Caxienses são comissários de prova no GP Brasil - Esportes - Pioneiro

Fórmula 111/11/2017 | 18h00Atualizada em 11/11/2017 | 18h00

Caxienses são comissários de prova no GP Brasil

Vinício Pigozzo e Ubiratan Kintschner vão para o quarto ano seguido atuando nos boxes

Caxienses são comissários de prova no GP Brasil Arquivo pessoal/Divulgação
Vinício Pigozzo e Ubiratan Kintschner são sócios em Caxias do Sul e atuam juntos todos os anos em Interlagos, São Paulo Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Qual é o local mais próximo que se pode chegar de uma prova de Fórmula 1? Já imaginou frequentar os boxes, caminhar pelo pitlane em dias de treino, conversar com pilotos, inclusive em dias de corrida? Uma dupla de Caxias do Sul faz isso junta desde o Grande Prêmio do Brasil de 2014. Na verdade, desfrutar desse universo não é foco de Vinício Pigozzo e Ubiratan Kintschner. Ambos são comissários de prova do principal e mais badalado evento automobilístico mundial.

Critério, precisão, qualificação e seriedade são os principais predicados que a função de fiscalizar cada parafuso, cada ângulo de asas, ajustes nos motores, tamanho das peças de cada supercarro exige.

Para chegar ao mais alto nível de engenharia mecânica, foi preciso ingressar no meio das competições nacionais de velocidade. Os amigos e sócios foram convidados para fazer carros para a GT3, uma competição que estava iniciando no Brasil com um grupo de Caxias do Sul, e logo depois passaram a adaptar carros para uma equipe de Curitiba. Já integrados no meio, veio a ideia de se envolver nos circuitos de Fórmula 1, em qualquer setor que fosse.

– Pedíamos para entrar, nem que fosse para varrer chão. Em 2012 meu sócio entrou. Só havia uma vaga e eu abri mão. No ano seguinte não abriu vaga e em 2014 consegui entrar – lembra Vinício Pigozzo, pós-graduado em gestão automotiva.

Ao todo, segundo Pigozzo, são 34 comissários no GP do Brasil. Dentre eles, estão engenheiros de montadoras e de equipes de competições como a Stock Car, a principal categoria de velocidade do país. 

– Muitos querem entrar. É um trabalho dos sonhos, você é uma autoridade dentro dos boxes. É o que tem de mais novo, de mais tecnologia automotiva. Tu para e pensa: ‘olha o que os caras estão fazendo’. São coisas que não televisão tu não enxerga  – enaltece Pigozzo, que vai para o seu quarto ano consecutivo de prova.

Aprendizagem constante

Além de provas teóricas, os comissários precisam estar atualizados de tudo o que acontece na competição, mesmo que não haja remuneração para tanto. Para Pigozzo, as lembranças e o aprendizado são as principais gratificações. No primeiro ano, o caxiense de 46 anos foi o responsável por fazer a McLaren cumprir o regulamento no carro de Jenson Button, que terminaria a temporada na 8ª colocação, mas que naquele GP terminou chegou em 4º.

Autoridade dentro dos boxes, o trabalho do comissário contrasta com as pretensões das equipes e seus engenheiros, que almejam diminuir cada segundo de prova com ajustes milimétricos nas mais variadas partes do carro. Nem sempre tudo está nas regras, por isso a desconfiança faz parte do trabalho dos sócios caxienses. 

– No primeiro ano, tinha um aviso de ‘reparo na asa dianteira’ no carro do Button e a FIA autorizou que fosse feita. Fui ver e a asa estava escondida com cobertor. Cheguei e tirei o cobertor, olhei de todas as formas e não achei nada. Chamaram o engenheiro aerodinâmico e já me deu uma insegurança, gelei na hora, quase pedi pra ele não vir. Não tinha nada ali, achei que ele estava tentando me sacanear, mas ele resolveu fazer na hora e arrumou com um tipo de esmalte e uma fita. Percebi que ele tinha um equipamento de ultrassom e assim descobria todos os pontos de trinca do carro, coisas que não se percebe a olho nu. Ali notei que o nível era outro – recorda Pigozzo.

Ao lado das feras

Medir ângulos de asas, tamanho de peças, pesar todos os equipamentos de um carro não se torna tão difícil quanto mensurar as emoções vividas em um Grande Prêmio, conforme Vinício Pigozzo. Além de conviver com o inconfundível ronco dos motores, cheiro de pistas e absorver as tecnologias mais avançadas do setor, estar ao lado de consagrados pilotos também faz parte das rotinas de um comissário em dias de prova. 

– Tu não se acreditas que está lá. Fui ao banheiro, por exemplo, e vejo o Nico Rosberg, do lado o Niki Lauda. Fiz inspeção no capacete do Alonso em 2014 e falei um pouco com o Raikkonen. Na área de engenharia tu vês cara que só via na televisão e tu estás ali no meio e tem de fiscalizar eles – exemplifica.

Apesar de lembrar-se de pelo menos uma história de cada GP, a edição 2016 do circuito jamais será esquecida por Pigozzo, que foi às lágrimas pela primeira vez entre os boxes do evento.

- Foi uma emoção muito grande porque era a despedida do Massa. Ele entrou, estava toda a família dele e ele fez questão de cumprimentar um por um dos pilotos e até eu, que estava ali fiscalizando. Quando ele voltou para o box, após bater na pista, todos bateram palmas para ele, inclusive de outras equipes, algo totalmente fora do protocolo. Foi a maior emoção que vivi na Fórmula 1, chorei no box. Foi um momento que entrou para a história e eu estava dentro do box vivendo aquilo – orgulha-se. 

Coincidência, ou não, Felipe Massa fará outra vez sua despedida da Fórmula 1 no GP de Interlagos e seu carro terá fiscalização de perto de Pigozzo.

Amizade e Profissionalismo

Com uma parceria profissional de 26 anos, mas uma amizade ainda dos tempos de escola, Vinício Pigozzo e Ubiratan Kintschner vão para o quarto ano juntos em Grande Prêmio. 

– As minhas brincadeiras sempre foram carrinho de lomba, bicicleta, moto, sempre algo com motor. Conheço meu sócio há anos, fomos colegas no colégio e nossos papos eram sobre carro. Saímos do colégio, fomos trabalhar juntos e depois abrimos uma empresa. Uma vida inteira quase de amizade – recorda Pigozzo.

Ubiratan Caselani Kintschner, o Bira, 46 anos, também é engenheiro mecânico e há três meses mora na Carolina do Sul, nos Estados Unidos.

– O Vinício é como um irmão para mim, então termos este reconhecimento juntos torna tudo ainda mais especial, estamos colhendo o que plantamos em toda a nossa carreira – orgulha-se. 

O principal momento de Bira, foi em 2015, quando presenciou duas trocas de motores da McLaren do Alonso:

– Tive a oportunidade de ver o carro completamente desmontado e montado por duas vezes, inclusive a parte híbrida, foi uma experiência e tanto.

Ubiratan iniciou como comissário em 2012 e, desde então, se diz surpreender-se a cada ano.

– É ainda algo um tanto utópico para mim. Assistir à corrida de dentro do box, e quando falo dentro, é dentro mesmo, junto à equipe, aos mecânicos – tenta explicar o caxiense.  

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros