Ciclista que pedalou de Caxias ao México com R$ 500 retorna após 20 meses de aventura - Esportes - Pioneiro

Desapego e adrenalina24/04/2017 | 21h12Atualizada em 24/04/2017 | 22h01

Ciclista que pedalou de Caxias ao México com R$ 500 retorna após 20 meses de aventura

Jair Melo percorreu 18 mil km e passou por locais como o interior da Amazônia, as montanhas colombianas e o caribe mexicano

Ciclista que pedalou de Caxias ao México com R$ 500 retorna após 20 meses de aventura Divulgação/Arquivo Pessoal
Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

Quando chegou na manhã do último sábado à Estrada do Vinho, em Caxias do Sul, e viu diversos amigos o aguardando, Jair Melo, 50 anos, não conteve as lágrimas. Um ano e oito meses depois, Pexe, como é conhecido, finalmente retornava para casa como sobrevivente de uma epopeia que iniciou na Serra Gaúcha e terminou em Cancún. 

Com apenas uma bicicleta, R$ 500, duas sapatilhas, um par de chinelos, duas bermudas, uma calça, um casaco, duas camisas, três trajes para pedalar e alguns utensílios de casa, Melo percorreu cerca de 18 mil quilômetros (veja o roteiro abaixo) numa aventura impressionante. Assaltado por adolescentes na América do Norte, sequestrado por índios na Amazônia e isolado nas montanhas colombianas que um dia viram florescer o maior cartel de drogas do mundo, o ciclista – natural de Canoas e morador de Caxias – venceu limites físicos e psicológicos intransponíveis para a maioria das pessoas. 

Foto: Arte / Pioneiro

Para atingir o sonho de ver com os próprios olhos a terra do comediante Chaves e as pirâmides da antiga civilização asteca, o ciclista trilhou de 90 a 150 km por dia quando pegou a estrada, enfrentou calor de 48ºC, atravessou a Amazônia de barco, aprendeu a ser artesão e experimentou iguarias como ovo de tartaruga e carne de iguana.

A saga, que deve ser eternizada em livro, começou a ser organizada em 2014 depois que ele foi demitido de uma metalúrgica em Caxias. Competidor de provas de longa distância, Melo mantém relação estreita com as bicicletas há 26 anos. Esta é sua a terceira grande viagem. Na primeira, em 2005, foi até Salvador (BA) e cumpriu 3,8 mil quilômetros. Na segunda, em 2012, rasgou a América do Sul e boa parte do Brasil. Nenhuma delas, porém, teve o nível de exigência como a última.

– A solidão pega. Às vezes você está rodeado de gente e não conhece ninguém. Isso te faz refletir totalmente sobre a vida. Não ter dinheiro também pesa. Nos lugares mais difíceis, como a Colômbia, você depara com uma montanha e tem uma carga enorme nas costas. Em locais muito quentes, nem mesmo os nativos aguentam, mas você está indo adiante – conta Melo.

Com poucas noções de artesanato, ele carregou 14 kg de pedras compradas em Lajeado para vender no decorrer da jornada. Só que elas não foram suficientes para o sustento mínimo. Pexe, então, aprendeu com andarilhos a manejar linha, arame e couro. Foi somente em Paraty (RJ) que ele perdeu a vergonha e expôs pela primeira vez seu novo ofício. Ele precisou da solidariedade de estranhos para não dormir na rua e passar fome.

– No Brasil me trataram bem, mas os lugares mais hospitaleiros foram os que eu não imaginava, como as Guianas e o Suriname. As pessoas me chamavam para dentro de casa, me ofereciam comida. Em Caiena (capital da Guiana Francesa), um cara não deixou eu ficar na rua. Ele auxilia quem vai trabalhar no garimpo por lá – relata.

Nas pirâmides da Cidade do México, um dos principais destinos da viagem de Pexe Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

Emoção e terror na Amazônia e no México

Das Guianas, Melo foi a Boa Vista (RR) e rumou para o interior da Amazônia para vivenciar momentos de êxtase e terror. Para ir de Manaus a Saramiriza, no Peru, encarou uma viagem de barco de 14 noites pelo Rio Amazonas. Próximo ao Peru, o grupo em que ele estava com outras sete embarcações foi interceptado por índios que protestavam contra a poluição. 

Durante três dias, mais de 600 pessoas ficaram sob a mira de espingardas e arcos. Uma lancha que tentou furar o bloqueio foi alvejada. Dias antes, Melo tinha se emocionado com o calor humano do povo amazônico e com a paciência dos índios em ensiná-lo técnicas de artesanato:

– Encontrei gente realmente boa, que ajuda por coração. Independentemente desses políticos que sacaneiam o povão, o Brasil é bom.

Depois da Amazônia, ele pedalou pelo litoral peruano e equatoriano e ingressou na Colômbia, onde foi desafiado por montanhas inóspitas de até 20 km de extensão. Pexe superou as barreiras naturais e seguiu para a América Central, onde permaneceu por menos de um mês devido às dificuldades em vender seus produtos. 

No começo de 2017, o gaúcho adentrou o México para realizar o sonho de adolescência de ir ao hotel de Acapulco onde foi gravado um episódio do Chaves e de conhecer as pirâmides astecas da região metropolitana da capital do país. A aventura, porém, quase foi interrompida de forma trágica quando três jovens armados o assaltaram em Puerto Escondido, em Oaxaca.

– Eles fugiram com minha bicicleta para o meio do mato e quiseram me levar junto. Me atirei no chão e fui salvo porque apareceu um carro. Liguei para a polícia e ninguém apareceu. Entrei no mato e achei a bicicleta com todas as coisas. Muita sorte, podia estar morto – afirma.

Com a magrela de estimação recuperada – ela tem mais de 200 mil km rodados –, Pexe andou por boa parte do México e finalizou a viagem sobre duas rodas no litoral paradisíaco de Cancún.

No caribe mexicano, antes de retornar ao Brasil com ajuda financeira de amigos Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal
Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal
Ciclista passou também pela Cidade do Panamá, na América Central, após enfrentar as montanhas colombianas Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

No regresso, o desejo pela cama e pela culinária italiana

Para voltar ao Brasil, mais uma vez ele contou com a solidariedade. Seus amigos arrecadaram o valor da passagem aérea e ele desembarcou em Porto Alegre na semana passada. No Aeroporto Salgado Filho, a noiva, Débora Saliba, também ciclista, o recebeu, e da Capital ele retornou à Serra. 

Além das amizades feitas nas diferentes cidades que passou, Jair Melo deixou um pouco dele nos objetos e roupas que teve de doar por falta de espaço na bicicleta. Nos primeiros dias em casa, ele só quer dormir na própria cama e saborear a gastronomia italiana. Para o futuro imediato, o ciclista almeja expor seu artesanato e encontrar patrocinadores para um livro. Às pessoas que desejam se jogar numa epopeia semelhante, ele aconselha uma preparação séria e resiliência:

– A rotina era lavar roupa, ir atrás de alimento, descobrir onde vender artesanato e ganhar algum dinheiro. Tive de me adaptar e ter a casca grossa. No começo, você quer escolher os lugares para ficar e o que comer. Depois, era o que dava e o que tinha. Viajar é tudo de bom, mas exige muito mais do que se imagina. Por enquanto está bom, não penso numa próxima.

Com a noiva, Débora Saliba, na chegada à Capital após 20 meses de aventura Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal


 
 

Siga @pioneiroonline no Twitter

  • pioneiroonline

    pioneiroonline

    Pioneiro.comCapoani está fora da briga pelo título nos carros e Caselani segue líder nas motos https://t.co/qeQJztVork #pioneirohá 5 horas Retweet
  • pioneiroonline

    pioneiroonline

    Pioneiro.comBento Vôlei anuncia desistência da Superliga Masculina 2017/2018 https://t.co/2MMqvTIsvY #pioneirohá 5 horas Retweet
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros