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Conquistas do Tite #306/06/2018 | 07h15Atualizada em 06/06/2018 | 07h15

No Grêmio, em 2001, técnico da Seleção ganhou a Copa do Brasil e o reconhecimento nacional

Aos 39 anos, Tite inovou no Tricolor ao adotar o sistema 3-5-2

No Grêmio, em 2001, técnico da Seleção ganhou a Copa do Brasil e o reconhecimento nacional Paulo Franken/Agencia RBS
Com sistema inovador, Tite fez o Grêmio jogar por música na Copa do Brasil de 2001 Foto: Paulo Franken / Agencia RBS

“Tite não é técnico de futebol, é diretor teatral”. Assim, o narrador da Rádio Gaúcha, Pedro Ernesto Denardin descreveu Adenor Leonardo Bach, em 17 de junho de 2001. Dezessete anos antes da Seleção estrear na Copa da Rússia, Tite comandava o Grêmio na final da Copa do Brasil diante do Corinthians, numa das atuações que mais encheram os olhos do torcedor gremista em toda a sua história.

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Multicampeão com Vanderlei Luxemburgo, o Timão precisava de um empate em até 2 a 2 para ficar com o título. O Corinthians jogava no Morumbi, mas como mandante. Para vencer, era preciso que o Tricolor fizesse algo a mais do que o óbvio. Fugindo as tradições das conquistas em formas de batalhas dos anos 1990, o Grêmio destoou naquela tarde. O Tricolor jogou. E jogou muito. A vitória, porém, começava no vestiário visitante do Morumbi.

–  O Tite trabalhou muito essa parte emocional e motivacional. No vestiário, entregou um envelope para cada um com mensagens de amigos e familiares. Isso emocionou o grupo. Depois, ele decidiu para que a gente fizesse o aquecimento lá em cima, no gramado, para já sentir a torcida e não ter a pressão só na hora de entrar em campo – recorda Zinho, campeão da Copa de 1994, cinco vezes campeão brasileiro e um dos grandes nomes daquele Grêmio.

O goleiro da época era Danrlei, que na década de 1990 ganhara todos os títulos no Tricolor, onde foi formado. O camisa 1 revela nunca ter visto nada igual no vestiário gremista até então: 

–  Foi algo novo. Nunca tivemos até então esse tipo de trabalho. Não era normal isso naquela época. Cada um se expressou como achou melhor. Meu filho era pequeno, não sabia escrever, mas desenhou a mãozinha. Coisas que não eram de praxe.

Era o combustível que faltava. Quer dizer, quase. Ainda faltava uma pitada de ousadia para aquele time leve. Por isso, na subida do túnel para o campo, um recado que marcou os atletas e simbolizou aquela campanha histórica do Tricolor. 

– Na final da Copa do Brasil, com quase 82 mil pessoas, ele me disse: “Magrão, na primeira bola você tenta uma caneta”. Ele falou para mim isso. Imagina. Aquela final foi espetacular e já começou com isso – relembra Rubens Cardoso, lateral-esquerdo daquele time.

Rubens deu a caneta em Rogério e ali, com menos de um minuto de bola rolando, o Grêmio iniciava sua “roda” de 90 minutos sobre o rival.

Um pedacinho de Itália

Marcelinho Paraíba (camisa 10, de braços erguidos), comemorando um dos seus gols na vitória do Grêmio sobre o São Paulo por 4 x 3, pela Copa do Brasil 2001, apareçe também o jogador Zinho (d).#PÁGINA: 1FD#EDIÇÃO: 2ª
Marcelinho Paraíba (E), Eduardo Costa e Zinho (D) foram alguns dos principais nomes do Grêmio naquela temporadaFoto: Carlinhos Rodrigues / Agencia RBS

É claro que a origem italiana de Tite está explícita no sotaque, nos gestos e na religiosidade. Mas, no Grêmio, a questão tática foi o que mais se aproximou da Azurra. Ao chegar no Tricolor, o técnico decretou: “vou jogar no 3-5-2”. Nada de modismos, apenas convicção de que era preciso inovar.

– Eu dizia para o pessoal: tenta até aprender, ganhar confiança. O time vinha inconstante. Com a chegada do (Mauro) Galvão, senti que era a hora do 3-5-2 – disse o treinador, depois da conquista da Copa do Brasil. 

Para tanto, era preciso convencer Tinga, que começou a carreira como meia-atacante, a jogar mais recuado e fazer de Zinho um diferencial. O objetivo era ter marcação forte sem a bola e se aproximar à dupla de ataque quando a equipe tivesse a posse.

– Sempre fui de jogar para o time. Quando se fala que são três jogadores no meio, parece que ficava só o Eduardo Costa, Tinga e eu. Mas, na verdade, os dois alas, o Anderson Lima e o Rubens Cardoso, se adiantavam e ficavam nessa linha. Tínhamos bons jogadores na frente. Na defesa, nosso time marcava muito bem também, mas tinha técnica. E eu, por incrível que pareça, tive mais liberdade. Tanto que foi a temporada em que fiz mais gols. Fui até cotado para a Seleção, já com 33 anos. Até acho que pelo que eu joguei, deveria ter ido para a Copa de 2002. Estava num momento melhor do que o Ricardinho, por exemplo – confirma Zinho.

Como diziam os jogadores, deu liga. Daquele time, muitos passaram ou passariam pela Seleção, como Marcelinho Paraíba, Eduardo Costa e Anderson Polga. O zagueiro, inclusive, foi para a Copa no ano seguinte, com Felipão. E aí a curiosidade: o esquema também era o 3-5-2. No Mundial de 2002, a Itália adotou a formação, como aconteceu em Copas anteriores. 

– A Seleção que ganhou o penta usou esse esquema. A Juventus ganhou cinco ou seis campeonatos jogando assim. Já vimos várias seleções jogando assim, sem jogador de referência. Era um time muito difícil de marcar. Todo mundo se movimentava. Só eu mesmo era zagueiro naquele time. E eu nem tenho um estereótipo de zagueiro. Todo mundo jogava com a bola. O time encaixou. Ganhamos o Estadual e a Copa do Brasil – relembra Mauro Galvão.

Num Grêmio que tinha Jardel como referência de artilharia, montar um time sem um centroavante alto, sem alguém de referência ofensiva, parecia ilógico. O ala Rubens Cardoso lembra que o objetivo era sempre chegar com o maior número de jogadores na área e o principal: ter “amplitude e velocidade”.

– Se dizia que não teria ninguém na área quando eu chegava no fundo. Mas acontecia muito de o Luís Mário cruzar e eu fazer o gol. Ele era muito rápido e eu acompanhava. Da mesma forma eu cruzava para os extremas do outro lado. Eu jogava mais espetado e o Anderson Lima vinha mais por dentro – argumenta, ao se lembrar do “Arrasta, Rubens”, que escutava ao lado do campo, com um sotaque bem peculiar de Tite, pedindo apoio constante do ala pela esquerda.  

Novato com personalidade

#Máquina: D1-5020683GRÊMIO TREINO DANRLEI E TITE
Para Danrlei (D), Tite (E) foi um técnico precursor em priorizar a posse de bolaFoto: José Doval / Agencia RBS

Mais do que resultados, Tite também conquistou os jogadores. Em tom professoral, mesmo jovem para um técnico, aos 39 anos, o técnico prendia a atenção dos mais experientes. Sem Ronaldinho Gaúcho, que deixou o Grêmio no fim de 2000, o ano de 2001 começou com uma equipe “fechada”, com todos em prol do coletivo. 

– A competência dele de dar um treino, montar a equipe, motivar o time, de palestrar, e a personalidade fizeram com que ele mostrasse a liderança que tinha desde o começo. Ele sempre dava atenção também para quem não estava jogando, sempre respeitou. O atleta acaba que não tem como não ter um comportamento correto com ele – elogia Zinho. 

– Ele fazia treinamentos de minijogos, mudando para um formato europeu, com campo reduzido. Ele pedia muito toque e para não rifar a bola. Pensava sempre em ter a bola no pé e fazer o gol. Naquele tempo, isso não era tão normal. Os treinadores pensavam em se defender – acrescenta Danrlei.

Após o título da Copa do Brasil e do Gauchão em 2001, a expectativa dos gremistas era ainda maior para os anos seguintes. Mas elas não foram correspondidas ou tão marcantes quanto às do primeiro ano de Tite no Grêmio, onde ficou até 2003.

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