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Saúde01/08/2016 | 08h03Atualizada em 01/08/2016 | 16h25

Iniciativa de estudante devolve autoestima às mães da UTI Neonatal, em Caxias

"Descortinando a UTI Neo" tem ensaio newborn com prematuros e resultará em cartilha com instruções para famílias que lidam com os dramas do nascimento antes do tempo

Iniciativa de estudante devolve autoestima às mães da UTI Neonatal, em Caxias Felipe Nyland/Agencia RBS
Heloá dá colo ao pequeno Antony, nascido na 29ª semana de gestação (7 meses e 1 semana). Cada dia é uma conquista  Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Lidar com uma realidade que se apresenta bem diferente ao que foi idealizado é um aprendizado difícil para mães que têm de interromper a gestação e dar à luz um bebê prematuro. Os primeiros dias de acompanhamento dos frágeis recém-nascidos costumam ser dias de desânimo e autoestima baixa, em que a mulher não se permite sentir, de fato, a verdadeira emoção de ser mãe. Convivendo com situações dramáticas no dia a dia da UTI Neonatal do Hospital Pompéia, a estagiária de psicologia Josiane Soares, 24 anos, desenvolveu o projeto "Descortinando a UTI Neonatal", que intenciona devolver a mães de prematuros a verdadeira felicidade de criar uma vida. 

Descortinar é uma metáfora para abrir o olhar e passar a encarar a UTI sem o receio sugerido pelo ambiente hospital, conforme explica Josiane. O projeto irá compilar uma série de informações que as equipes de enfermagem e psicologia consideram fundamentais para as famílias, e publicá-las em uma cartilha. São informações costumeiramente transmitidas de forma oral, mas que pais e mães não absorvem por conta do nervosismo. 

— Muitas mulheres atendidas na UTI Neo nos falam do sofrimento que é ser mãe e não levar o filho pra casa, mas ter de acompanhá-lo em um ambiente extremamente técnico e cheio de aparelhos. Isso gera um erro de comunicação, como se a forma de cuidar fosse agressiva ao bebê. O projeto vem para apresentar o lado humano desse cuidado e da acolhida, de como a nossa equipe e a família podem se relacionar melhor — explica a estudante. 

Outra intenção do "Descortinando" é resgatar a autoestima a mulheres que se veem fragilizadas diante da maternidade que inicia de forma inesperada. A forma encontrada para devolver o brilho ao olhar destas mães foi uma sessão de fotos newborn , tipo de ensaio bastante popular em que pais posam para as lentes com seus bebês, às vezes caracterizados como personagens do imaginário infantil. 

Equipe de enfermeiras e psicólogas da UTI Neonatal do Pompéia, com a fotógrafa Gi Franceschet (E) Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

— Às vezes a mãe tem todo um cuidado com o bebê e esquece da vaidade dela. Entra na UTI cabisbaixa, não se arruma. Ela está ali em um vazio de atitude. "Esse filho é meu? Sou mãe, não sou?. No dia das fotos, ver o sorriso dela, com escova feita nos cabelos, foi muito bonito. Elas finalmente se apropriaram do seu papel de mães — comenta  Josiane.

As fotos newborn irão ilustrar a cartilha do projeto, cuja tiragem de 500 exemplares já está patrocinada e deve ser publicada nos próximos meses, dependendo ainda do aval do conteúdo pela chefe da UTI Neonatal, que está de férias.

'Cada gesto dele me emociona', diz a mãe

Antony Miguel nasceu no dia 11 de junho, quando a gestação de Heloá Santos Degasperi estava na 29ª semana (ou 7 meses e uma semana). A notícia de que a gravidez seria interrompida foi um susto que Heloá teve apenas um dia para se preparar. 

— Fiz a ecografia numa sexta-feira, e a doutora me chamou no consultório pra dizer que a gente teria de tirar o bebê no dia seguinte, por causa de uma obstrução no cordão umbilical, senão ele não ia resistir. Chorei muito, foi bastante complicado. Não é uma notícia que uma mãe espera receber _ conta. 

Na UTI Neo do Pompéia, Heloá acompanha diariamente o desenvolvimento do seu primeiro filho em uma incubadora (aparelho que simula a barriga da mãe para o bebê), das 9h até o início da noite. Para a amazonense de 25 anos, que mora em Caxias do Sul, cada movimento do pequeno bebê é uma emoção que só ela sabe o tamanho:

— Tudo o que a gente passa aqui dentro é muito diferente do que as mães que têm o bebê no tempo normal passam. Ao mesmo tempo que é complicado, a cada dia a gente vê que está progredindo. Chego já com aquela ansiedade de esperar uma coisa melhor. Cada gesto dele me emociona _ diz Heloá.

Heloá foi uma das mães fotografadas com o filho na sessão newborn que irá ilustrar a cartilha do projeto Descortinando a UTI Neo. Para ela, foi um dia tão diferente quanto inesquecível:

_ É muito emocionante, foi uma sensação indescritível. Tão boa que, quando o Antony e eu sairmos daqui, quero fazer outro ensaio. 

Fragilidade esconde a força de viver

Priscila, nascida com 34 semanas, em Canela, foi um dos bebês que receberam o ensaio newborn que irá ilustrar cartilha Foto: Gi Franceschetti / Divulgação

Mesmo tendo na fotografia de recém nascidos uma parte reconhecida do seu trabalho, a fotógrafa de Farroupilha Gi Franceschet, 25, reagiu com desconfiança ao ser convidada para clicar os bebês da UTI Neonatal do Pompéia em um ensaio newborn. Afinal, até que ponto é possível manusear seres tão frágeis? 

_ Fiquei com receio, porque era algo totalmente novo fazer uma sessão com recém-nascidos em uma UTI, com crianças que estão em situação de vulnerabilidade. Mas conversando melhor com a equipe do hospital, vi que havia a possibilidade e seria tranquilo. Fizemos com toda a segurança _ conta.

Enquanto fotografava os três bebês, Gi segurava o choro diante de cenas de tanta beleza e amor pela vida.  Mas confessa que desabou em lágrimas quando se viu sozinha:

_ Quando cheguei em casa, chorei. Porque sou mãe, e me coloquei no lugar das mães que estavam ali e não poderiam levar seus filhos pra casa. Quis fazer parte desse projeto para ajudar a trazer conforto para essas mulheres e um novo olhar para a UTI Neonatal.

 
 
 

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