Técnico do Caxias Basquete, Barbosa fala da frustração com o fim do sonho  - Esportes - Pioneiro

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Entrevista04/08/2018 | 10h06Atualizada em 04/08/2018 | 10h06

Técnico do Caxias Basquete, Barbosa fala da frustração com o fim do sonho 

Treinador da equipe caxiense lamentou falta de incentivos para seguir com o time 

Técnico do Caxias Basquete, Barbosa fala da frustração com o fim do sonho  Porthus Junior/Agencia RBS
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

 A história de um time ligada ao nome de um profissional. Durante os 13 anos de existência, o técnico Rodrigo Barbosa foi a pessoa à frente do projeto. Na quinta-feira, coube ao treinador que levou o Caxias do Sul Basquete à elite nacional informar que a equipe não participaria da 11ª edição do Novo Basquete Brasil (NBB).  

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 Foram três temporadas entre os melhores do país e uma campanha histórica no NBB 10, onde o time terminou em sexto lugar. A licença solicitada para a liga pode significar também a saída de Barbosa do sonho do Caxias Basquete.  

 Após mais de uma década pensando diariamente na equipe, o rompimento de um crescimento gradativo pela falta de recursos financeiros pode ter sido demais para o treinador. Até por isso, na conversa com o Pioneiro, ele não conseguiu responder quantas noites de sono perdeu e quantos momentos particulares deixou de viver por conta do clube. Rodrigo chorou.  

 Diferente do choro de alegria do dia 5 de abril deste ano, quando o time venceu o terceiro duelo contra o Botafogo e avançou às quartas de final do NBB 10, as lágrimas desta vez eram o símbolo da tristeza de quem viu um projeto de vida partir. Foram 50 segundos de um  silêncio emocionado e que falou muito. Ainda com a voz embargada, Rodrigo Barbosa tentou explicar:

– Ainda hoje (quinta-feira) falei para minha mulher: “demoro muito para dormir. Duas, três horas da manhã e o cara fica: vou fazer isso, vou achar uma alternativa”.

Durante muito tempo, o Caxias Basquete foi conhecido por muitos como o “time do Rodrigo”. Hoje é a equipe de uma cidade inteira. E de uma torcida que chora junto com o treinador a ausência do time no NBB 11.

 “Falo isso há alguns anos. Não temos cultura esportiva”

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 02/08/2018. Técnico Rodrigo Barbosa, do Caxias do Sul/Banrisul dá entrevista falando da possível desistência da equipe de basquete do NBB 11. (Porthus Junior/Agência RBS)
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

A desistência do NBB 11 

—  Tem sido frustrante em todos os sentidos. Quem é do meio do esporte sabe o quanto é difícil. De chegar onde chegamos, o que conquistamos nesses anos, ter o reconhecimento da comunidade. São várias coisas que no esporte são importantes. Ano a ano fomos crescendo, melhorando. E chegar nesse ponto (de desistir) é ruim. Ruim para o esporte, para a cidade, para o Estado. Só lamentações. É difícil ver uma coisa positiva nesse momento. A não ser o apoio de muitas pessoas. Mas nada que tenha conseguido mudar essa nossa realidade. 

 Os meses de indefinição

—  Na verdade, tínhamos a expectativa de que seria melhor. Apresentamos o projeto em fevereiro ainda. Havia toda uma formatação de ideia para a próxima temporada. Depois que terminou o NBB, começamos as negociações. E começaram as dificuldades. Entendo que o tempo das empresas e das pessoas não é o mesmo que o nosso. Não foi muito diferente nos outros anos. Mas nesse, incrivelmente, não tivemos nenhum retorno positivo.

O auge e o adeus

— No final da temporada, nossas reuniões tratavam em manter o time no Vascão ou não. Realmente não passava pela nossa cabeça não jogar. Para te dizer a verdade, até a quinta-feira de manhã tinha esperança de que conseguiria reverter. Mas pela experiência dos últimos anos, enquanto não fechasse um bom patrocínio, sem ter essa base, não teríamos segurança para fazer. 

Conforme os dias foram passando e contatos importantes que tínhamos deram retorno negativo, ficamos mais preocupados. Em julho ficou mais claro que não conseguiríamos.

Rodrigo fora do Caxias

— Temos 12 ou 13 pessoas que decidem as coisas do basquete, mas o único profissional que vive disso sou eu. É complicado.  Estamos quebrando um ciclo, interrompendo uma história que vinha numa crescente e que, possivelmente, vá tomar rumos muito diferentes do que vinha tomando. Não consegui assimilar muito. Para mim está um pouco confuso. Sempre pensei como Caxias do Sul Basquete e como Rodrigo técnico. E hoje está muito difícil porque são dois caminhos que estão ficando distantes. Sem o time, um objetivo próximo é tratar o lado profissional. Eu preciso viver. Sem saber esse rumo, está difícil saber qual o caminho que vai ser dado.

Do crescimento à extinção

— Sempre brincava que o dia que fizesse o ginásio do Sesi lotar por causa do basquete poderia parar. E quando fizemos isso nessa temporada, pensamos: “que bom, temos que continuar fazendo”. É ruim para o Rodrigo, para aqueles que gostam do esporte, mas vai ser muito pior para o basquete do Rio Grande do Sul, para Caxias do Sul. Estávamos levando uma coisa que as pessoas não têm em tudo que é lugar: emoção. As pessoas saiam dos jogos emocionadas. E isso está sendo tirado delas.

O “time do Rodrigo”

— Nunca me senti dono do time. Sei do trabalho que fiz e das coisas que abri mão para o Caxias chegar onde chegou. Hoje, não consigo ter forças para poder modificar a situação. E isso é a pior coisa. 

Olha quantas pessoas estiveram envolvidas com os jogos. Quantas pessoas assistindo até jogos pela internet. Estamos perdendo isso. E isso é o pior de tudo.

Empresariado de Caxias

— Falo isso há alguns anos. Não temos uma cultura esportiva. Isso faz com que não se olhe para o que não se conhece ou não se quer entender. É ruim eu estar em casa, pensando onde vou conseguir patrocínio. Aí as pessoas falam “a crise, o momento econômico”, e eu olho a notícia no Pioneiro que a economia cresceu 8,1% em Caxias do Sul. E continua crescendo. E tem dinheiro em Caxias. 

Eu sinto a crise como todo mundo, mas não existe um olhar para o esporte. Tivemos muitos parceiros, mas não existe a cultura de pegar o investimento em divulgação e colocar no esporte.

Recado à comunidade

— A vida segue. Foi assim com o futsal, com o vôlei. Tomara que tenham outras pessoas que possam fazer de novo. Recomeçar ou estruturar o negócio diferente. Não é simplesmente o time. No nosso caso, criamos. Tomara que venham outros. 

Que essas pessoas que vieram aqui assistir aos jogos e que torceram, comecem a ter um olhar diferente. A partir daí, que se comece a fazer diferente também. Tínhamos que ter o vôlei da UCS, o handebol, o basquete. Teria que ter em Caxias, em Santa Cruz do Sul, em Lajeado. Está muito desproporcional. É muito investimento no futebol e em outras coisas. 

As próprias leis. Na cultura, posso dar 4% do imposto. Para o esporte é 1%. Tem tanta coisa para fazer. Tira um pouquinho e investe no Caxias do Sul Basquete, no Cidef (basquete em cadeira de rodas). Se as pessoas não olharem para o esporte, não tem como mudar.

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