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Copa do Mundo14/06/2018 | 07h00Atualizada em 14/06/2018 | 07h00

De São Braz à Rússia: técnico Tite teve uma infância de travessuras em Caxias do Sul

Maior parte do tempo do menino Adenor era jogando futebol ou ouvindo jogo

De São Braz à Rússia: técnico Tite teve uma infância de travessuras em Caxias do Sul Jewel Samad/AFP
Tite, técnico da Seleção Brasileira nasceu na localidade de São Braz, em Caxias do Sul, em 1961 Foto: Jewel Samad / AFP

Uma infância normal para a década de 1960. Ade não era um menino detestado por vizinhos, não era punido por professores, mas esteve longe de ser um anjinho nos arredores do número 202 da rua Sinimbu, no bairro Nossa Senhora de Lourdes, em Caxias do Sul.    

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Adenor Leonardo Bachi, o Tite, hoje técnico da Seleção Brasileira, é o irmão do meio da família Mazzochi Bachi. Antes, em 1958, Genor e Ivone tiveram Beatriz, a Bea. Depois de Ade, que nasceu em 1961, veio Ademir Fermino, o Miro, em 1966. 

Apesar de ter nascido em São Braz, no leste de Caxias do Sul, foi na faixa mais central da cidade que Adenor deu seus primeiros chutes. E nem sempre eram em uma bola. 

– Tínhamos bola de meia para jogar dentro de casa. Fazíamos disputas de pênalti entre a geladeira e a máquina de costura da mãe. A gente tinha dificuldade em ter as coisas. Ele sempre foi muito mais talentoso do que eu e toda a turma. E era muito fominha – recorda Miro, 52 anos, responsável pelo Centro de Esportes e Lazer Tite (Celte), em Ana Rech. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 04/06/2018 - Fotos para o Gibi da Copa. Fotos da infância e adolescência de Tite. NA FOTO: Beatriz Bachi, irmã de Tite, em Caxias do Sul.(Roni Rigon/Agência RBS)
Beatriz Bachi, irmã mais velha de Tite guarda fotos da infância, como esta, ao lado do irmãoFoto: Roni Rigon / Agencia RBS

Os irmãos tem recordações distintas de Tite, a quem chamam de Ade, mas ambos concordam no quesito travessura. 

– Ele era o mais serelepe dos três. Eu era do trabalho por ser a mais velha, o Miro era o bebê e ele era o aprontão. O Miro era cobaia para os “experimentos dele” e eu fazia o meio-campo para segurar os ímpetos do Ade (risos) – relembra Bea, 59 anos, empresária, ao contar que uma das experiências de Ade era testar uma “espingardinha” de sal nos pés do irmão mais novo. 

Da infância, de fisionomia mais arredondada, até a adolescência esguia, Ade era do tipo “dono do campinho”, seja no Emílio Meyer, onde estudavam, ou na quadra da Escola Madre Imilda, onde era preciso se aventurar e pular o muro fora de hora para poder jogar. 

CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 04/06/2018 - Fotos para o Gibi da Copa. Ademir Miro Bachi, irmão de Tite, no Celte, Centro Esportivo e Recreativo Tite, em Ana Rech, e fotos das conquistas de Tite, também no Celte, NA FOTO: Miro e Dona Ivone, mãe do Tite. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Ademir Bachi, o Miro (D) é o responsável pelo Celte e o filho mais próximo de Dona Ivone, a mãe de Tite, Bea e MiroFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

– Lembro mais de jogar com meu irmão. Mas lembro também que o pessoal respeitava muito ele. No colégio diziam: “não mexe com o Miro porque ele é irmão do Adenor”. Ele não era de briga, mas não aceitava que mexessem com a gente – relembra Miro. 

Na Copa do Mundo que se inicia, Miro, Bea, dona Ivone, os Mazzochi, os Bachi, São Braz, Lourdes, Caxias, Brasil se unem por mais uma travessura de Adenor: o tão sonhado hexa.

Futebol no DNA 

Ade até brincava com os cachorros Trunfo e Piloto, andava de patinete e atirava de arco e flecha. Mas não era isso o que tomava a maior parte do seu tempo. O menino jogava, jogava, jogava. A paixão era tanta que quase irritava a irmã mais velha. Os Bachi só falavam de futebol. 

– Eu, adolescente, querendo ouvir uma música e eles o dia inteiro ouvindo esporte. Não sobrava tempo para mim, até porque a mãe trabalhava muito, não tinha tempo para algo diferente. Eles acordavam e dormiam escutando futebol. Era rádio e TV com futebol. Aquilo chegava a me irritar às vezes. A coisa veio do meu avô paterno, que era juventudista, que morreu praticamente dentro de um campo de futebol – conta Bea. 

Os irmãos não escondem que Tite, ainda enquanto Ade, era torcedor do Grêmio e do Juventude. Era. Hoje, Tite é do mundo. 

– Torci para o Caxias contra o Grêmio em 2000. Torcemos para o Inter quando meu irmão estava lá. Hoje, a gente não torce mais para ninguém. Não tem como. A gente torce para as pessoas que estão nos clubes. No Corinthians, por exemplo, eu fui para o Mundial, cantei o hino do clube – confirma o irmão mais novo.  

Heranças de Genor 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 04/06/2018 - Fotos para o Gibi da Copa. Fotos da infância e adolescência de Tite. (Roni Rigon/Agência RBS)
Ida para a praia, em Torres, era tradicional na família Mazochi Bachi. (Da esquerda para a direita: Miro, Genor, Ivone, Bea e Tite)Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

A cada entrevista de Tite, fica escancarado que o seu maior desejo não poderá ser realizado, mesmo que venha o hexacampeonato com a Seleção. O treinador queria que seu pai Genor pudesse estar fisicamente presenciando tudo isso. Ele faleceu em 2009, quando Tite treinava o Inter, dias antes da conquista da Copa Suruga com o colorado. 

Camisa 5 do Juvenil de São Braz, Genor Bachi jogava no time B da equipe nos anos 70. E, dizem, era dos bons.  

– Uma coisa que me marcou é que se tivesse um gol de cabeça no jogo, era dele. Era chutão para a área e ele fazia gol de cabeça. Vibrávamos muito. Ia a família toda – conta Bea, lembrando-se com orgulho. 

No time principal, Tite era o camisa 10, mas não tinha muitas regalias com o pai, que era o treinador. 

– O pai nunca foi de elogiar. O pai não ficava dando barda. Mas não podia mexer conosco. De olhar para ele se sabia se estava gostando. Mas até para sorrir ele era discreto. O meu pai sempre torceu, mas do jeito dele, sem ser extravagante e sem que ninguém percebesse – acrescenta. 

Tudo, ainda que não com um roteiro perfeito, faz parte de um sonho de Tite, no qual Bea e Miro foram testemunhas. Famoso no mundo, o simples Ade para eles. Escrevendo assim, nem parece que o irmão do meio dos Bachi é um dos principais técnicos da maior competição de futebol do mundo. 

– É muito bom sonhar. O caminho que ele construiu foi muito bom. Era gostoso ir com o pai para Garibaldi, para Veranópolis. Era um jovem treinador que perdia, ganhava, era criticado. Mas tudo isso dá saudade. Esse processo todo dá saudade. Agora, o sonho está realizado, mas a carga de responsabilidade da família não nos permite desfrutar tanto. Ele chegou ali, mas sofreu muito para isso – minimiza Miro, que garante nem assistir algumas partidas, quando a carga de emoção extrapola. 

Talvez esse “achar normal” soe arrogante. Mas é justamente o contrário. Da simplicidade de nascer e morar em um pequeno salão da Igreja de São Braz ao apartamento luxuoso na Barra da Tijuca, tudo se mantém, principalmente as origens. 

Das heranças de seu Genor, talvez a principal: persistência. A cada palestra pré-jogo, Tite usa garra e determinação, além da consagrada “competitividade”. Para os irmãos, a grande virtude de Adenor se resume em outra palavra. 

– Caráter. Se for uma única palavra é essa. Persistência também, até por não ter sido um destaque como jogador. Mas o caráter é algo muito forte nele. Além disso, dedicação extrema. É algo que herdamos. “Aquilo que tu te determinas a fazer, tens que colocar todo o teu empenho”. Nosso pai falava, mas nem precisava falar. Ele direcionava o olhar e sabíamos já a hora e o que deveríamos fazer – explica Beatriz, que garante saber o que Tite está pensando a cada momento em que aparece em close na televisão. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 04/06/2018 - Fotos para o Gibi da Copa. Fotos da infância e adolescência de Tite. (Roni Rigon/Agência RBS)
Tite (E), Miro (C) e Beatriz (D), o trio de filhos de Genor e Ivoni BachiFoto: Roni Rigon / Agencia RBS

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