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Elas e o esporte #308/10/2020 | 06h00Atualizada em 09/10/2020 | 19h01

Integrante da primeira torcida feminina do Juventude relembra: "objetivo era colaborar e ajudar o clube"

Edit Corso, da primeira ala feminina do Ju, e Fernanda Andreazza, representante do Comando Feminino da Mancha Verde, expõem vivências na arquibancada

Integrante da primeira torcida feminina do Juventude relembra: "objetivo era colaborar e ajudar o clube" Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

— Eu acho que torcer para o Ju faz bem ao coração e ser papo é uma paixão, é um destino que eu abracei. É uma herança que recebi do meu pai e transmito a todos os meus familiares.

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A fala é de Edit Corso, 80 anos, uma das integrantes da primeira ala — ou torcida — feminina do Juventude. Alviverde fiel, daquelas que não perde um jogo e exalta o orgulho na voz ao falar sobre o time do coração, ela conta que a torcida foi fundada em 21 de abril de 1948, por Abrelino Guedes e sua esposa, Aires.  

—  Inicialmente, era ala feminina Abrelino Guedes. Depois passou a ser Departamento Feminino do Esporte Clube Juventude. E atualmente chama-se Paixão Feminina. Eu entrei no clube a partir de 1958. A ala feminina já existia. E participo até hoje, porque eu continuo indo ao campo.

De acordo com as informações do historiador Francisco Michielin, no livro "Juventude, paixão e glória", antes mesmo da fundação, elas já acompanhavam o clube , faziam rifas, jantares e bailes para ajudar o time financeiramente. Em sua casa, Edit guarda inúmeras lembranças, objetos e presentes que simbolizam o amor em verde e branco.

— O objetivo da ala feminina era colaborar e ajudar o clube no trabalho, mas não era trabalho. Na verdade, era uma honra — relembra Edit, que complementa exemplificando algumas ações da torcida:

— A ala feminina se postava no portão do estádio e entregava para as pessoas que entravam uma fitinha que era colocada na lapela. Se fosse torcedor do Juventude, era verde. Na época, o forte era o Flamengo. Então, o vermelho era para os flamenguistas. Mas o que importava não era isso, eram as moedinhas que eles iam colocando na caixinha. E desta caixinha a ala feminina ajudou o clube, principalmente, no final da década de 1950/1960, quando ele enfrentava uma situação financeira nada boa. Então, a primeira instalação dos holofotes do estádio quem financiou foi a ala feminina. E também construiu a capela junto ao estádio. Fazíamos rifas, festas, bailes, participávamos dos desfiles do 7 de setembro.

Além da Paixão Feminina, atualmente, o Ju conta com um núcleo exclusivamente de gurias na sua torcida organizada: o Comando Feminino, da Mancha Verde. São cerca de 30 mulheres engajadas, que doam o seu tempo para apoiar o clube alviverde, nas boas e nas ruins. Fernanda Andreazza, 23 anos, faz parte desse grupo e entende que seja de suma importância a presença da mulher na arquibancada.

— A presença feminina nas arquibancadas é importante para confirmar a ideia de que não existe lugar de homem ou lugar de mulher, a arquibancada tem que ser vista como lugar democrático, onde todos são iguais. O amor pelo nosso time não é maior ou menor se os torcedores são homens ou mulheres. O canto da torcida não é mais ou menos entusiasmado, por uma questão de gênero. As nossas colegas de arquibancada levam seus filhos e já os ensinam, pelo exemplo, que mulher gosta de futebol sim, e que isso é absolutamente normal — destaca Fernanda.

Integrantes do Comando Feminino da Torcida Organizada Mancha Verde. <!-- NICAID(14587064) -->
Atualmente, as mulheres continuam tendo um espaço próprio: o Comando Feminino da Mancha VerdeFoto: Arquivo Pessoal / Fernanda Andreazza

O Comando Feminino foi formado em 1997, com o intuito de reunir meninas apaixonadas pelo Juventude. Durante esse período, a luta delas é para que haja um entendimento de que elas são torcedoras e querem ter voz na arquibancada.

— A arquibancada não deixa de ser um recorte da sociedade, né? A gente tem uma raiz patriarcal muito grande, que ainda entende que os homens são os senhores da razão. O que acontece no estádio é só um reflexo de tudo isso que se aprende em casa. Se em casa a gente ouve, desde pequena, que a mulher só pode ir onde o pai ou o marido deixa, provavelmente, a gente vai entender que isso é o correto. Agora, se desde sempre, meninos e meninas forem tratados como iguais, perante suas responsabilidades, essa liderança por tradição se quebra e com certeza isso terminaria de uma vez.

São 57 anos de diferença entre as duas, mas o amor pelo Juventude está na mesma sintonia e prova que o lugar delas é sim no estádio, na arquibancada, ao lado do time do coração e onde elas quiserem.

Confira alguns registros da primeira ala feminina do Ju: 

Ouça o especial da Gaúcha Serra:

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