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Migração17/05/2014 | 09h02

Professora da UCS fala do fenômeno migratório de haitianos e senegaleses em Caxias

Vania Herédia afirma que Caxias é uma cidade de migrações contínuas

Professora da UCS fala do fenômeno migratório de haitianos e senegaleses em Caxias Daniela Schiavo/divulgação
Vania Herédia coordena pesquisa sobre Migrações Internacionais no Rio Grande do Sul Foto: Daniela Schiavo / divulgação
Fabiano Finco
A professora do Centro de Ciências Humanas da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Vania Herédia, coordena a pesquisa Migrações Internacionais no Sul do Brasil, e fala na entrevista a seguir que Caxias é uma cidade de migrações contínuas, e que os senegaleses e haitianos não pretendem interferir na cultura e hábitos locais.

>> Senegaleses e haitianos estão inseridos na comunidade de Caxias do Sul

Pioneiro: Caxias do Sul, a exemplo de outras grandes cidades, percebe a presença de cada vez mais haitianos e senegaleses nas ruas. O cenário urbano chegou a se modificar. Para uma cidade considerada conservadora em seus costumes, como a senhora acha que Caxias vai lidar com esse fenômeno?

Vania Herédia:
Caxias é uma cidade de migrações contínuas. O caxiense sempre aceitou as migrações à medida que necessitava de mão de obra para o seu crescimento econômico. Não foi diferente nos primeiros ciclos migratórios, no começo do século 20, quando recebeu migrantes de localidades próximas, ou mesmo de seus distritos rurais. Esses, "considerados iguais", não ameaçavam a ideia da colônia próspera e eram úteis ao seu crescimento. Em décadas posteriores, esses migrantes já não eram mais descendentes de europeus e vinham de outras localidades, com outras culturas, aceitando o modo de vida e querendo também se integrar na prosperidade da cidade que oferecia trabalho e oportunidades. Nas últimas décadas, as migrações tiveram outras características. Não eram mais apenas migrações rurais, eram migrações urbanas, "laborais". Nessa fase, esses migrantes já demonstravam traços culturais distintos, como o caso dos fronteiriços, e depois dos nordestinos e populações do Norte do país, e mesmo pequenas parcelas de migrações da América Latina. No final da última década, começaram migrações internacionais com características culturais distintas que tocaram no conservadorismo de muitos, preocupados com a manutenção de um "status quo" que esses migrantes não tem intenção alguma de interferir.

Pioneiro: Enquanto algumas pessoas escancaram demonstrações de preconceito, seja através de comentários ou ofensas, outras oferecem ajuda, facilitando aos migrantes acesso à moradias e emprego. Na sua opinião, essa balança pende mais para qual lado? Há mais gente contra ou a favor desses estrangeiros?

Vania:
Para responder essa questão é necessário fazer uma pesquisa social. As ambiguidades e os antagonismos presentes nos estudos migratórios são frequentes e dependem do lugar do observador do fenômeno. Aqueles que interessa a mão de obra migrante são favoráveis, aqueles que se sentem ameaçados por algum motivo particular possuem posições contrárias e dificuldades de olhar para a alteridade. Associado a esses medos de perdas, ainda aparecem os preconceitos, as dificuldades de aceitar novas realidades, característica frequente de sociedades conservadoras.

Pioneiro: O imigrante italiano, que predomina na região, é preconceituoso por natureza, e já nos antepassados tratava os negros com desdém. O fenômeno que se observa hoje diante de haitianos e senegaleses é o resultado dessa cultura?

Vania:
A região de colonização europeia no Nordeste do Estado teve uma série de benefícios por parte do governo imperial no final do século 19 para quem era branco. A Lei de Terras, promulgada em 1850, permitia o acesso à terra pela compra, mas no país ainda vigorava a escravidão. O negro foi excluído duplamente da inserção social, ou seja, não podia comprar terras e em alguns estados, pela política de colonização, não podia trabalhar nelas. Essas condições impediram o acesso a propriedade privada e ao mesmo tempo os negros acabaram distantes dos colonos. Essa realidade não ocorria na Itália, onde muitos eram servos, e tinham experiências dolorosas do trabalho servil. Então, falar de preconceitos, dependendo do período histórico, é esquecer as condições históricas que muitos tiveram e o benefício que muitos receberam para se tornarem proprietários o que lhes dava acesso a uma nova condição social, diferente da do país de origem.

Pioneiro: As demonstrações de preconceito partem de pessoas mais velhas? Os jovens já teriam outra visão dessa relação inter-racial ou seguem os mesmos preceitos? Estamos evoluindo nesse quesito?

Vania:
Os preconceitos não têm idade, porque muitas vezes os jovens repetem as posições que apreenderam de seus pais, valores postulados pelas instituições que convivem, ou seja, na família, na escola, nas relações de convivência, nas relações de grupos que se identificam. Talvez os mais idosos tivessem mais preconceitos porque muitos foram excluídos dos sistemas de educação formal e suas reações provinham mais da própria convivência social, da falta de informações. Mas hoje, mesmo aqueles que passam pela educação formal não demonstram posições mais abertas, mais humanistas, já que a educação continua sendo conservadora. Vemos as dificuldades que os jovens têm de aceitar as diferenças sociais, de aceitar o outro, que é diferente dele mesmo. Então, passar pela escola não garante a eliminação dos preconceitos, que infelizmente se reproduzem historicamente entre as gerações.

Pioneiro: A polícia não tem relatos de ocorrências envolvendo senegaleses e haitianos, a não ser como vítimas. Esses migrantes seguem preceitos religiosos muito rigorosos, e muito por isso não se envolvem em confusão. Até que ponto esses migrantes, diante do modelo de educação que encontram aqui em Caxias, bem como o cenário de violência gratuita instalado na cidade, podem ser influenciados negativamente e optarem pela vida criminosa?

Vania:
Não acredito nesse tipo de raciocínio. A formação do indivíduo e os valores culturais que carregam ajudam as pessoas na definição de suas escolhas pessoais e profissionais. Os migrantes têm muito mais atenção com as regras do que aqueles que as transgridem porque se sentem próprios do local. Não é possível julgar as pessoas pela cultura do país, ou do Estado, ou da cidade. O modelo de educação que vigora em Caxias do Sul não é diferente de outras sociedades que valorizam excessivamente os valores materiais em detrimento de valores culturais, envolvendo inclusive aspectos religiosos. O cenário da violência instalado na cidade reflete a violência instalada na sociedade, onde por pouco, ou quase nada, indivíduos matam indivíduos e roubam seus pertences. Mesmo assim, a sociedade se posiciona contra programas sociais que poderiam minimizar esses conflitos que nascem de estruturas antigas e desiguais, consolidadas por um sistema econômico dominante em que o valor encontra-se predominantemente nas condições materiais. As contradições do sistema refletem a violência do mesmo. A violência pode influenciar qualquer indivíduo que se sinta discriminado por ela mesma. Caxias é uma cidade de migrantes historicamente, e não é por esse motivo que muitos optaram pela vida criminosa.
 
 
 

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