"Temos uns 250, 300 candidatos para quatro vagas", conta o médico Mário Fedrizzi sobre a disputa na residência no Hospital Pompéia, em Caxias - Cidades - Pioneiro

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Concurso02/08/2013 | 20h51

"Temos uns 250, 300 candidatos para quatro vagas", conta o médico Mário Fedrizzi sobre a disputa na residência no Hospital Pompéia, em Caxias

Especialista criou a residência em cirurgia geral na instituição

"Temos uns 250, 300 candidatos para quatro vagas", conta o médico Mário Fedrizzi sobre a disputa na residência no Hospital Pompéia, em Caxias Roni Rigon/Agencia RBS
Médico chegou ao Hospital Pompéia em janeiro de 1985 Foto: Roni Rigon / Agencia RBS
Recém saído de uma residência em cirurgia geral no Hospital Conceição, em Porto Alegre, o caxiense Mario Antônio Fedrizzi, 55 anos, chegou ao Hospital Pompéia em janeiro de 1985. Como ele mesmo diz, "louco para trabalhar, louco para fazer plantão".

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Desde os primeiros anos de profissão, Fedrizzi mergulhou fundo na especialidade, chegando a enfrentar dois ou três dias seguidos de plantões. 

— Havia dias que operávamos um paciente atrás do outro, sem parar. E não fui o único. Outros colegas que trabalharam juntos também passaram por dias assim. Entrávamos na sexta-feira e só saíamos na segunda-feira de tarde — recorda.

A carência de profissionais da especialidade foi o pontapé que faltava para que Fedrizzi tomasse para si uma missão: criar uma residência em cirurgia geral no Hospital Pompéia. E foi assim, num dia que ele recorda como caótico, que o projeto começou a ser arquitetado e ganhou a simpatia da direção clínica e da superintendência da casa.

Em 29 anos, o Pompéia tornou-se referência em várias especialidades, como traumatologia e ortopedia, neurocirurgia, radiologia, nefrologia, cardiologia, clínica médica, medicina intensiva, transplante renal e, é claro, cirurgia geral.

Além de capitanear a criação do programa de residência no hospital no início da década de 1990, Fedrizzi segue hoje como preceptor (professor) da cirurgia geral e foi escolhido como chefe da preceptoria na Comissão de Residência Médica (Coreme). Desde janeiro de 2012, também é diretor técnico do Pompéia.

Confira a seguir trechos da entrevista dada por ele ao Pioneiro, na qual recorda um pouco da carreira e da criação da residência médica no hospital.

A ideia
Comecei a trabalhar no Pompéia no dia 7 de janeiro de 1985. Me apresentei ao diretor clínico da época (Alexandre Baldisseroto), como cirurgião. E o hospital estava precisando de profissionais. Os médicos que ficavam de sobreaviso já estavam cansados, e eu estava louco para fazer plantões, recém saído da residência. De 1985 a 1993, eu atendia como cirurgião e, como todos os outros, operava sozinho. Eu e uma auxiliar de enfermagem, na verdade. Não existiam técnicos na época. O auxiliar era alguém que se oferecia para ir para o bloco e fazia um treinamento de instrumentação. Nós atendíamos o que vinha pela frente, com a auxiliar de enfermagem, que era a instrumentadora, e, dependendo da situação, entrava outra. Em 1988, passamos a contar também com acadêmicos do curso de Medicina voluntários. Quando acontecia qualquer coisa, a gente ligava e eles iam até o hospital. Isso foi até setembro de 1993. Aí, num determinado mês daquele ano, ficamos uma noite inteira operando, atendendo esfaqueados, baleados, todo tipo de paciente. E a coisa foi impossível. Aquilo acabou comigo, acabou com os acadêmicos, acabou com todo mundo. Estava todo mundo muito cansado. Então, fui falar com o doutor Leovegildo Friggeri, diretor clínico do hospital na época. Encontrei -o no Pompéia e disse: "olha, assim não dá mais. Do jeito que está, vamos morrer nós dentro do bloco cirúrgico, de cansaço." Nós éramos em três ou quatro que faziam plantão: eu, o (Ademir Antônio Cadore, o (Antônio Brito) Casanova e o Alexandre Gobbato. Naquele dia fatídico, acho que operei uns sete ou oito pacientes. Naquela época, era comum a gente entrar sexta-feira e sair só na segunda-feira de tarde do hospital, ficar três dias sem dormir, sem descansar direito.

O início da residência
O Leovegildo me perguntou o que eu achava que deveria se fazer. Como eu vinha de uma residência que tinha exatamente o mesmo tipo de paciente que atendíamos no Pompéia, eu disse: "quem sabe a gente abre uma residência no hospital? Nós temos tudo aqui, temos estrutura, tem médicos dispostos a ensinar, o hospital precisa, a população precisa, somos em poucos. Se tivermos residentes, vamos ter gente que nos auxilia e depois vamos criar massa crítica para continuar atendendo. Chega uma hora que a gente vai acabar cansando e, no meio daqueles que nós treinarmos, alguém vai ficar aqui", argumentei a ele. O Leovegildo comprou a ideia e levou para o administrador, que na época já era o Francisco Ferrer. Ele imediatamente concordou. Chamamos o doutor Ricardo Santos, que entendia bastante de burocracia de residência, e eu entendia de ensino de residentes, de convivência com alunos. Então decidirmos por abrir uma residência de cirurgia geral. E a nossa primeira residência começou, então, em janeiro de 1994.

Os primeiros alunos
Fizemos uma entrevista bem dura. Colocamos os cirurgiões da época, mais um representante da administração e a psicóloga do hospital para fazer a entrevista. Como o Pompéia é um hospital de emergência, de pronto-socorro, não pode ser qualquer candidato. Não dava para selecionar alguém que chegasse lá e se assustasse com o primeiro sangue, com o primeiro quebrado que chegasse. Essa banca queria ver quem descompensava na nossa frente. Eles fizeram a prova da Amrigs, uma prova do hospital escrita e entrevista teórico-prática. Daí, saíram os primeiros residentes, que foram a Saly Kisch e o Luciano Santos. Ele foi convocado pelo Exército e, como já havia sido aprovado, a vaga ficou reservada para ele e nós chamamos a terceira pessoa, a Luisa Toss.

O tabu
Pra começo de conversa, naquele início de 1994, os cirurgiões de um modo geral não acreditavam muito em cirurgiãs. Existia um tabu de que médica cirurgiã não era boa. Mas com o passar do tempo, elas fizeram com que mudássemos de ideia. Tanto que hoje temos várias profissionais excelentes que eu permitiria que me operassem ou que operassem alguém da minha família tranquilamente. A Saly e a Luisa mostraram para a gente que estávamos errados.

Percalços no caminho
O início foi um pouco complicado, era difícil para as pessoas que trabalhavam há bastante tempo lá dentro receber pedidos de gente muito mais nova, recém-chegada. Mas quando todos começaram a entender que aqueles médicos, mesmo muito jovens, estavam lá para melhorar o serviço, melhorar o atendimento, a coisa começou a funcionar. Já no final do primeiro ano, a estrutura hospitalar já estava se acostumando a funcionar com os residentes. E daí para diante, a coisa só funcionou. No ano seguinte, entrou o Luciano Santos (atual coordenador da residência de cirugia geral) e o Fausto Finger. Também fomos um pouco criticados no início, porque alguns cirurgiões acreditavam que nós estaríamos criando concorrentes. Eu não concordo. Não criamos concorrentes, criamos descendentes. A concorrência quem faz somos nós mesmos. Se sou um bom profissional, a minha clínica se mantém. Não é porque surge outro médico que vou perder clientela.

A consolidação
Hoje, a residência do Hospital Pompéia é concorrida, vem gente de todo o Brasil e até de fora para fazer concurso com a gente. Teve candidatos da Bolívia, do norte do país... A residente que saiu em fevereiro veio de Brasília, e já tivemos gente do Pará. Quando abrimos a residência, somente candidatos que eram muito próximos daqui souberam e se candidataram. A grande maioria era de Caxias. Conforme os residentes foram se dando bem profissionalmente, a residência foi ficando famosa. A fama ficou tão boa que temos uma luta desvairada: temos uns 250, 300 candidatos para quatro vagas. De onde saiu isso? Do trabalho dos próprios residentes, com a nossa ajuda.

Futuro e vocação do hospital
A partir da metade do ano, também seremos referência para pacientes enfartados. O Pompéia está montando um serviço de cardiologia de Primeiro Mundo, para atender toda a emergência cardiológica da região. Já existe atendimento de urgência e emergência na área, mas estamos nos preparando para que este seja muito melhor. Para mim, hoje, o Hospital Pompéia é o HPS (Hospital de Pronto-Socorro, sediado em Porto Alegre) da nossa região. E tem de ser visto assim. Nos atendemos muitas cirurgias eletivas, mas atendemos todo o trauma, um que outro vai para o Geral ou um hospital particular. O Pompéia hoje é um grande hospital de urgências e emergências. Fazemos em torno de 1,2 mil cirurgias/mês, sendo que grande parte é de urgência e emergência. Desde as de pequena complexidade até as de alta complexidade, como neurocirurgia, de coluna, lesões vasculares graves, politraumatizados, tudo. Estamos no limite do esgotamento. Ou alguém faz algo pelo Pompéia, e pela população de um modo em geral, ou nós não teremos mais capacidade de atendimento.

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