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Italianos da Serra20/05/2015 | 03h51

A fome é o fio condutor da imigração italiana

Entre 1875 e 1915, 14 milhões de cidadãos deixaram a Itália

A fome é o fio condutor da imigração italiana Massimiliano Minocri / especial  /
A epopeia dos imigrantes que chegaram ao Brasil há 140 anos pouco lembra a visão romanceada das novelas Foto: Massimiliano Minocri / especial
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

O binômio fome-miséria foi determinante para o desenvolvimento de uma Itália fora da Itália, constituída a partir de um processo doloroso de partida sem volta e forjada com fragmentos identitários que ajudaram a dar sentido a uma vida nova na América prometida. A ideia de italianidade tal qual conhecemos hoje, com destaque para a bravura e o empreendedorismo, nasceu mais como renúncia do que acolhimento.

– A grande crise agrária europeia convenceu os imigrantes a darem um passo tão sensível quanto o abandono definitivo de seus locais de origem. Por alguns decênios, pelo menos no caso do Rio Grande do Sul, a mola principal à expatriação foi constituída pelo espectro da proletarização definitiva, do medo de perder o status de pequenos proprietários ou de locatários capazes de manter grandes famílias de agricultores – explica o historiador italiano Emilio Franzina, que tem estudos centrados, especialmente, no êxodo rural do norte italiano ao sul do Brasil.

– A pobreza absoluta é o grande móvel desse episódio chamado imigração italiana e ela está como uma referência para a memória coletiva – destaca a pesquisadora Cleodes Piazza Julio Ribeiro, descendente de Tommaso Radaelli, um dos três primeiros imigrantes que chegaram a Nova Milano em 20 de maio de 1875.

Não se tratava apenas da pobreza em si, mas também do medo da pobreza. A epopeia dos imigrantes que chegaram ao Brasil há 140 anos, completados hoje, pouco lembra a visão romanceada das novelas: depois de abandonar familiares e residências, com longos trajetos percorridos a pé e de trem da porta de casa até o Porto de Gênova, com filhos à tiracolo e pertences reunidos em baús de madeira e trouxas de pano, vênetos, trentinos e lombardos, especialmente, passaram a experimentar a noção de pertencimento a uma mesma identidade étnica.



Enquanto se afastavam do porto e guardavam na retina a imagem congelada do anfiteatro de Gênova – o porto em si, por causa da forma circular – precisaram a se adaptar, no confinamento, a um recorte do microcosmo italiano.

Poucos falavam o italiano, a língua oficial da Itália recém-unificada em 1870. No livro Memórias, o imigrante Júlio Lorenzoni relata que “em qualquer canto do vapor só se escutava um vozerio incompreensível de dialetos, a maior parte vênetos e lombardos, muitos dos quais não entendia absolutamente, de modo que permanecia admirado ouvindo  tantos vocábulos novos, procurando adivinhar-lhes o significado”.

O primeiro ensinamento foi justamente esse, de criação de uma identidade italiana comum e global, apesar das diferentes regiões de origens e costumes. O tal “somos todos italianos” começou a surgir na travessia, paralelamente à tristeza da partida, nas viagens com duração de 30, 40 dias. Os primeiros moradores de Nova Milano levaram três meses e oito dias para chegar ao Rio de Janeiro, num navio a vela.

– Meu avô contava que, dependendo da direção do vento, os marinheiros jogavam uma âncora e esperavam – relata Franco Radaelli, 86 anos, neto de Tommaso.

Mas o tempo arrastado e o tédio a bordo, com dias que se repetiam sem muita novidade, eram só um detalhe. Andrea Pozzobon, que se dedicou a escrever um diário, discorreu sobre assuntos mais sérios, como o arrependimento dos conterrâneos ao deixar a Itália: “se o farol de Gênova, com suas brilhantes chamas, pudesse falar, teria dito: voltai para trás, meus filhos; no estrangeiro não sereis mais italianos; quem perde a Itália, perde tudo”. Acrescentou: “bendito aquele que, embora na miséria, pode fechar os olhos a seus genitores e a si mesmo onde nasceu – onde foi batizado e onde, talvez, por centenas de anos seus ancestrais sepultados desejariam incluí-lo entre os membros de sua família”.

O imigrante Luigi Toniazzo, no relato Mio Viaggio in America, chora a perda do antigo país, ao mesmo tempo em que sonha com uma vida nova. Ao se referir à decisão de emigrar, compara o sentimento ao de um “inocente condenado à morte”.

E não foram poucos os núcleos familiares divididos na viagem transatlântica. Entre 1875 e 1915, 14 milhões de cidadãos deixaram a Itália rumo a países como Estados Unidos, Uruguai e Argentina. O número é impressionante, se considerarmos que, em 1900, a população italiana era de 33,5 milhões de habitantes, de acordo com o banco de dados I.Stat, do Instituto Nacional de Estatística da Itália.
 
 
 
 
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