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Especial06/08/2020 | 05h53Atualizada em 06/08/2020 | 05h53

O futuro da economia: o que esperar da indústria após a pandemia

Economistas da Fiergs e da CNI projetam cenários para o setor

O futuro da economia: o que esperar da indústria após a pandemia Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Quando ainda se recuperava dos efeitos da crise de 2014, a indústria sofreu um novo baque. Viu a produção cair e precisou demitir. Mas, aos poucos, a atividade industrial começa a demonstrar sinais de recuperação. Na comparação com maio, a produção industrial teve avanço de 8,9% no mês de junho, conforme divulgou nesta semana o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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A alta foi a segunda seguida da indústria, mas ainda insuficiente para eliminar a perda de 26,6% acumulada pelo setor nos dois primeiros meses de pandemia, quando a produção industrial atingiu o nível mais baixo já registrado no país. Em Caxias do Sul, depois de um tombo de 25,5% em abril em relação a março, a indústria cresceu 28,5% em maio em relação ao mês anterior, mas ainda 27% menos do que maio de 2019.

— O pior em termos de impacto da covid-19 ficou em março e abril. A gente já vê maio e junho com uma retomada, claro que ainda com queda em relação ao ano anterior. Mas numa visão mais otimista, de manter esse ritmo de recuperação, já em 2021 a gente vai recuperar o patamar pré-covid. Claro, que ainda está abaixo do que foi o pico da indústria. A gente vai voltar para o patamar pré-pandemia e, talvez, ao longo da década a gente consiga recuperar o pico e continuar avançando — projeta André Nunes de Nunes, economista-chefe da Federação das Indústrias do RS (Fiergs). 

Para o gerente de Análise Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Marcelo Azevedo, a expectativa é se os próximos meses irão conseguir manter o ritmo de retomada. O cenário, segundo ele, ainda é de muitas incertezas. 

— Quando a gente fala em retomada, uma das grandes variáveis é o comportamento do consumidor. Enquanto não houver uma saída definitiva da pandemia, a gente não sabe exatamente como o consumidor vai se comportar. Olhando um pouco mais para a frente, provavelmente as sequelas da pandemia ainda vão estar nessa insegurança — destaca. 

Confira o que os economistas pensam sobre o futuro da indústria. 

Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Marcelo Azevedo, economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI). <!-- NICAID(14560909) -->
Foto: João Paulo Lacerda / Divulgação

LIÇÕES
"Essa situação expõe o tanto que precisa ser feito para dar condições de negócio favoráveis para a indústria, para a economia como um todo. A pandemia é uma coisa nova, impactou todo mundo, alguns de forma diferente. Normalmente, numa crise dessas, a gente poderia falar de coisas que poderiam ser de prevenção, mas é maldade falar disso agora, por que quem poderia prever? Mas o que tem de lições é o que foi feito no curto prazo dessas necessidades de termos condições de dar um crédito emergencial para as empresas. Acho que já se teve um aprendizado no processo, de como dar crédito, de como atingir empresas de pequeno e médio porte. Acho que ainda precisa ser feito mais nesse sentido, mas foi algo que já foi aprendido. Não vai ser fácil retomar a disponibilidade de ter recursos num momento desses. Se não tivesse um problema fiscal agudo, poderia ter sido feito mais em termos de amenizar os efeitos da pandemia, seja de dar dinheiro para a área da saúde, seja para o problema econômico, para as famílias, para as empresas. Acho que (a pandemia) reforça a necessidade do ajuste fiscal, reforça a questão do crédito e reforça o papel de criar um ambiente de negócios que não seja nocivo, que seja favorável à manutenção dos empregos e dos negócios."

VARIÁVEIS
"Quando a gente fala em retomada, uma das grandes variáveis é o comportamento do consumidor. Enquanto não houver uma saída definitiva da pandemia, a gente não sabe exatamente como o consumidor vai se comportar. Tem certos tipos de consumo que ele ainda terá algum tipo de restrição, e isso afeta a economia como um todo. A gente estava em um início de recuperação (antes da pandemia), sem ter se recuperado de 2014, com situação financeira debilitada em muitos casos, então, o empresário vai estar com muito receio de tomar passos como novos investimentos. São decisões que serão tomadas de forma muito mais cautelosa do que em outros momentos. Olhando um pouco mais para a frente, provavelmente as sequelas da pandemia ainda vão estar nessa incerteza, nessa insegurança, até por conta da situação financeira, que deve ser mais duradoura, e também com o comportamento do consumidor, que a gente não sabe como vai estar. Mas a gente espera que esteja trabalhando neste momento com boas evoluções do ponto de vista regulatório, de reformas (estruturais) que podem dar o impulso necessário para uma recuperação mais forte."

RECUPERAÇÃO
"Já temos um mês de recuperação. Nos indicadores de junho, olhando os antecedentes, a gente vê uma alta. Mesmo depois de dois meses de alta, ainda não é o suficiente para chegar em abril. Mas dá para dizer que tem uma tendência de retomada. Não que a gente já recuperou tudo o que perdeu. A gente fica na expectativa de julho, se esse ritmo será mantido ou se vai ter alguma desaceleração. Mas isso ainda está no campo da incerteza. Tem muita coisa trabalhando para dar incerteza. Além do ato de consumo, tem as próprias medidas de mitigação dos efeitos econômicos, que a gente não sabe como vai estar a vigência disso."

MUDANÇAS
"Já tínhamos aquela preocupação com indústria 4.0, e isso certamente será reforçado. Praticamente a totalidade das empresas tiveram mudanças do ponto de vista de trazer mais segurança em relação à covid-19. Essas medidas podem ser mais duradouras. Tem as questões de mudanças nos hábitos de consumo, e isso afeta a forma de comercialização. Tem uma forma online mais massiva que provavelmente será mais duradoura. Algumas pesquisas mostram que a própria escolha (na hora da compra) deve sair diferente da pandemia. Se a pessoa não está mais interessada em certo tipo de produto ou em menos quantidade, isso vai acabar mudando a indústria nesse sentido. A relação do teletrabalho também. Na indústria, isso é mais difícil, muitas vezes, mas ainda assim isso é uma mudança que tende a ser duradoura, que já vinha acontecendo de certa forma no que era possível."

LIDAR COM ADVERSIDADES
"É uma crise diferente, mas infelizmente não é a primeira crise, então essa flexibilidade, essa necessidade de lidar com muitas adversidades é uma característica que o empresário brasileiro precisa ter para sobreviver. Se a gente olha para o nosso sistema tributário, que é absolutamente nocivo – e a gente precisa conviver com ele e esperamos que não por muito mais tempo –, só por conta disso o empresário precisa uma certa dose de flexibilidade para conseguir lidar." 

André Nunes de Nunes, economista-chefe da Fiergs

Economista-chefe da FIERGS, André Nunes de Nunes. <!-- NICAID(14560910) -->
Foto: Dudu Leal / Divulgação

ENSINAMENTOS
"Uma das lições é a não concentração das cadeias produtivas. É necessário, para quem tem fornecedores externos, conseguir diversificar e pensar em alternativas para esse mercado. Outra questão é essa descentralização do trabalho, a possibilidade de trabalho remoto. Muitas empresas eram relutantes e hoje em dia veem que podem contar com essa estrutura mais descentralizada. Isso tende a trazer ganhos e oportunidades para vários setores. Todos os segmentos vão perceber uma mudança de tendência a partir disso. Outra coisa que a gente pode sentir efeito, no curto prazo, é que a gente terá aumento do custo da matéria-prima. A gente sai dessa pandemia com o real mais desvalorizado em relação ao dólar. As indústrias venderam seu estoque durante a pandemia – as que tiveram demanda – e, quando voltarem a produzir, vão ao mercado comprar insumos e, provavelmente, isso terá custo maior. Talvez a gente veja uma mudança de preços relativos, o próprio rearranjo das cadeias internacionais. Então, a gente pode ver nos próximos anos produtos industrializados ganhando um pouco de preço em relação ao que se tinha perdido nos últimos anos."

CONCORRÊNCIA
"A indústria está sempre exposta à concorrência, seja com os bens importados, seja com produtos fabricados em diversas regiões do país, seja concorrência externa. Então, esse segmento acaba vivendo muito mais intensamente as mudanças e acaba também sendo pressionado até mais na fronteira de inovação do que outros setores mais protegidos. Quando a gente fala em manufatura, bens, a gente tem essa batalha sendo travada todo dia na gôndola do supermercado ou em site de compra ou nas concessionárias de veículos. A gente vai ter a necessidade de se adequar rapidamente às mudanças e, principalmente, mudanças em termos de preferência dos consumidores em uma situação em que a capacidade financeira das empresas está muito combalida. Ao mesmo tempo em que a gente vai precisar reativar atividade, fazer investimentos, planejar produtos, novos projetos, em um ambiente em que a situação econômico-financeira das companhias não está do mesmo jeito."

TENDÊNCIA DE REFORMAS
"A gente vem num período que, depois de uma década sem ter crescimento no PIB e recessão atrás de recessão, a gente aprendeu a necessidade de fazer reformas que melhorem a competitividade e a produtividade. Esse setor é muito suscetível a essa baixa competitividade brasileira. Então, acredito que nos próximos anos a gente vai continuar com essa tendência de fazer reformas que aumentem a competitividade e melhorem a produtividade. Portanto, vejo um período melhor para a indústria. As últimas décadas não foram boas. O setor perde muita participação no PIB, nas exportações, vem com dificuldade de competir por conta de aumento de custos do mercado interno, muita burocracia, pouco treinamento da mão de obra, taxa de câmbio muito valorizada. Parece que agora, tendo um pouco mais de cuidado com as finanças públicas, o juro fica mais baixo, o câmbio acaba sendo mais favorável e, junto com isso, a gente começa a conversar sobre reforma tributária, o Estado um pouco mais leve. A tecnologia vem também para nos ajudar, para que o Estado consiga diminuir esses custos. Tudo isso começa a criar um ambiente que a gente pode imaginar uma próxima década com recuperação do setor."

PIOR JÁ PASSOU
"O pior em termos de impacto na atividade ficou em março e abril. A gente já vê maio e junho com uma retomada, claro que ainda com queda em relação a 2019. Mas numa visão otimista, que a gente consiga manter esse ritmo de recuperação, já em 2021 a gente vai recuperar o patamar pré-covid. A indústria ainda não tinha recuperado o pico da crise de 2014, 2015 e 2016. A gente vai voltar ao patamar pré-pandemia e, talvez, ao longo da década, consiga recuperar o pico e continuar avançando."

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