Projeto da UCS convida moradores do Euzébio Beltrão de Queiróz, em Caxias do Sul, a refletir a própria comunidade - Cidades - Pioneiro

Cidadania19/11/2016 | 09h01Atualizada em 19/11/2016 | 09h01

Projeto da UCS convida moradores do Euzébio Beltrão de Queiróz, em Caxias do Sul, a refletir a própria comunidade

Uma das ações propõe a construção de uma maquete em que a população pode apontar aquilo que deve melhorar no bairro

Projeto da UCS convida moradores do Euzébio Beltrão de Queiróz, em Caxias do Sul, a refletir a própria comunidade Felipe Nyland/Agencia RBS
Diante de maquete do Beltrão de Queiróz, moradores apontam o que funciona e o que deve melhorar na vida do bairro Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Diagnósticos de uma comunidade convidada a olhar para si mesma. Assim é possível resumir a ação que estudantes ligados ao escritório modelo do curso de Arquitetura da UCS desenvolvem desde setembro no bairro Euzébio Beltrão de Queiróz, em Caxias do Sul. Semanalmente, o grupo promove oficinas em que crianças e adultos são convidados a olhar para a chamada Vila do Cemitério, através de desenhos ou de uma maquete onde situam suas  casas e demarcam seus locais preferidos e também pontos vulneráveis, que acreditam precisar de intervenção por serem mal iluminados ou inseguros. Além de aproximar da periferia futuros arquitetos, o projeto tem como objetivo apontar soluções para uma das localidades mais violentas e mais carentes de políticas públicas na cidade. 

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A cada quarta-feira, moradores se reúnem para contribuir com a construção da miniatura. A partir de pontos de referência como o Estádio Centenário e o Centro Cultural Beltrão de Queiróz — onde ocorrem os encontros — cada participante situou onde fica sua moradia, fixada em EVA (espécie de borracha) com o respectivo nome e uma foto da casa. No exercício mais recente, eles tinham à disposição alfinetes com cabeças coloridas, sendo que cada cor representava uma característica que pudesse ser encontrada nas ruas, como acúmulo de lixo, iluminação ruim e ponto de encontro, entre outros. Foi uma oportunidade para conhecerem melhor a própria realidade e a percepção da vizinhança:

— Falam que aqui há muita violência, mas há muitas coisas boas acontecendo. Está melhor de morar do que era antigamente. O que sinto falta é dos moradores se encontrarem mais e participarem mais da vida do bairro. As pessoas passam muito tempo fechadas em casa e às vezes se tornam depressivas por causa disso. Eu, por exemplo, espanto o mau humor cantando no coral da igreja duas vezes por semana — comenta a aposentada Maria Sebastiana, 62.

Aposentada Maria Sebastiana diz que hoje o bairro está bom de morar, mas cobra que os vizinhos participem mais Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Além da maquete, os acadêmicos também elaboraram uma linha do tempo com fotos antigas relacionadas a fatos marcantes para o Beltrão de Queiroz, que no futuro irão originar um jogo de memória, e fizeram uma reflexão sobre como o bairro era, como é, e como deve ser no futuro, através de um jogo de completar frases. Mas o que mais chamou a atenção da estudante Luiza Signori, 24, umas das idealizadoras, foi o mapa mental feito com crianças que traduziram em desenhos a forma como enxergavam o bairro.

— A maioria delas desenhou a sua casa apenas, nenhuma área de lazer. Percebemos que a relação delas com o bairro está muito ligada só à habitação. Isso pode ser um reflexo da falta de espaços para o convívio comum, como praças e parques. Também pedimos para que elas desenhassem o caminho que fazem de casa até a escola. E por não ter uma escola dentro do Beltrão, verificamos que elas se espalham por diversas áreas da cidade para estudar — destaca Luiza. 

Dezessete cursos envolvidos

As atividades que os futuros arquitetos desenvolvem no Beltrão de Queiróz não são isoladas. Fazem parte do programa de extensão Inovação Social e Sustentabilidade, gestado no pós-doutorado em Administração da professora Márcia Cruz, da UCS. O projeto surgiu da necessidade que a comunidade demonstrava de ter mais opções de lazer, especialmente para as crianças.

— Um dia eu estava voltando para casa e ouvi no rádio um pronunciamento de líderes do bairro na Tribuna Livre Câmara. Eles reclamavam que o centro cultural havia sido inaugurado em abril, mas estava sem utilidade, pois não havia atividades para oferecer. Ouvindo isso, tive a ideia de reunir alguns cursos da universidade para que pudéssemos vir pra cá e iniciar um programa de extensão.  Todos os coordenadores de curso se entusiasmaram com a ideia — comenta a professora. 

Previsto para durar um ano, atualmente o projeto conta com a parceria de 17 cursos de graduação da universidade, que se revezam na oferta das oficinas, palestras e demais atividades semanais. Estudantes de Nutrição, por exemplo, ministram palestras sobre o melhor aproveitamento dos alimentos; alunos de Música ensinam a fabricar instrumentos; futuros educadores físicos realizam atividades lúdicas que são as mais procuradas pelos adultos.  A cada semana, dois cursos se responsabilizam pelo trabalho.

— Os dois primeiros objetivos eram poder oferecer atividades para o bairro e derrubar o estigma de que alguns cursos como Arquitetura, Direito, Veterinária, não se aproximam da população. Mas outro que se revelou muito importante é a interdisciplinaridade para os acadêmicos. Aqueles que acompanham e passam a entender o que outras formações fazem serão profissionais diferentes — avalia Márcia. 

 
 
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