Mesmo sem hospitais, Nova Roma do Sul é referência em saúde básica no Estado - Cidades - Pioneiro

Saúde03/07/2017 | 08h00Atualizada em 03/07/2017 | 08h00

Mesmo sem hospitais, Nova Roma do Sul é referência em saúde básica no Estado

Ranking do Idese utiliza cinco indicadores, entre eles a taxa de mortalidade e a  longevidade

Mesmo sem hospitais, Nova Roma do Sul é referência em saúde básica no Estado Roni Rigon/Agencia RBS
Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Enquanto pacientes amargam espera e sofrimento em filas de urgência pelo Estado afora, moradores de Nova Roma do Sul desfrutam da melhor saúde básica. A cidade sequer conta com hospital, apenas com um pronto-atendimento que funciona 24 horas. Mesmo assim, conquistou o primeiro lugar no ranking da saúde no Estado, segundo o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese).

Um dos segredos da qualidade é o pronto-atendimento, porta de entrada para todos os moradores via Sistema Único de Saúde (SUS) da cidade. A estrutura é nova, com dois pavimentos, organizada e limpa. A equipe é formada por três clínicos gerais, ginecologista, dois dentistas, dois fisioterapeutas, assistente social, nutricionista, fonoaudióloga, psiquiatria e psicólogo. Estes profissionais dão conta da demanda dos pouco mais de 3,5 mil habitantes. 

— Nós tentamos ensinar principalmente o autocuidado, para que aprendam que a atenção à saúde precisa partir dele mesmo — garante o secretário de Saúde e vice-prefeito, Roberto Panazzolo.

Comparado a hospitais de cidades mais populosas, o cenário chega a ser atípico. A recepção tem cadeiras confortáveis e dificilmente está lotada. A maior parte das salas tem ar-condicionado, e a sala para fisioterapia é tão bem equipada como consultórios particulares. Uma das pacientes que usufrui do espaço três vezes por semana é a aposentada Uzana Lodi, 82 anos. A dificuldade ao caminhar é driblada com exercícios que promovem o alongamento do corpo, treinam condições respiratórias, entre outras melhorias:

— É joia o atendimento aqui. Nos tratam como da família mesmo — define Uzana.

É claro que por se tratar de um município bastante pequeno, é possível cuidar das pessoas com mais proximidade. É o que defende o secretário de Saúde ao explicar que agentes de saúde e um único médico, além de enfermeiros, visitam cerca de 1.050 famílias com frequência. Desta maneira, a equipe acompanha de perto as gestantes — o que influencia diretamente no índice materno-infantil — e também idosos com doenças crônicas. Enquanto a expectativa de vida no Brasil é de 74,4 anos, em Nova Roma do Sul, é de 76,06 anos.

— Com este acompanhamento, conseguimos manter nossa mortalidade infantil praticamente zerada. Uma criança morre a cada dez anos, e quando acontece, porque focamos muito em prevenção, como vacinas e exames — explica Panazzolo.

O Idese faz a avaliação baseado em condições de saúde básica, que envolve principalmente os atendimentos materno-infantil, longevidade, condições gerais, mortalidade infantil, entre outras informações. Outros dois municípios da Serra também estão no topo do ranking: São Jorge e Nova Araçá. Os dados foram colhidos em 2014 pela Fundação de Economia e Estatística, a FEE.

Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

NÚMEROS

:: Expectativa de vida: 76,06 anos
:: PIB: R$ 104.143,15
:: PIB per capita: R$ 29.394,06
:: 3.496 habitantes (em 2014)
:: Orçamento da saúde: R$ 4,13 milhões (R$ 3,55 milhões do município e outros R$ 582 mil de repasses dos governos federal e estadual.
:: Índice do Idese na saúde: 0,929

"É um pequeno paraíso"

O agricultor Adriano Rossi, 49, trabalha diariamente na roça em Linha Trajano de Medeiros, a cerca de 10 quilômetros do centro de Nova Roma do Sul. A distância não é empecilho para ele comparecer ao pronto-atendimento da cidade: quando não tem como se deslocar ao posto, alguém da Secretaria da Saúde se responsabiliza pelo transporte, serviço que não é usual em boa partes da cidades da Serra. Ele frequenta fisioterapia, psicóloga, fonoaudilógo e psiquiatra. Já se consultou com nutricionista e tem acompanhamento de assistente social. Tudo isso sem custo algum ao agricultor e sem muito tempo d espera:

— Eles atendem a gente muito bem. Eu me emociono bastante quando falo, porque faz com que me sinta mais seguro — avalia Rossi.

Gratidão pela equipe da saúde é o que sente a auxiliar de serviços gerais Gloria Salvatti Marini, 55. Para ela, sem os cuidados dos profissionais do SUS, dificilmente seu pai Antônio Salvatti, 80 anos, se manteria bem. O pedreiro aposentado sofreu um AVC há cerca de 20 anos e está acamado desde então. A situação poderia ser mais difícil caso não recebesse as visitas quase que semanais da equipe. Se é preciso fazer curativos, basta acionar o serviço do SUS.  Além do atendimento, a prefeitura ajuda a família com fraldas, gases, óleos cicatrizantes, luvas e todos os remédios prescritos pela médica.  

Para Gloria Salvatti Marini, 55, sem os cuidados dos profissionais do SUS, dificilmente seu pai Antônio Salvatti, 80 anos, se manteria bem Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

— Posso dizer que é tudo nota 10. O que a gente precisa, a gente tem rapidamente. Quando precisa, buscam ele em casa, de ambulância. Também fazem exames sem ter que sair de casa. Vivemos em um pequeno paraíso, e tenho certeza que somos privilegiados — orgulha-se Gloria.

Municípios pagarão cirurgias

A justificativa para que municípios com até 5 mil habitantes sejam os que mais se sobressaem quando o assunto é saúde é de fácil compreensão. Por não sediarem hospitais, cidades como Nova Roma do Sul dependem quase que exclusivamente de municípios vizinhos para serviços de média e alta complexidade. Para se ter uma ideia, o orçamento mensal da saúde de Nova Roma do Sul, que gira em torno de R$ 344 mil, representa 30% do valor que a prefeitura de Caxias gasta mensalmente apenas com a compra de medicamentos. Diariamente, de 25 a 50 pacientes são transportados para Farroupilha, Caxias do Sul e Bento Gonçalves. O Hospital São Carlos, de Farroupilha, que ameaça fechar por déficit de quase R$ 40 milhões, ainda é a principal referência para Nova Roma do Sul.

— Os municípios nos pedem contrapartida, mas não achamos certo. Cada vez mais os municípios arcam com despesas, e cada vez menos arrecadamos —assegura o secretário de Saúde, Roberto Panazzolo.

A coparticipação, no entanto, foi um pedido oficilizado pela prefeitura de Farroupilha aos 11 municípios que dependem do São Carlos. A medida visa aumentar a arrecadação e manter os serviços hospitalares em Farroupilha, segundo a titular da secretaria, Rosana Rosa. As prefeituras já foram avisadas e aceitaram, segundo Rosana, pagar os valores de cirurgias gerais, como traumatologia e demais procedimentos de média complexidade. Cada prefeitura pagará o dobro do valor do procedimento pelo SUS, já que a tabela SUS está defasada. 

— Já foi pactuado e a região toda aceitou. É possível aumentar o número de cirurgias feitas, que vão desde traumatologia até remoção de hérnias, por exemplo — explica Rosana.

O São Carlos tem uma cota mensal de 99 cirurgias mensais, sendo 54 destinadas para Farroupilha e outras 45 para a região. Só em Farroupilha, a lista de espera destes procedimentos ultrapassa 800 pacientes.

ENTENDA

O ranking da Saúde do Idese utiliza cinco indicadores divididos em três sub-blocos: saúde materno-infantil; condições gerais de saúde; longevidade. O índice final da saúde é a média aritmética dos índices desses sub-blocos.

No primeiro sub-bloco, estão inseridos dois indicadores: taxa de mortalidade de menores de cinco anos  e números de consultas pré-natais por nascidos vivos.

O segundo sub-bloco, condições gerais de saúde, é constituído, por sua vez, pelos indicadores da taxa de mortalidade por causas evitáveis e da proporção de óbitos por causas mal definidas.

O sub-bloco longevidade considera o indicador da taxa de mortalidade bruta, que mede o número total de óbitos, por mil habitantes, na população residente em determinado espaço no ano específico.

 
 
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