Aumenta a violência contra a mulher em Caxias do Sul - Cidades - Pioneiro

Feminicídio08/07/2017 | 09h30Atualizada em 08/07/2017 | 09h30

Aumenta a violência contra a mulher em Caxias do Sul

Rede de proteção tenta frear estatísticas, mas primeiro semestre fecha com mais do dobro de vítimas na comparação com ano passado

Aumenta a violência contra a mulher em Caxias do Sul Rodrigo Philipps/Agencia RBS
Como também não há um perfil padrão de vítima, o trabalho de prevenção para evitar esse crime também é amplo Foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS

Leis específicas e uma rede de proteção que se fortalece ano a ano não são capazes de estancar o número de jovens e idosas mortas pelo ex ou atual companheiro em Caxias do Sul. Pelo contrário. A violência contra a mulher só aumenta na cidade. Dados do primeiro semestre deste ano revelam que dobrou o número de mortes na comparação com o mesmo período do ano passado - até junho foram cinco casos contra dois em 2016 (ano que terminou com cinco assassinatos). As prováveis causas e alegações dos suspeitos ou assassinos confessos são as mais diversas. Mas, como o motivo é sempre passional, autoridades e pessoas ligadas à rede de proteção afinam o discurso ao falar que, em muitos casos, não é possível prever uma tragédia. 

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Como também não há um perfil padrão de vítima, o trabalho de prevenção para evitar esse crime também é amplo. 

— Toda mulher é ou pode ser uma vítima — resume Claudia Gonçalves, uma das psicólogas da Coordenadoria da Mulher, órgão ligado à prefeitura.

O setor, que existe desde janeiro de 1999, controla quem são aquelas que procuram ajuda depois de uma ameaça ou agressão, seja física, psicológica, sexual ou moral. Os dados não mostram o todo de um amplo universo - a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), por exemplo, registra cerca de 500 ocorrências mensalmente - mas ajudam a mostrar quem são as mulheres que pedem socorro. Das 205 que buscaram a coordenadoria em maio, a maioria tinha entre 30 e 39 anos (30%), era branca (44%), tinha renda de até um salário mínimo (27%), ensino fundamental incompleto (27%), dois filhos (21%), morava no Centro (15%) e era católica (46%). Os dados também indicam que muitas já haviam buscado os órgãos de segurança: dessas 205, 114 (55%) já tinham registrado boletim de ocorrência na polícia e 84 (40%) contavam com medidas protetivas.

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Das cinco mulheres mortas em 2016, nenhuma tinha procurado a coordenadoria. Das vítimas deste ano, somente duas (das cinco) buscaram atendimento, mas não em recentemente. O motivo, no entanto, não era referente a problemas com o homem que se tornaria seu assassino, mas com um companheiro anterior.

— O número de mulheres que estão buscando ajuda vem aumentando, o que consideramos bom e ruim. Bom porque elas estão se empoderando e buscando auxílio para sair do ambiente de agressão; ruim porque é péssimo ver que ainda há um número alto de mulheres em situação de violência 1 explica Debora Schmidt, titular da Coordenadoria da Mulher.

A realidade de Caxias, no entanto, não é exclusiva. Pesquisa recente da DataSenado sobre a violência doméstica e familiar contra as mulheres no Brasil revela um aumento daquelas que declaram ter sofrido algum tipo de violência doméstica: o percentual passou de 18%, em 2015, para 29%, em 2017. Houve crescimento também no percentual de mulheres que disseram conhecer alguém do sexo feminino que já sofreu violência doméstica ou familiar praticada por um homem: 56%, em 2015, para 71%, em 2017. 

Violência está generalizada 

Embora se tente descobrir quem é a mulher agredida ou ameaçada, os dados indicam que não há como desenhar um perfil para essa vítima. Os registros podem, também, disfarçar uma realidade: o fato de a maioria que procurou a Coordenadoria da Mulher, em maio, morar no Centro (32 das 205) pode apenas mostrar que o caminho delas até o auxílio foi mais fácil, se comparado com aquelas que moram na periferia.

— Aquelas que têm condições financeiras melhores e são mais independentes, por exemplo, normalmente não pedem ajuda porque têm como sair daquela vida sozinhas, mudar de cidade, sair de casa. Elas não entram nessas estatísticas de quem busca ajuda, mesmo sendo vítimas. A violência está generalizada, está em todas as classes — acredita a psicóloga e coordenadora do Centro de Referência da Mulher, Thais Dallegrave Bampi.

 

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