Pouca representatividade e a luta contra o machismo: a realidade das árbitras no futebol brasileiro  - Esportes - Pioneiro

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Mulheres no apito25/05/2019 | 06h00Atualizada em 25/05/2019 | 06h00

Pouca representatividade e a luta contra o machismo: a realidade das árbitras no futebol brasileiro 

Moradora de Farroupilha foi a primeira árbitra Fifa do Estado e inspira as mais jovens

Pouca representatividade e a luta contra o machismo: a realidade das árbitras no futebol brasileiro  Anselmo Cunha/Agencia RBS
Ivani de Gregori é a primeira árbitra Fifa do Rio Grande do Sul Foto: Anselmo Cunha / Agencia RBS

— Me sinto tão bem voltando aos campos. Hoje passou um filme pela minha cabeça, de todas as minhas vivências, os sacrifícios e as dificuldades que passei naquela época. Sinto saudades daquele tempo.

A frase é de Ivani de Gregori, primeira árbitra Fifa do Rio Grande do Sul, logo após vestir o seu uniforme e voltar aos gramados depois de 19 anos. Ela foi responsável por desbravar um mercado que ainda hoje é restrito. O quadro da Federação Gaúcha de Futebol conta com 195 nomes, entre árbitros principais e assistentes (bandeirinhas). Desse total, sabe quantas representantes do sexo feminino? Apenas seis. E entre elas, apenas uma está apta a comandar uma partida, Andressa Hartmann. 

Se esse número demonstra o quão baixa é a representatividade feminina neste mercado, o que se pode imaginar de 30 anos atrás. Foi nessa época que Ivani iniciou a carreira, tendo que lidar com um preconceito enorme. Atualmente morando em Farroupilha, ela realizou o seu curso de arbitragem em Santa Maria, em 1985, com aulas práticas e teóricas durante os finais de semana. A turma já demonstrava o quão fechado era o quadro, afinal só outras duas mulheres eram suas colegas. Era preciso enfrentar uma sociedade machista e levar preocupações para dentro da sua própria casa.

— Meu pai e minha mãe não aceitavam. Eles ficaram decepcionados quando eu contei que queria seguir na área. Eu ouvi muito “imagina, uma mulher apitando futebol”. Mas com o tempo todo mundo começou a aceitar. Hoje, eu acho que o preconceito é menor, mas as mulheres ainda precisam de muita coragem para ingressar na área – considera Ivani.

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Persistência valeu a pena

 FARROUPILHA, RS, BRASIL - 17/05/2019 - Ivani De Gregori, primeira árbitra gaúcha que integrou o quadro FIFA. Pauta sobre representatividade feminina nos apitos do Rio Grande do Sul (FOTO: ANSELMO CUNHA/AGENCIA RBS)
Foto: Anselmo Cunha / Agencia RBS

Nada fez o sonho de Ivani acabar. Ela foi ainda mais longe. Quando completou 31 anos e dez de arbitragem, passou a integrar o quadro da federação internacional, a Fifa. A indicação para integrar o quadro da entidade máxima do futebol surgiu depois que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) solicitou a documentação de todos os árbitros gaúchos. Foi o reconhecimento de uma década de trabalho e com um detalhe, sem que Ivani soubesse da possibilidade. Ela foi avisada por e-mail:

— Na época, não esperava que fossem abrir o quadro feminino da Fifa. Quando entrei, havia só mais três mulheres entre os federados. Além de mim, uma paranaense, uma carioca e uma pernambucana. A realidade delas era bem diferente. A colega do Pernambuco tinha até apitado o clássico dos profissionais, a carioca também. Mas aqui no Estado, não tínhamos esse mesmo espaço.

A ex-árbitra morava em Porto Alegre enquanto integrou o quadro brasileiro e internacional, mas decidiu encerrar a carreira em 2000, quando casou com Edson Luís Tonin e iniciou sua carreira no Banrisul, o que a fez se mudar para a Serra Gaúcha. Quase 20 anos depois, já trabalhando como corretora de seguros, ela vê um novo cenário para as mulheres dentro da modalidade.

—  Agora já é mais aberto, as mulheres tem mais espaço. Mudou bastante. Acredito que não vá demorar muito para a arbitragem feminina se igualar com a masculina. As mulheres que têm interesse em seguir na área precisam acreditar que têm potencial para isso – defende Ivani.

Postura firme e força na batalha contra o machismo

O ex-árbitro e atual instrutor físico da CBF, Luis Carlos Boaro, foi o responsável pelo primeiro quadro de árbitras, em 1991. Segundo ele, o machismo era recorrente até na sede da Federação Gaúcha.

— Na época, os diretores da Federação não eram favoráveis de termos mulheres na arbitragem. Foi muito difícil, mas a gente conseguiu convencer aos poucos. Não é fácil ouvir o que elas ouvem, mesmo nos dias de hoje. Porém, antes não tinha nenhuma representatividade, agora elas estão chegando e, com isso, conquistando mais espaço – lembra Boaro.

O ambiente machista do futebol se mostrou na prática para Ivani em 1986. Ela apitava uma partida de várzea, num campo amador próximo de Santa Maria. Na hora de expulsar um jogador, acreditou que seria agredida.

— Lembro que uma vez fui expulsar um jogador e ele veio para cima, não aceitou a marcação. Os colegas interviram, mas foi um jogo marcante, porque fiquei assustada. Ele me olhava com raiva. Acredito que, por ser mulher, ele pensou que não tomaria uma atitude – conta Ivani, natural de São João do Polêsine.

Em jogos profissionais, a ex-árbitra também presenciou uma situação constrangedora, envolvendo um ex-vice presidente da FGF, à época presidente do Inter de Santa Maria:

— Terminamos o jogo (no Estádio Presidente Vargas) e o vice-presidente da FGF, que também era presidente do clube, disse que ia fechar o Inter-SM se mais uma vez mulheres estivessem lá atrapalhando o futebol. Lembro que ele proibiu a gente de apitar jogos lá.

Depois disso, o trio de árbitras responsável pela partida foi afastada pela federação e continuou apitando, mas adicionadas ao quadro da CBF.

Andressa Hartmann é única apta a arbitrar no RS

 Andressa Hartmann, a única árbitra apta pela FGF para apitar uma partida, ainda está iniciando sua caminhada. Recentemente, ela foi responsável por apitar um jogo do Estadual Juvenil: Inter-SM e Uruguaiana, pela primeira rodada do campeonato, no dia 1º de maio.Indexador: GABRIEL HAESBAERT
Andressa Hartmann é a única árbitra apta pela FGF para apitar uma partidaFoto: Arquivo pessoal / Divulgação

Mesmo sendo árbitra Fifa, Ivani nunca apitou partidas no Gauchão. Jogos envolvendo a dupla Gre-Nal, nos anos 90, apenas se fossem amistosos. A situação atual não é muito diferente. Andressa Hartmann, a única árbitra apta pela FGF para apitar uma partida, ainda está iniciando sua caminhada. Recentemente, ela foi responsável por apitar um jogo do Estadual Juvenil: Inter-SM e Uruguaiana, pela primeira rodada do campeonato, no dia 1º de maio.

— O jogo foi bom, bem tranquilo. Às vezes, como eles são mais novos, ficam nervosos e entram em conflito entre si. Mas foi bem tranquilo, nada fora do normal – explica Andressa, que é natural de São Paulo das Missões.

Em competições organizadas pela FGF, o único campeonato que tem apenas mulheres no apito é o Gauchão Feminino – que teve sua primeira edição em 2018. No entanto, ainda é um torneio que enfrenta inúmeras dificuldades. O motivo, segundo o ex-presidente da FGF, Francisco Noveletto, é a falta de condição financeira. Inclusive, em entrevista à GaúchaZH, o ex-mandatário pediu apoio ao Ministério dos Esportes e da Secretaria de Esportes para que a edição de 2019 tivesse maior amparo financeiro.

Andressa reitera o incentivo da federação para que mais mulheres ingressem na área:

– A federação está influenciando cada vez mais as mulheres a se inserirem no quadro de árbitras. Tem espaço. E nós precisamos de muitas representantes, principalmente agora que está tendo um incentivo maior ao futebol feminino. As vagas existem e estão abertas, só precisamos de mais mulheres interessadas.

Paranaense comandará partida pela Série A 

A partida entre CSA e Goiás, em Alagoas, na segunda-feira, representa um momento histórico para o futebol brasileiro. Após quase 14 anos, uma mulher voltará a apitar um jogo de futebol da Série A do Brasileirão. A paranaense Edina Alves Batista será a comandante da partida, auxiliada por Neuza Back e Emerson Augusto de Carvalho. 

O atual chefe de arbitragem da CBF, Leonardo Gaciba, reitera que não há distinção por parte do gênero na escolha dos trios.

— Eu faço uma análise muito pessoal, não por questão de gênero e sim por competência. Recentemente, na Série B, escalamos seis árbitros estreantes e todos foram muito bem. Entre eles, havia Edina Alves Batista, que assim como os outros fez um jogo muito bom, correspondendo às nossas expectativas – destaca o gaúcho, que reafirma a confiança nas mulheres no apito:

— A Edina era bandeira, abriu mão do escudo da Fifa, de árbitra internacional, porque tinha o sonho de ser árbitra central. Então, ela voltou às categorias de base, começou a apitar na base. Ela já conseguiu alcançar o quadro internacional como árbitra central e, hoje, está chegando na Série A. Para mim, ela é um exemplo para todo mundo.

Edina e as auxiliares Neuza Back e Tatiane Carvalho, que se recupera de lesão, vão ser as representantes do Brasil no Mundial feminino, que ocorre em junho, na França.

Para chegar ao mesmo nível das companheiras, a gaúcha Andressa Hartmann confia no seu potencial:

— Tenho planos para o futuro de atingir o quadro nacional. Acredito que esse seja o sonho de todos que querem crescer na carreira. Mas sei do processo que vem antes, então agora é trabalhar jogo a jogo, escala a escala, para um dia alcançar este objetivo. Quem sabe, um dia tenhamos uma mulher apitando a final da Copa do Mundo. Quem sabe daqui a alguns anos.

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