"É impossível alcançar o tamanho do prejuízo na vida do aluno", diz especialista sobre falta de professores na Serra - Cidades - Pioneiro

Educação15/04/2017 | 09h10Atualizada em 15/04/2017 | 09h10

"É impossível alcançar o tamanho do prejuízo na vida do aluno", diz especialista sobre falta de professores na Serra

Em toda a 4ª CRE, são necessários 100 professores a mais em salas de aula

"É impossível alcançar o tamanho do prejuízo na vida do aluno", diz especialista sobre falta de professores na Serra Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Somente em Caxias do Sul, o déficit é de 46 profissionais Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Doutora em Educação e coordenadora dos cursos de mestrado e doutorado em Educação na Universidade de Caxias do Sul (UCS), a professora Terciane Ângela Luchese, 41 anos, entende que os reflexos da falta de professores nas escolas vão muito além dos dias de aula perdidos. Somente em Caxias do Sul, o déficit é de 46 profissionais. Em toda a 4ª CRE, que abrange 122 escolas de 14 municípios, são necessários 100 professores. 

— É impossível alcançar o tamanho do prejuízo na vida escolar do aluno. Eles são seres em formação e, por mais que existam muitas informações disponíveis em todos os lugares hoje, temos de diferenciá-las do que é conhecimento, do que deveriam estar recebendo na escola. Situações como essa (da falta de professores) mostram que os estudantes estão convivendo, e isso não é exclusivo do nosso Estado, com a ausência de profissionais bem preparados, que não conseguem planejar suas aulas e abordar o conteúdo adequado a cada faixa etária e com uma sequência correta. Saber muito  matemática não significa que você será um bom professor. É preciso ter uma boa formação didática e pedagógica para isso. É um crime isso que estamos vivendo, estamos na contramão – afirma Terciane, que acumula experiência de 11 anos lecionando na rede pública de ensino.

Mesmo que novos docentes sejam incorporados nas próximas semanas, a professora acredita que seja impossível recuperar o tempo perdido.

— Não é um caso isolado deste ano, isso tem sido quase que recorrente e afeta a vida escolar do estudante. Essas lacunas vão se tornando um fosso que ele dificilmente vai conseguir recuperar. E qual é a consequência disso? Estamos certificando pessoas que saem da escola após um longo período de estudo e que não têm o mínimo de conhecimento. Essa falta de embasamento certamente vai atingir questões de cidadania, tirar a oportunidade de as pessoas serem bons profissionais. E onde estão esses estudantes? Justamente onde estão esses problemas, o que acaba por gerar ainda mais desigualdade social — entende.

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O contraste na educação brasileira, segundo a especialista, revela-se também pelo fato de o governo mudar a legislação para ampliar o número de crianças na escola, enquanto os cursos de formação de professores estão se esvaziando.

— É ótimo que mais crianças estejam estudando, mas a formação de docentes vive uma crise imensa. Temos turmas cada vez menores, inclusive nas universidades federais e gratuitas. Não se fala sobre isso, não há perspectivas. Hoje, qual é o jovem que é aplicado, que tem muito conhecimento e quer para si mesmo a docência?  Como salários achatados, desvalorização social? Vai além da infraestrutura. Precisamos encontrar outro espaço para o exercício profissional — avalia.

A solução, acredita Terciane, passa por tratar a educação com seriedade:

— É preciso tratar a educação não como um projeto de um governo, mas do Estado, de uma sociedade. Não podemos pensar individualmente, é preciso se ocupar mais do coletivo.


 

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