Mães em meio à violência - Cidades - Pioneiro

Relatos13/05/2017 | 10h11Atualizada em 13/05/2017 | 10h11

Mães em meio à violência

Pioneiro aborda relatos de duas mães cujas famílias foram abaladas pela violência 

Mães em meio à violência Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Tatiane observa filho após vivenciar momentos  de pânico durante assalto em Vila Cristina. Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Pedro tem um ano e 10 meses, idade para caminhar e fazer bagunça, mas não o suficiente para compreender como é ser filho da melhor mãe do ano, no caso, de Tatiane Junchen. A veterinária de 37 anos viveu na última segunda-feira o que testemunhas classificaram como "coisa de cinema".

A mãe, o filho e outros reféns presenciaram o segundo ataque a carro-forte na Serra onde bandidos empregaram armamento de guerra para confrontar policiais e seguranças de uma transportadora de valores — um refém foi atingido por bala perdida. 

Nesse enredo de violência, Tatiane virou escudo para assaltantes, foi vítima e heroína. O crime durou cerca de uma hora sob o asfalto da BR-116, em Vila Cristina. Para a mulher, o tempo se dilatou entre tiros de fuzis, explosões e pânico. Seu único pensamento era garantir a segurança do filho e sobreviver. A provação às vésperas do Dia das Mães remete a reflexões que muitas mulheres se fazem: como criar um filho em um mundo cada vez mais vulnerável à violência.

Abordagem

A veterinária mora em Caxias do Sul, mas trabalha em Nova Petrópolis, onde Pedro também frequenta uma escolinha. Na segunda-feira, dia 8, buscou a criança 15 minutos antes do horário habitual. No carro, rumo a Caxias, estavam ela, Pedro e os três cachorros da família. 

No início da noite, já em Vila Cristina, a mulher notou vários veículos com pisca-alerta ligado e rodando em baixa velocidade na rodovia. Inicialmente, imaginou um acidente. Continuou dirigindo e viu que pessoas começaram a fazer sinal para ela que parasse o carro.

— Então, ouvi os primeiros tiros e um dos criminosos com o fuzil me pedindo para encostar o carro. Quando ele se aproximou e me mandou descer, a primeira coisa que eu disse foi: estou com meu filho dentro, não machuca ele, por favor.

O criminoso ficou em dúvida e foi verificar se havia mesmo uma criança. Quando confirmou, ordenou que a mulher permanecesse no carro, sem se mexer.

— Obedeci e não faço a mínima ideia de quanto tempo permaneci lá. Até que eles pediram para todos nós (ela e outros motoristas) descermos dos veículos. Colocaram a gente como cordão humano, mas o Pedro ficou no carro com os cães.

Depois de um tempo, segundo Tatiane, os homens armados sumiram em uma curva logo à frente e o barulho das explosões começou a aumentar:

— Não sabíamos o que fazer. Aí começaram os tiros que pareciam vir na nossa direção. Todos saíram correndo para se proteger, mas eu fui até o carro, tirei o cinto do meu filho, peguei ele e fugi para onde os outros estavam. Nos abrigamos no mato, e ficamos lá um longo tempo que também não sei precisar. Quando percebi, alguns minutos depois, o Pedro dormia no meu ombro.

Instinto

Tatiana agiu por instinto. Diz que ainda está assimilando a amplitude dos riscos que ela, o filho e outros reféns foram submetidos. Naquele dia, afirma, o foco era salvar a criança.

— Foi uma provação que não desejo para nenhuma outra mãe. Em nenhum momento admiti que pudesse ocorrer alguma tragédia com ele. O pará-brisa do meu carro está com um buraco de tiro que atravessou o outro lado do veículo. Não faço a mínima ideia de quando isso aconteceu, só sei que atingiu um ponto do carro a 30 centímetros de onde meu filho estava sentado. Não sei se foi antes ou depois que peguei ele, só sei que eu queria pegar ele. No momento do assalto,  só pensava no meu filho: "e se acontecer algo comigo? Quem vai cuidar do Pedro? Ele vai ficar abandonado ali no carro".

"O pará-brisa do meu carro está com um buraco de tiro que atravessou o outro lado do veículo. Não faço a mínima ideia de quando isso aconteceu, só sei que atingiu um ponto do carro a 30 centímetros de onde meu filho estava sentado". Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS


Antes de virar refém, Tatiana conhecia a violência quando lia notícias sobre assaltos. Já chegou a se imaginar em situações assim e refletia que estaria tudo bem se um dia roubassem seu carro, desde que o filho não estivesse com ela.

—  Ainda acho que estávamos em situação mais segura naquele assalto do que nesses roubos que acontecem no cotidiano das ruas, porque naquela ação, os criminosos estavam bastante tranquilos, totalmente no domínio da situação e até me trataram diferente por eu estar com meu filho. Acho que eles até queriam pôr fogo no meu carro, mas não fizeram porque avisei que estava com uma criança.

Mudança

Ela e o marido vão se mudar para Nova Petrópolis. O casal já havia fechado negócio alguns dias antes e o trauma sofrido foi o estímulo que faltava para deixar Caxias. 

— O pior é que eu já quase presenciei outros dois assaltos a carros-forte neste trajeto, passei pelos locais logo depois do ocorrido. Então, preferimos nos mudar para um lugar mais tranquilo e esperar que o crime não migre para lá também.Ao mesmo tempo que a violência aflorou ainda mais o instinto protetor, Tatiane sente-se impotente por entender que o poder está na mão dos outros e a sensação de insegurança de viver em Caxias tem se tornado maior cada dia. 

— Infelizmente, temos um problema cultural no nosso país. Não temos suporte suficiente para nossa segurança pública e nossa educação e, por isso, estamos em situação de risco a cada dia que saímos de casa. Naquele dia, consegui me colocar no lugar de mães que perdem seus filhos. É um sentimento horrível. Mas ainda bem que nada aconteceu. Foi uma experiência ruim, mas que passou, e o bom foi que protegi meu filho a ponto de ele ter ficado tão sossegado e não se dar conta do que estava acontecendo.

Pedro não lembrará de nada quando crescer, mas um dia vai saber da história e provavelmente gostará do detalhe de ter dormido o tempo todo no colo da melhor mãe do mundo. Parece lugar comum, mas afinal qual mãe não é a melhor do mundo na visão do próprio filho? No caso de Pedro, ele poderá exclamar isso para o resto da vida, sem hesitação. 

"Vou celebrar  porque nunca deixarei de ser mãe" afirma mãe de jovem assassinado no último ano, em Caxias

Já a pastora Eloisa Margarete da Silva Pereira precisou viver a lógica inversa desejada por todas as mães : testemunhou o enterro do próprio filho, Mateus José Pereira. No final do ano passado, o jovem foi assassinado a tiros ao parar o veículo junto a um semáforo no bairro Kayser. Este domingo simboliza o primeiro Dia das Mães de Eloisa sem a presença do filho.

Mateus José Pereira, 28, foi morto com mais de 20 tiros na noite do dia 5 de dezembro de 2016. Foto: Arquivo pessoal / Reprodução

— Eu sei que domingo ninguém vai me chamar de "velha" como me chamavam,  como o Mateus vivia dizendo. A saudade é enorme, é muito grande mesmo, parece que faz dez anos que ele se foi. Mas ao mesmo tempo, vou celebrar sim, porque ele me convenceu que sou forte, sempre dizia que eu era  uma mulher corajosa, e isso me motiva a continuar sendo — relata emocionada.

Ela ainda lamenta a violência urbana que resultou na morte do filho e diariamente causa luto a mães do mundo todo.

_ Jamais vou desejar essa dor pra qualquer pessoa, mesmo para meu pior inimigo. Mas ao mesmo tempo as tragédias reforçam a necessidade de mudarmos, precisamos nos unir e ter fé na mudança. Não podemos perder a esperança de que amanhã será um dia melhor e nem ter  medo de sair de casa  — afirma.

Eloisa, que celebra neste sábado aniversário, comenta que as duas datas acabam tendo um peso sentimental maior:

— Não sei se vou chorar, talvez eu chore, mas com certeza vou celebrar. Celebrar a mãe que fui ao Mateus, a "mãe chata" que ajudou ele a se tornar aquele rapaz que todos admirávamos. Ele não está mais aqui, mas com certeza o encontrarei no futuro. A dor é grande, mas espero que todas as mães que viveram isso também celebrem e não esqueçam que continuam sendo mães, para sempre. Também quero parabenizar as que têm a sorte de seus filhos estarem vivos e aconselhar a elas que jamais deixem de amá-los e sair de perto deles.

 "Enquanto cada mãe estiver viva seu filho vai estar vivo através dela"

A psicóloga clínica, Neusa Picolli Fante, atua há vários anos no atendimento a pais enlutados. A experiência de auxiliar em grupos voltados ao tema lhe ensinou, conforme define, "o valor do cuidado". Ainda assim, além do suporte clínico, ela reitera importância de o processo da dor ser vivenciado pelas próprias pessoas em situação de luto.

— O luto traz mudanças significativas na vida de todos os envolvidos. Outro fator em nível social  perceptível é a falta de acolhimento social. Existem muitos mitos e inverdades que prejudicam a elaboração de um luto, como por exemplo, o de que a dor expressa em lágrimas é sinal de fraqueza ou de que falar vai doer mais. Ao contrário do que se acredita tais posturas expõem os enlutados ao silêncio e ao distanciamento — afirma.

Segundo ela, o apoio familiar é fundamental nos momentos de perdas de entes queridos, independente da idade da pessoa próxima:

— Ter alguém com quem se possa contar, confiar é primordial. Muitas vezes as pessoas não conseguem compreender o que fazer ou como fazer naquele momento, e é ali que entra a ajuda profissional, auxiliando o enlutado a reorganizar sua vida e a recuperar o sentido para a mesma.

Para Neusa, entretanto, o principal ponto é compreender que a vida do enlutado passa a se tornar uma extensão da pessoa querida que se foi:

Só vai existir luto se tiver existido amor, por isso é importante caminhar sobre essa experiência da dor, vivenciando tudo que faz parte desse processo, incluindo tristeza e angústia. O grande desafio para as mães é continuar amando esses filhos agora em separado. Essa distância que promove vida nos lugares mais sombrios do ser humano, faz brotar esperanças. Assim enquanto cada mãe estiver viva, seu filho vai estar vivo através dela .

 
 
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