Memória: Mercadinho do Povo, na Avenida Júlio, em 1947 - Cidades - Pioneiro

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Caxias antiga29/01/2018 | 07h30Atualizada em 30/01/2018 | 15h58

Memória: Mercadinho do Povo, na Avenida Júlio, em 1947

Estabelecimento surgiu em 1922 e funcionou durante 58 anos, fidelizando gerações de consumidores

Memória: Mercadinho do Povo, na Avenida Júlio, em 1947 Reno Mancuso/Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
Em 1947: Mercadinho do Povo situava-se em um casarão de madeira erguido em 1880. Foto: Reno Mancuso / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

Quem circulou pela Avenida Júlio de Castilhos, entre as ruas Garibaldi e Visconde de Pelotas, no período 1922 a 1980 passou por ele. E quem não conheceu pessoalmente, provavelmente ouviu dos pais e avós um pouco de sua história e fama – principalmente do inesquecível doce de batata doce. Falamos do Mercadinho do Povo, estabelecimento que perdurou por 58 anos e até hoje é lembrado pelos consumidores mais antigos, acostumados a abastecer a despensa com produtos comprados a granel.

Toda essa história começou em 1922, quando o senhor Attilio Mariani migrou de Montenegro para Caxias na companhia das irmãs Sila e Alzira. Após adquirir o casarão de madeira construído em 1880 pelo também comerciante Ludovico Sartori, Mariani instalou ali o secos & molhados que se tornaria endereço obrigatório para os moradores do Centro, arredores e até de outras cidades.

Seu Attilio recordou parte dessa trajetória nas páginas do Pioneiro de 20 de abril de 1985, aos 89 anos: "Quando comecei, a Júlio nem era calçada, a casa foi levantada três vezes por causa das modificações na rua. Ali casei e criei meus sete filhos", contou à época. 

Conforme o depoimento do comerciante, "no início, era só fruteira, depois passou a armazém, vendendo de tudo: batata, feijão, milho, farinha do Germani e do Covolan (moinhos). Tudo vinha em sacas, que depois eram despejadas em caixas com separação".

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Avenida Júlio de Castilhos, entre as ruas Garibaldi e Visconde de pelotas, em meados dos anos 1940. na imagem aparecem o velho Mercadinho do Povo, instalado em um casarão de madeira de 1880 (a quarta casa a partir da esquerda).
O Mercadinho do Povo em meados dos anos 1940, ao lado do atual sobrado que abriga as Lojas UruguaiFoto: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / divulgação

Sortimento

Além dos produtos básicos, o mercadinho era bastante procurado por causa das rapaduras (especialidades da casa), pés-de-moleque, nozes, castanhas e amendoins. Frangos vivos também não faltavam no variado sortimento. 

"Nos tempos áureos, chegava a ter dois empregados só para entregar as compras, ocupando toda a família no atendimento ao público", recordou o fundador na entrevista de 1985. A família em questão era formada pela esposa Pierina e pelos sete filhos: Valdomiro, Luiz, Zulmira, Sérgio, Iria, Nelson e Francisco.

Interior do Mercadinho do Povo, fundado em 1922 pelo empresário Attilio Mariani. Na imagem, os irmãos Cecília Mariani, Attilio Mariani e Adão Mariani exibem a fartura no balcão.
Em 1933: Cecilia, Attilio e Adão Mariani exibem a fartura do Mercadinho no balcão e nas prateleirasFoto: Julio Calegari / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

O Mercadinho em fotos

Na imagem que abre a matéria, o Mercadinho do Povo em 1947, com a identificação na lateral da casa. À direita, parte do prédio da antiga Farmácia Confiança, na esquina com a Garibaldi. Ao lado, o terreno que, nos anos 1950, viu nascer o Edifício Caberlon. Subindo a Júlio, os sobrados que cederam espaço aos edifícios Prataviera e Jotacê. Sobrevivente do meio do trecho mesmo, só o prédio da antiga sede dos Armarinhos Caxias, atualmente Lojas Uruguai.

Abaixo, o trecho da Av. Júlio em meados dos anos 1960, com o Mercadinho agora ladeado pelos primeiros edifícios do trecho, o Caberlon (à direita) e o Prataviera (à esquerda). 

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Vista da Av. Júlio de Castilhos no final dos anos 1960. À esquerda, vê-se o prédio da loja Casa Prataviera. Mais ao fundo, a Igreja Metodista e a Igreja de São Pelegrino, respectivamente. Também vemos o prédio dos Armarinhos Caxias (ao lado do prédio, hoje sede das Casas Uruguai) e o Edifício Caberlon, quase na esquina com a Rua Garibaldi.
Anos 60: o trecho da Av. Júlio, entre a Garibaldi e a Visconde de Pelotas, com o Mercadinho do Povo constrastando com o recém-inaugurado Edifício da Casa Prataviera Foto: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / divulgação

Parado no tempo

Há 40 anos, em 28 de janeiro de 1978, o Mercadinho do Povo estampou uma matéria de meia página no Pioneiro. Intitulada "O armazém que parou no tempo", a reportagem destacava que as outrora cheias prateleiras agora estavam praticamente vazias, e os grandes caixotes, onde se depositava as farinhas de trigo e de milho, não tinham mais serventia.

Por volta dessa época, o nome do estabelecimento já havia mudado para Armazém do Povo e era comandado pelo filho Luiz Mariani, morador do segundo andar juntamente com o pai, já viúvo. O ponto nobre também despertava o interesse imobiliário: "Estamos com intenção de vender, para aqui ser construído um arranha-céu", revelou Luiz em 1978. Não demorou muito.

O velho casarão de madeira foi demolido em 1982, abrigando posteriormente as Lojas Marisa. "Os barrotes eram da grossura de um pinheiro, não tinha um cupim. Demoraram um mês para derrubar. Dava para durar ainda uns 50 anos", resignou-se seu Attilio, na entrevista de 1985.

Jornal Pioneiro de 28 de janeiro de 1978 destacando a história do Mercadinho do Povo.
Matéria do Pioneiro de janeiro de 1978 destacou a história do Mercadinho do PovoFoto: Centro de Memória da Câmara de Vereadores / Reprodução

Relíquia do Centro

Em sua coluna no Pioneiro de 8 de julho de 1978, o jornalista Nestor Gollo enaltecia o lugar: 

"Não há preço que pague a beleza típica, tradicional e sentimental de uma das mais queridas relíquias do centro da cidade: o velho Mercadinho do Povo, onde ainda se compra doce de batata doce sob um centenário balcão de tampo de vidro. A única coisa moderna lá é a luz elétrica..."

O slogan

Até o slogan do lugar era um primor em rimas: "Mercadinho do Povo, o tradicional mercadinho da Metrópole do Vinho".

Lembranças

"Quando eu tinha seis anos, meu pai, o fotógrafo Reno Mancuso, tinha o estúdio ao lado da Farmácia Confiança, na esquina da Garibaldi com a Júlio. Sempre que minha mãe me levava ao estúdio, meu pai me levava até o Mercadinho do Povo para eu comer doce de batata doce. Eu adorava aquele doce". (Renan Carlos Mancuso, 65 anos)

"Eu era cliente dos doces de batata doce. Economizava minha mesada de domingo para ir lá ou no Café Comercial para comer mil folhas. No mercadinho tinha uma vitrine com vidro trincado e por trás cordões que fixavam bilhetes de loteria. Saudades". (João Alberto Marchioro, arquiteto)

"Ia sempre lá, comprar balas de anis, por peso, colocadas em um saquinho de papel..." (Vanius Corte, advogado) 

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