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Entrevista03/10/2015 | 06h02

"As meninas mais altas querem jogar vôlei. Ninguém quer jogar basquete"

Campeã mundial e medalhista olímpica, Alessandra ministra clínica e participará de jogo em Caxias do Sul

"As meninas mais altas querem jogar vôlei. Ninguém quer jogar basquete" Felipe Nyland/Agencia RBS
Alessandra lamenta a falta de política esportiva eficiente no Brasil Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS
Campeã mundial e duas vezes medalhista olímpica com a seleção brasileira feminina de basquete, Alessandra Santos de Oliveira está em Caxias do Sul. Neste sábado, a pivô, que deixou de jogar profissionalmente há dois anos, irá palestrar, fazer o lançamento oficial de uma bola de iniciação na modalidade que leva o seu nome e participar da final do Campeonato Citadino, quando atuará pela Associação de Basquete de Caxias do Sul (Abacs). Os eventos serão realizados no Clube Juvenil, a partir das 9h30min.

Aos 41 anos, Alessandra tem história para contar. Participou da geração de ouro do basquete feminino brasileiro, ao lado de Hortência e Paula. Foi campeã no Mundial da Austrália, em 1994, e disputou três Olimpíadas. Levou o bronze em Sidney (2000) e a prata em Atlanta (1996).

Jogou nos Estados Unidos, em diferentes países da Europa e na Coreia do Sul. Depois de 15 anos no Exterior, voltou ao Brasil em 2011, e deixou o basquete profissional há dois anos. Porém, continua jogando em Ponta Grossa-PR e em outros locais no país quando convidada. Além disso, utiliza da sua experiência para transmitir o conhecimento aos mais jovens.

No início da noite de sexta-feira, ela atendeu o Pioneiro e falou sobre a carreira, o momento do basquete feminino e a importância do seu trabalho fora das quadras.

Pioneiro: O que você procura passar nestas clínicas voltadas a jovens que apreciam o basquete?
Alessandra:
É preciso de disciplina diariamente, seja na quadra, no colégio ou em casa com os pais. Além disso, é ter superação e atitude. São bases para o esporte. Não adianta ser um bom jogador se não tiver disciplina. Apresento meu esporte, com o minibasquete para os menores, e a partir de 11 anos, passo como aprimorar fundamentos. O basquete é um esporte coletivo que você precisa treinar sozinho. Os brasileiros não gostam muito de treinar esses detalhes e é justamente os que fazem a diferença no final, seja em uma equipe ou seleção.

Você jogou numa época de ouro do basquete feminino do Brasil. Como avalia o momento atual?
Vim de uma época de ouro, que jamais imaginei participar. Fico feliz e me orgulho por ter acontecido isso. Entristece por ser difícil vender o produto basquete feminino. Se não tem resultado, é complicado. Não tem organização e parece que as meninas não levam tão a sério. Precisamos dessas crianças para melhorar, são elas que vão massificar o esporte. Não temos ídolos e é difícil de elas terem em quem se espelhar. Temos de ter mais mão de obra. Até as meninas mais altas querem jogar vôlei. Ninguém quer jogar basquete.

Apesar da mídia estar mais centrada em Paula, Hortência e Janeth, você foi uma referência mundial como pivô. Como é trabalhar o fato de ser um exemplo no esporte?
Nunca pensei sobre isso. Pouca gente me pergunta algo neste sentido. Ser um exemplo é difícil pela responsabilidade. Para mim é um prazer, até pela gratidão que tenho por tudo que fez na minha vida. E é isso que quero passar aos mais jovens. Independentemente da classe social, elas podem. É ter perseverança e, depois, mesmo se ela não for uma grande atleta, será uma grande cidadã. O Brasil precisa de pessoas que pensam dessa forma.

Descentralizar o esporte de alto rendimento da região sudeste é fundamental para ter modalidades mais fortes no país?
Com certeza. No Brasil temos muitos talentos desperdiçados. Aqui no Sul, até por fatores de colonização, temos muitas crianças altas. Deveríamos usar mais isso. No Norte, tem outras características. Se o esporte fosse bem trabalhado pelo Governo, não teríamos esse crescimento da delinquência infanto-juvenil e essa desigualdade social.

O quanto a Olimpíada pode ajudar o esporte, e em especial, o basquete brasileiro?
Primeiro, queria ter cinco anos a menos e estar ali defendendo a seleção. Sempre amei jogar pelo meu País e é algo que não encontro palavras para descrever. Sobre os Jogos, pode ser uma faca de dois gumes. Ou massifica e a política esportiva melhora ou fica na mesma. O momento econômico do País é complicado. Gosto de sonhar, mas estando difícil para os empresários, falta apoio. Espero que melhore e as Olimpíadas sejam uma grande festa para o mundo. Que essa criançada que verá a superação de muitos atletas, não só brasileiros, tenha uma motivação extra para praticar o esporte. Para nós, falta uma cultura esportiva.

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