPINAM

— Vivemos um período de férias forçadas. Mas os dois anos em que não teve Carnaval em Caxias serviu para unir as escolas. Então, os desfiles não acabaram, as escolas não fecharam e o Carnaval não vai morrer na cidade. Vamos trabalhar em 2018 para conseguir mais apoio e fazer a nossa comemoração. Do prefeito, a gente tem consciência de que pouco ou nada virá. Ele falou que iria tirar verba da cultura para investir em saúde e segurança, mas o que se percebe é um caos nesses setores. Não sabemos, então, para onde essa verba foi. Por isso, vamos lutar pela nossa cultura. Não vamos desistir, porque só quem vive de Carnaval sabe como é pisar na avenida e ver todo o trabalho de meses ali, brilhando e fazendo a festa. É uma emoção que vamos resgatar — Maria Aparecida Batista Rodrigues, integrante da diretoria da Protegidos da Princesa.

— Sem arquibancada, som e luz não se tem o mínimo de condições para realizar o espetáculo. A gente tem consciência de que na atual gestão da prefeitura de Caxias, o Carnaval não terá apoio. É óbvio que não vamos fechar a escola e muito menos desistir do Carnaval, apenas estamos desmotivados e sem recursos próprios para, neste momento, realizar um desfile de qualidade. A Mancha tem feito algumas atividades no pavilhão, permanecemos ativos dentro da torcida do Juventude, que é a nossa casa, e seguimos fazendo o nosso trabalho. Mas a situação atual não nos favorece e, infelizmente, nos silencia por mais um ano — Cláudio Junior Ribeiro Spigolon, presidente da Mancha Verde.

— Estamos confiantes que em 2019 teremos condições de resgatar o nosso Carnaval. No decorrer de 2017 tivemos algumas reuniões e nos foi prometido apoio da prefeitura. Infelizmente, nada foi concretizado, mas não desistimos. O que nos mantêm firmes nessa ideia é de que o prefeito tenha percebido que o Carnaval é importante para a cultura. Desde que assumiu a prefeitura, ele (Daniel Guerra) afirmou que não iria disponibilizar recursos para o Carnaval porque outras áreas mereciam mais atenção. Em 2019, com a Festa da Uva, acredito que também teremos chance de mostrar nosso trabalho. As escolas permanecem com atividades dentro das comunidades e vamos unir forças para reviver os tradicionais desfiles de Carnaval — Adenir Carvalho, presidente da XV de Novembro

— Talvez com uma nova gestão na prefeitura a gente consiga receber o mínimo de apoio para realizar o Carnaval. As escolas não querem dinheiro, o que queremos é o básico de estrutura como segurança, arquibancada, banheiros químicos, enfim, o que viabilize o desfile na rua. Já estamos movimentando os presidentes das escolas para apresentar propostas para o Carnaval do próximo ano. Estou em contato com escolas de outras cidades do país para montar um projeto que se encaixe em Caxias e com isso pronto vamor ir para cima da prefeitura. A comunidade do Jardelino Ramos não parou em 2017, sempre realizou eventos e vamos seguir em buscar da retomada da nossa festa — Simião José de Vargas, presidente da Filhos de Jardel

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