Padre Schiavo inspira roteiro pelo interior de Caxias do Sul - Cidades - Pioneiro

Turismo14/11/2016 | 10h01Atualizada em 14/11/2016 | 10h01

Padre Schiavo inspira roteiro pelo interior de Caxias do Sul

Caminho de 55 quilômetros passa por localidades onde religioso viveu e valoriza belezas e história da imigração

Padre Schiavo inspira roteiro pelo interior de Caxias do Sul Marcelo Casagrande/Agencia RBS
A intenção do projeto é fomentar o turismo religioso na cidade Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Qual a ligação entre a contadora aposentada Alzira Bettiato Zattera, 59 anos, o funcionário de crematório Ladinho Pagliarin, 68, e o comerciante Édimo Antunes Baú, 47? Por enquanto, nenhuma. Mas no futuro, os três, moradores de Conceição da Linha Feijó, São Virgílio da 6ª Légua e Fazenda Souza, podem estar ligados pelo roteiro turístico Caminho Padre João Schiavo, criado por meio da Lei 8.127, de setembro de 2016.

A intenção, conforme o vereador Gustavo Toigo (PDT), autor do projeto de lei que originou o roteiro, é fomentar o turismo religioso na cidade. Além de valorizar as belezas do interior do município, onde existem igrejas, capitais e imóveis datados do final dos anos 1800, a ideia é homenagear a trajetória do padre josefino cujo processo de beatificação e canonização está em análise no Vaticano desde 2003. Espera-se que o decreto de beatificação do padre Schiavo, cuja memória e fama de santidade são cultuados desde sua morte, em janeiro de 1967, seja publicado por ordem do Papa Francisco até o final do ano. Se tudo ocorrer conforme o previsto, em 2017 a cerimônia de beatificação se dará em Caxias, cidade onde o sacerdote atuou por 36 anos.

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O roteiro turístico, com cerca de 55 quilômetros de extensão e quatro trechos, começa na terra onde dona Alzira nasceu e criou os filhos: Conceição da Linha Feijó, pequena comunidade encravada entre morros nos arredores do bairro Desvio Rizzo. Foi lá que o padre Schiavo ajudou a fundar, em 1946, a Casa de Noviciado dos Josefinos, da qual foi diretor. O prédio de alvenaria onde funcionou a casa até meados da década de 1950 hoje não existe mais. Ele ficava bem em frente à capela de Nossa Senhora da Conceição, erguida em 1924. 

— Era um prédio muito bonito, tinha pinturas feitas pelos josefinos e uma horta lindíssima muito bem cuidada pelo irmão José. O campinho de futebol (que fica nos fundos da Escola Municipal Carlin Fabris e até hoje é usado pelos estudantes) é da época da casa de noviciado — recorda Alzira.

Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Sem manutenção, o imóvel caiu em ruínas e foi demolido. A criação do roteiro turístico, acredita a contadora aposentada, deve colaborar para que a pequena capela não tenha o mesmo destino no futuro. Até agora, é a própria comunidade quem se esforça para deixá-la pintada, limpa e receptiva aos visitantes. Faltam recursos, porém, para restaurar painéis originais pintados pelo padre Aleixo Suzin e que retratam passagens da vida de Nossa Senhora.

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A história como atrativo

Partindo de Conceição de Linha Feijó, o roteiro segue por estradas mistas, de asfalto, paralelepípedos e chão batido por entre morros, parreirais e muito verde. Na última quinta-feira, o Pioneiro percorreu todo o caminho. De carro, o trajeto é tranquilo, mas quem segui-lo a pé ou de bicicleta terá muito esforço pela frente. Até a parada seguinte, em São Marcos da Linha Feijó, há uma subida bem íngreme, que exige bastante preparo físico via Estrada Municipal 18.

Na pequena São Marcos, no finalzinho do bairro São Caetano, é possível avistar o aeroporto Hugo Cantergiani e parte da zona leste de Caxias do Sul. Por lá, há gente como Dirceu Rossato, 62, também torcendo para que o roteiro traga desenvolvimento: trabalhando na fabricação de vinho desde criança, ofício que herdou do pai e do avô, Marcelino, ele mantém uma pequena cantina familiar onde preserva belos prédios de pedra erguidos no final dos anos 1800 quando a família emigrou de Valdagno, região do Vêneto. A imagem dos prédios, por exemplo, está impressa nos rótulos das garrafas e garrafões de vinho. Além do casarão, Dirceu preserva ainda documentos e fotografias antigas que contam boa parte dessa rica trajetória, como cartas originais enviadas pelo tio-avô, Paolo, aos familiares que ficaram na Europa.

Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Valorização das belezas do interior 

A primeira rota tem como destino final a comunidade de Galópolis, acessada através da Estrada do Imigrante e Rua José Bolfe. A localidade foi a segunda parada do padre João Schiavo após a chegada a Caxias do Sul, em novembro de 1931. Por lá, conforme recorda o padre Cornélio Dall'Alba, 81 anos, Schiavo foi pároco da igreja local e atuou também como diretor do Colégio Irmãos Chaves, fundado e mantido pelo Lanifício São Pedro, a tecelagem mais antiga e de maior expressão da zona colonial italiana.

A passagem de Schiavo foi relativamente rápida por Galópolis: cerca de dois anos. De lá, ele e os padres josefinos retornaram a Ana Rech, o ponto de origem do trabalho sacerdote em Caxias do Sul. De Galópolis, a Rota 2 do roteiro prossegue até a localidade de Nossa Senhora de Caravaggio, já na região de São Luiz da 6ª Légua. É um dos trechos mais difíceis do caminho. A subida da estrada Ângelo Basso é estreita, muito íngreme e as paisagens deixam de lado parreirais e propriedades rurais para dar lugar a bairros de Caxias. Com base em uma mapa que integra a nova lei (ainda não há sinalização indicativa do roteiro), a reportagem acabou saindo no bairro São Vitor Cohab e precisou acessar também ruas movimentadas do Bela Vista antes de seguir caminho até a comunidade de São Virgílio da 6ª Légua. 

Entre as sugestões de visita estão a bela igreja São Virgílio e seu campanário de pedra basalto, localizada em frente ao Crematório Formolo. Em uma ruazinha lateral, em busca de informações, o Pioneiro encontrou seu Ladinho Pagliarin. Pedreiro aposentado e funcionário do crematório vizinho, nascido em criado em São Virgílio, ele também torce pelo desenvolvimento do roteiro, não apenas para movimentar a comunidade com o surgimento de novos estabelecimentos comerciais e trazer visitantes à igreja que ajuda a cuidar, mas também para melhorar as condições das estradinhas que ligam São Virgílio a outras localidades do interior.

A próxima parada da reportagem após a descida do morro, passando pela Estação de Tratamento de Efluentes Pena Branca, loteamento Portinari, nos fundos do bairro Cruzeiro, foi na capelinha de São Valentin, que recebia reparos. No telhado do templo, Juares Perucchin, 49, e colegas substituíam as telhas de barro, originais de 1919 (data descoberta por eles durante as obras).

Da direção da escola à fundação das Murialdinas 

A segunda rota passa ainda por São Braz, já na região de Ana Rech, onde sugere-se visita ao Museu São Braz, fundado pela família do agricultor Ronei Bacchi Scopel. O acervo, reunido pela mãe dele, Silena, já falecida, é composto por cerca de mil peças, entre vestuário, ferramentas, máquinas e itens trazidos pelos imigrantes italianos. A visitação é gratuita e agendada (pelos telefones 3207.5117 e 99969.1344). Como a família mora na vizinhança, turistas de passagens também são recebidos esporadicamente.

A terceira rota do Caminho Padre Schiavo se inicia no bairro de Ana Rech, que recebeu o padre assim que ele chegou de Jaguarão, vindo da Itália. A comunidade, aliás, foi berço do trabalho dos josefinos na educação de crianças e jovens e também na formação de seminaristas e noviços. Em setembro de 1937, Schiavo retornou a Ana Rech e assumiu a direção do Colégio Murialdo e a coordenação da vice-província do Brasil. Em Ana Rech, conforme biografia escrita pelo padre Orides Ballardin, Schiavo reencontrou seu irmão Hermenegildo, que também era padre e havia vindo anos antes da Itália para o Brasil em missão da igreja. O último percurso do caminho liga Ana Rech ao distrito de Fazenda Souza, onde João Schiavo ajudou a criar o Seminário Menor, em 1940. 

Foi lá também que o sacerdote ajudou a implantar, em 1954, o primeiro grupo das Irmãs Murialdinas de São José no Brasil. Em 1957, a Escola Santa Maria Goretti das Irmãs Murialdinas, onde atuou como diretor e professor. Em fevereiro de 1956 deixou o cargo de Superior Provincial, mas continuou prestando serviço à sua Congregação e dedicando-se às Irmãs Murialdinas. Padre João Schiavo, cuja saúde há tempo estava debilitada, adoeceu gravemente no final de novembro de 1966 e faleceu dia 27 de janeiro de 1967, com fama de santo. Desde sua morte, o distrito virou ponto de peregrinação. Por sua intercessão são atribuídas muitas graças e a fama de santidade entende-se até mesmo para fora do Brasil, com relatos de graças alcançadas na Argentina e Equador. 

O caso mais conhecido, aliás, integra o processo de beatificação: a cura do aposentado Juvelino Cara, que sofreu uma trombose mesentérica venosa aguda, envolvendo todo o intestino delgado, em 1997. Após atenta observação, averiguação e avaliação, foi tomada a decisão de desistir da cirurgia, fechar o abdômen e encaminhar o paciente à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para ser acompanhado até à iminente morte. 

Vindo de São José do Ouro, na divisa com Santa Catarina, o comerciante Édimo Antunes Baú estabeleceu-se em Fazenda Souza há mais de 20 anos e, nesse tempo, pôde acompanhar a peregrinação de fiéis e o próprio crescimento da fé do distrito. Há cerca de um ano, abriu uma cafeteria e uma livraria em frente da igreja matriz.

 
 
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