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Abaixo o preconceito16/05/2014 | 10h53

Senegaleses e haitianos estão inseridos na comunidade de Caxias do Sul

Eles ocupam postos de trabalho, demonstram gentileza e não se envolvem em ocorrências policiais

Senegaleses e haitianos estão inseridos na comunidade de Caxias do Sul Diogo Sallaberry/Agencia RBS
O professor Leonardo Corrêa (de camisa azul) orgulha-se de ensinar aos seus alunos senegaleses a Língua Portuguesa Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS
Fabiano Finco
Ninguém lhes disse que seria fácil deixar o país natal, se distanciar da família, se afastar das bases religiosas. Deparar com novos hábitos e novas culturas. Lidar com o preconceito. Mas os haitianos e senegaleses que chegam aos montes na cidade, vista por eles como um porto seguro de trabalho e renda, têm conseguido ignorar a cara feia dos preconceituosos e conquistar seu lugar na comunidade.

>> Confira uma galeria de fotos de haitianos e senegaleses e seus amigos caxienses

Nos últimos meses, o cenário urbano de Caxias tem se modificado com a presença dos migrantes. A sós ou em grupos, é comum avistá-los na área central, vendendo produtos de procedência duvidosa. A maioria está empregada, principalmente em metalúrgicas e frigoríficos da cidade, e nas horas vagas vende relógios, pulseiras e peças de decoração. A conquista do espaço no mercado de trabalho local é uma matemática fácil de entender: eles precisam de dinheiro para enviar às suas famílias, que permaneceram no país de origem, e por isso se dedicam com afinco, são assíduos ao trabalho e não geram rotatividade nas empresas. Acabam provocando até certo desconforto para alguns colegas por serem tão disciplinados em suas funções.

A "ficha limpa" conta muito no momento da contratação. Não há em Caxias registros de ocorrências policiais envolvendo os migrantes, a não ser como vítimas de atos de preconceito e injúria ou relacionadas ao comércio informal de produtos sem procedência. Nestes casos, a Guarda Municipal atua na apreensão dos produtos, em conjunto com a Secretaria Municipal de Urbanismo (SMU). Tanto a Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec) quanto a 2ª Delegacia de Polícia de Pronto-Atendimento (2ª DPPA) não registraram ocorrências criminais envolvendo esses estrangeiros como protagonistas, a não ser como vítimas. O delegado Joigler Paduano diz que há migrantes reclamando que sofreram ameaça e injúria, mas são casos raros no cotidiano do plantão policial. O titular da Defrec, Mario Mombach, atesta o perfil pacífico deles e desconhece qualquer caso em que estejam envolvidos com tráfico ou roubo, por exemplo. A Polícia Federal (PF), que controla e fiscaliza a entrada de migrantes no Brasil, não registrou casos de irregularidades ou falsificação de documentos.

O perfil pacífico dessa turma se deve a sua cultura e religiosidade. Os senegaleses são muçulmanos, seguem dogmas e preceitos bem radicais, ou ao menos muito diferentes dos costumes locais. Eles não tomam bebidas alcoólicas, por exemplo, e precisam ter comportamento exemplar em público. Os haitianos geralmente são cristãos, católicos ou evangélicos, procuram mostrar disciplina. Por isso os migrantes foram apadrinhados por muitos caxienses, que os ajudam com alfabetização, encaminhamento de documentos, procura por emprego e doação de roupas e móveis.

O biólogo e professor de Educação de Jovens e Adultos (EJA) Leonardo Corrêa, 32 anos, aprendeu francês, a língua oficial dos senegaleses, e atualmente desvenda um dicionário em wolof, o dialeto falado pela maioria que migrou para o Brasil. Há dois anos, apadrinhou dezenas de migrantes para lhes ensinar o português, trabalho que realiza na Escola e no Centro de Atendimento ao Migrante, no bairro Desvio Rizzo. Se tornou uma referência entre os senegaleses, um tradutor "oficial" da turma.

_ Está sendo uma experiência muito enriquecedora trabalhar com eles. Eles demonstram muita união e determinação _ destaca o professor, que coordenou um grupo de senegaleses no desfile da Festa da Uva deste ano.

Ousseynon Aw, 23, o irmão Ameth Aw, 28, e Dame Ndiaye, 50, estão entre os alunos de Corrêa. Eles montaram o TamTam Africa, grupo que recentemente se apresentou no Festival Brasileiro de Música de Rua, em Caxias, e que está em busca de novas oportunidades. Ndiaye, por exemplo, tem a música na voz e no corpo. Ganhava a vida como artista no Senegal, e trouxe sua musicalidade junto. Se emociona ao explicar os ritmos africanos. O trio está à espera de convites.

Outro artista aluno de Côrrea é Ousmane Mathurin Ndiay, 38, que pinta quadros e os vende na área central da cidade. Seu talento é eclético. Algumas obras mostram motivos africanos, outras, símbolos de times de futebol como Inter e Grêmio.

_ Estou vendendo bem, o pessoal gosta _ comemora.
 
 
 

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