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Após a tempestade25/03/2017 | 08h00Atualizada em 25/03/2017 | 08h00

Enquanto os recursos federais não chegam, voluntários ajudam a reerguer São Francisco de Paula

Maioria das casas que foram parcialmente destruídas pelo vendaval já recebe obras. Município ainda precisa de materiais de construção

Enquanto os recursos federais não chegam, voluntários ajudam a reerguer São Francisco de Paula Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Vigilante Rafael Costa (centro) recebeu a ajuda de operários de Maquiné para reconstruir casa no loteamento São Miguel Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Com quantas mãos se reconstrói uma cidade? Ainda que sejam incontáveis, em São Francisco de Paula são mãos de voluntários e voluntárias de diversos cantos do Estado que aceleram a retomada de dezenas de vidas que restaram dos escombros após a tempestade que devastou cinco bairros e o distrito industrial. Duas semanas desde a fatídica manhã de 12 de março, o cenário macabro deu lugar a uma visão de esperança provocada por telhas sendo encaixadas onde antes havia lona, paredes sendo reerguidas onde a madeira estava espalhada no chão e terrenos limpos à espera da nova casa onde só havia sobrado entulho.

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Sem contar dezenas de caminhões que chegam diariamente com todo tipo de doações, a ajuda que no momento tem sido mais preciosa é a de mão de obra. A voluntária Andreia Bertuol recorda que já encaminhou para os bairros trabalhadores vindos de Canoas, Capão da Canoa, Viamão, Ivoti e até Curitiba, além daqueles que vêm de cidades vizinhas, como Canela e Gramado.  

Na tarde de quinta-feira, quatro servidores da prefeitura de Maquiné, município a 65 quilômetros de São Chico, trabalhavam na reforma de uma casa parcialmente destruída no loteamento São Miguel, uma das áreas mais afetadas pelo vendaval. Eles chegaram pela manhã e dedicariam todo aquele dia e mais a sexta-feira a ajudar onde fosse necessário. Dormiriam no ginásio de esportes, quarto-general da reconstrução. 

— A gente chega aqui e se emociona por poder ajudar, porque não imagina que tão próximo da gente pode ter acontecido uma tragédia como essa. Em Maquiné a gente já sofreu com enchentes, mas são situações muito diferentes — comenta o operário Edson Margarezi, 52. 

Enquanto os  voluntários serravam e martelavam, o dono da casa, o vigilante Rafael dos Santos Costa, 31, corria até o centro para buscar algum utensílio que faltasse. A maior parte do material, porém, foi ofertada por doações. 

— Ganhei as janelas e as portas da prefeitura, as telhas vieram da empresa onde eu trabalho, em Gramado. Ajuda não está faltando. No mais tardar semana que vem acho que já vai dar para estar morando aqui de novo. Minha esposa está grávida de cinco meses e graças a Deus vamos poder ter nosso filho na nossa casa — anima-se. 

Voluntárias do Lions Clube de Jaquirana foram a São Chico ajudar a separar as doações no ginásio de esportes Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Enquanto a maioria de homens segue para o trabalho braçal nos bairros, grupos de mulheres que chegam de fora permanecem no ginásio, onde pilhas de roupas que quase alcançam o teto, alimentos e colchões doados precisam ser triados para depois ser encaminhados às famílias cadastradas pelo setor de Assistência Social. São voluntárias que vão por conta própria ou em pequenos grupos identificados com camisetas de ONGs, entidades assistenciais ou prestadores de serviços humanitários. Também na quinta, quatro integrantes do Lions Clube de Jaquirana, a 86 quilômetros de São Chico, se deslocaram para prestar solidariedade:

— Temos amigos e familiares em São Chico e ao vermos a situação, ficamos com o coração dilacerado. Queríamos fazer algo para ajudar e percebemos que o enorme volume de doações provocou um tumulto. Era preciso ajudar a organizar e separar as coisas, e foi esse apoio que oferecemos. Nos próximos dias queremos formar novos grupos — conta Cleonice Pereira, 66.

Vaquinha digital para reconstruir a casa dos Klein

Cizinho e Zadir Klein terão de reerguer a casa. Para ajudar com os custos, amiga da família criou uma vaquinha digital Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

As duas últimas semanas poderiam ser de contabilizar perdas para a família Klein, que teve a casa seriamente prejudicada pela tempestade que castigou São Chico. Mas foram dias em que o casal Zadir e Delci Klein, o Cizinho, 63 e 65 anos, e a filha Karine Klein, 25, puderam descobrir o tamanho e o quanto uma rede de amigos pode ajudar a retomar a vida após um desastre. 

Nas primeiras horas após a passagem do vendaval que levou o telhado da moradia na Avenida Júlio de Castilhos, na área central, vizinhos ajudar Cizinho a subir na estrutura e cobrir com lonas a casa e o galpão onde guarda a lenha que comercializa. Ao mesmo tempo, uma turma da UERGS disponibilizou caminhonetes para transportar roupas, documentos e móveis para casas de amigos e familiares, antes que a chuva pudesse estragar tudo. 

— Cada aparelho que eu ligo e vejo que está funcionando é uma vitória — comenta Zadir, professora de História aposentada. 

Nos dias seguintes, começaram a chegar materiais para ajudar a reconstruir a casa, que, embora não tenha caído, teve perda total constatada por um engenheiro. Duas famílias amigas enviaram 1,5 mil telhas romanas e 20 telhas brasilit. Três arquitetos e engenheiros de São Chico se ofereceram para fazer sem custos a planta da nova casa. E uma amiga de Karine, Raquel Verardi Gehl, criou um crowdfunding (espécia de vaquinha digital) para arrecadar fundos para a reforma. A meta é alcançar R$ 10 mil. 

_ A Raquel é dona de uma agência de viagens, e conheci ela como cliente. Fomos ficando amigas, viajamos juntas, e hoje somos como irmãs _ conta Karine, que é jornalista e trabalha em uma agência de comunicação em Gramado.

Até o fim da tarde de sexta-feira, a vaquinha havia cumprido 14% da meta (R$ 1,4 mil). O prazo é 30 de abril.  

Na carreta, roupas lavadas e refeições

Carreta da igreja adventista serve refeições e lava as roupas das famílias do loteamento Santa Isabel, área mais prejudicada Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Na entrada do loteamento Santa Isabel, local onde a destruição foi mais intensa e deixou o maior número de desalojados em São Chico, desde o primeiro dia após a catástrofe uma carreta estacionada mantém as portas abertas para os flagelados. No interior, voluntários da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra) oferecem marmitas com café da manhã, almoço, café da tarde e janta aos moradores que perderam tudo. Equipados com máquina de lavar roupas industriais, eles também lavam até 20 quilos de roupa por família. 

Líder da missão religiosa, o pastor Rogério Silva, 31, explica que a carreta pertence à igreja e fica baseada em São Bernardo do Campo-SP. É destinada a municípios que por algum desastre natural ficam se água e luz e permanece até esses dois serviços serem restabelecidos. Se o missionário não encontrar uma família que o abrigue, dorme em um colchão na própria carreta. A equipe, em torno de 10 pessoas, deve ficar em São Chico até este domingo.

_ Oferecemos comida saudável, comprada de uma empresa conveniada do Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS), de Taquara. No primeiro dia oferecemos 2,6 mil refeições. Agora, como muita gente já voltou a trabalhar, estamos servindo entre 500 e 800 marmitas por dia _ explica Jonas Castilhos, 25. 

O voluntário Patrick Neves, 22, de Gramado, ajuda desde o primeiro dia a despeito de estar faltando ao trabalho na fábrica de móveis. Mas o jovem considera que fazer o bem ao próximo está em primeiro lugar.

_ Como cristão adventista, isso não tem preço para a minha vida espiritual. Estou faltando ao emprego, mas na volta vou apresentar um documento da igreja e não tenho receio de ser demitido. Esses dias serão descontados do meu salário, mas servir a Jesus está em primeiro lugar. Se Ele estivesse aqui, estaria fazendo a mesma coisa _ diz o jovem. 

Doações em dinheiro somam R$ 120 mil

A prefeitura de São Francisco de Paula e a Defesa Civil do Estado irão cadastrar na próxima semana, no sistema da Defesa Civil nacional, o plano de trabalho da reconstrução. Na sexta-feira, outro projeto foi entregue ao governo federal, solicitando a reposição de custos com a manutenção da ordem no município após o temporal _ como gastos com recolhimento de entulhos e abastecimento emergencial de água. A União aguarda pela documentação para liberar verbas para as obras. 

Nas contas bancárias criadas para arrecadar doações em espécie, até o fim da tarde de ontem haviam sido depositados pouco mais de R$ 120 mil. O governo do Estado também irá aportar recursos a partir do plano de trabalho, encaminhando demandas específicas para o orçamento de cada secretaria. Na sexta, foram encaminhadas para São Francisco 1,8 mil telhas 6mm. 

— Até aqui conseguimos fazer tudo muito rápido, algumas coisas até em tempo recorde, como a homologação do decreto de emergência em nível nacional em três dias. Há muitos municípios enviando ajuda para reformar casas com danos parciais, e já avançamos bastante. Para moradias que terão de ser refeitas totalmente, temos alguns projetos já elaborados e aguardamos pela liberação de recursos — afirma o sargento Cristiano Becker,  que representa a Defesa Civil Estadual em São Chico.

#AJUDASÃOCHICO

— A prioridade para São Francisco de Paula é a doação de materiais de construção, como telhas, vidros, tijolos e madeiras. Entregas podem ser feitas no Ginásio Municipal de Esportes de São Francisco de Paula (Rua Santos Dumont, 967 - Centro).
— Interessados em fazer doações de outras formas ou que têm dúvidas podem contatar o Corpo de Bombeiros, pelo fone (54) 3244-1299, ou o coordenador da Defesa Civil, Maurício Borges (54) 99968-6335.
— A prefeitura também está recebendo ajuda financeira. Foram disponibilizadas três contas:

Caixa Econômica Federal: agência 0507 , operação 006, conta 71002-0
Banco do Brasil: agência 0724-2, conta 5000-8
Banrisul: agência 0931, conta 040958460-1

As contas estão nos nomes de Doação Vendaval São Francisco de Paula - Prefeitura Municipal de São Francisco de Paula - CNPJ: 88.756.879/0001-47

 
 
 

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