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Crise13/07/2020 | 05h55Atualizada em 13/07/2020 | 05h55

Pandemia fecha as portas de tradicionais estabelecimentos de Caxias do Sul

Alguns mantêm a esperança de retornar quando o pior passar

Pandemia fecha as portas de tradicionais estabelecimentos de Caxias do Sul Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Prestes a completar quatro meses do distanciamento social imposto em Caxias do Sul devido à pandemia de coronavírus, as notícias de fechamento de estabelecimentos começam a surgir com frequência acima do normal – efeito da doença que atormenta o país desde março. Serviços tradicionais da cidade encerram as atividades, alguns na esperança de retomar quando a crise passar, e outros para não mais abrir as portas. 

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Entre os setores que mais vêm sentindo os impactos econômicos das medidas de isolamento está o gastronômico. Não há dados oficiais, mas a estimativa do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria (Segh) é de que pelo menos 20 restaurantes fecharam nos últimos meses em Caxias. Empreendimentos consolidados, com décadas de atuação, como Marianinha, Vivacce e Colina Grill, não resistiram e serviram, nas últimas semanas, as últimas refeições.  

— A dificuldade é grande, falta crédito, tem as trocas de bandeira (do modelo de distanciamento social do governo do Estado). O movimento caiu para 30% durante o dia e para 10% à noite. Não vejo muito futuro até acabar a pandemia, até descobrirem uma vacina — lamenta Vicente Perini, presidente do Segh. 

Embora o cenário seja desanimador para os bares e restaurantes, Perini não imaginava que o número de estabelecimentos fechando fosse tão alto. 

— Achei que ia passar logo. Primeiro disseram que ia durar um mês, depois dois, agora dizem que o pico será no fim de julho. A questão de não termos aulas presenciais nos prejudica também, porque as famílias estão em casa. Eram clientes que perdemos. Tem também os hotéis, onde a ocupação não chega a 10%. E as casas noturnas, fechadas desde março, que não se sabe o que vai acontecer com elas — complementa. 

Entre abril e junho, nove empresas solicitaram desligamento da Associação das Empresas de Pequeno Porte da Região Nordeste do RS (Microempa) por encerramento das atividades. Algumas delas, segundo a presidente da entidade, Luiza Dutra Colombo, são do ramo de eventos – também fortemente impactado pela pandemia. São negócios que não conseguiram se adaptar ao cenário e perceberam que não iriam suportar o baque. Por outro lado, pelo menos 100 associados obtiveram empréstimos, o que possibilitou a permanência no mercado.

— Temos parceria de longa data com o Sicredi, que foi o único banco que chegou perto da realidade das empresas. Elas não estavam conseguindo com os bancos, que querem garantias que as pequenas empresas não têm para dar. Era uma queixa, se sentiram desamparados — conta Luiza.  

Outro segmento que sofre com a crise é o comércio. O Sindilojas Caxias ainda não tem números de estabelecimentos fechados nos últimos meses, mas as baixas são perceptíveis, segundo a presidente da entidade, Idalice Manchini. 

— A gente vê que quem tem duas unidades está fechando uma. Tem lojistas dando um tempo até o final do mês para ver se fecham de vez ou não. São muitas incertezas. Do comércio não essencial, vai fechar 10% — estima. 

Dados preliminares

Oficialmente, o número de empresas abertas entre janeiro e maio deste ano é maior do que a de estabelecimentos fechados. Foram 4.002 novos CNPJs no período contra 1.549 baixas, conforme dados divulgados pela Receita Federal. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o saldo fica muito próximo, já que foram 2.233 abertas até o fim de maio de 2019.

Os números não mostram, até agora, impacto da pandemia. De março a maio, 886 negócios encerraram as atividades enquanto o mesmo período do ano passado registrou 1.071 fechamentos. Ou seja, houve menos empresas fechadas nos três meses deste ano, entre março e maio. 

No entanto, os dados positivos podem não refletir necessariamente a realidade. Como o processo de baixa de uma empresa é burocrático, pode levar meses para que ela conste nas estatísticas. 

— Os números reais devem aparecer a partir de agosto — estima Gilnei Lafuente, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico. 

Foto: Arte Pioneiro / Agência RBS

Projetos

A prefeitura prepara projetos de lei voltados para a atividade econômica como forma de minimizar os impactos da pandemia. As propostas estão em fase de elaboração e devem ser enviadas à Câmara de Vereadores no início do próximo mês. 

SINDI STORE

Na quarta-feira passada, o Sindilojas lançou o Sindi Store, e-commerce que reúne diferentes lojas da cidade. A plataforma de compra e venda já tem adesão de cerca de 100 empresas. O endereço é sindistore.com.br.

Filial fecha depois de meio século

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 08/07/2020 -  Diversos negócios encerraram as atividasdes durante a pandemia de coronavírus. (Marcelo Casagrande/Agência RBS) (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14540763) -->
Rui e Rossano Boff decidiram fechar filial da Avenida Júlio e manter apenas matriz da Spataria Caxiense que fica na Rua SinimbuFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Rui e Rossano Boff tentaram manter abertas as portas da filial da Sapataria Caxiense na Avenida Júlio de Castilhos, mas não conseguiram. Com a queda nas vendas pela metade por causa da pandemia e a consequente dificuldade em manter o pagamento do aluguel do espaço, pai e filho tiveram que tomar a difícil decisão de fechar a unidade que já estava naquele ponto há 52 anos — a empresa familiar tem mais tempo, 73 anos de fundação. 

— Espero que se torne um ponto de referência, que as pessoas digam: "é ali na Sapataria Caxiense" — diz Rossano.

O fechamento da filial estava marcado para 30 de junho, mas foi antecipado para o dia 13 do mês passado devido ao anúncio de troca de bandeira — o governo estadual havia comunicado que a Serra entraria na bandeira vermelha na semana seguinte, o que previa a não abertura do comércio. 

A matriz, na Rua Sinimbu, permanece aberta. O fato de o prédio ser próprio facilita. Algumas medidas precisaram ser tomadas para garantir a sustentabilidade do negócio. O horário de atendimento reduziu, das 9h às 17h30min, e os funcionários foram divididos em equipes: uma turma trabalha pela manhã e outra à tarde. 

— Quem sabe a gente não reabre, em outro lugar, mas agora vamos fortalecer essa aqui (da Sinimbu) — completa. 

A Sapataria Caxiense foi fundada em 1947 por Mario Boff e Gentila Scur Boff, avós de Rossano. A primeira loja ficava na Avenida Júlio, esquina com a Moreira César, em São Pelegrino, onde hoje é a loja Rei da Música. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 05/05/2014. Fotos dos casarões da Av. Júlio de Castilhos, entre as ruas Garibaldi e Borges de Medeiros. A pauta é sobre a adequação dos casarões em relação à lei contra poluição visual no centro de Caxias. Na foto, fachada da Sapataria Caxiense. (Diogo Sallaberry/Agência RBS)Indexador: Diogo Sallaberry<!-- NICAID(10460816) -->
A unidade da Júlio, bem no Centro, em 2014Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Dúvidas levaram ao encerramento do Vivacce

Fechar as portas por causa de uma crise sanitária não era bem o fim que Luiz Adão Merlin imaginava para o Vivacce. Na verdade, ele sequer cogitava encerrar as atividades do restaurante que mantinha com a esposa Gemanir Merlin, a Mani, há duas décadas na praça de alimentação do Shopping Prataviera. 

— Foi uma das piores decisões da minha vida, metade da minha vida foi lá. É uma sensação estranha, difícil, dolorosa. Uma coisa ruim — lamenta. 

O fechamento foi forçado pelo baixo movimento, que reduziu de 80% a 90%. Para se ter ideia, o Vivacce servia de 150 a 170 almoços por dia antes da pandemia. 

— No modelo servido pelo garçom, se entra na intimidade das pessoas. Cada um gosta de arrumar o prato do seu jeito, isso gerou uma dificuldade — aponta Merlin.

O casal quer retornar "quando tudo isso passar", mas em um novo formato, que eles ainda não sabem bem como será. A retomada vai depender do chamado "novo normal". 

— Pretendemos voltar ao mercado, mas não com um restaurante daquele tamanho. O novo amanhã vai ser diferente. Os hábitos vão mudar, o cliente vai ser mais exigente. Os restaurantes serão mais cobrados. As pessoas também vão almoçar mais em casa — imagina Merlin. 

— O novo restaurante com bufê será diferente. Não sei dizer como, mas vem diferente. Foram essas dúvidas que nos levaram a fechar — completa. 

O Vivacce abriu em 1º de julho de 1999 e fechou em 30 de junho, exatos 21 anos depois. 

Restaurante Vivacce, no Prataviera, fechou as portas. <!-- NICAID(14541669) -->
Vivacce funcionou por 21 anos no PratavieraFoto: Luiz Adão Merlin / Divulgação

Clientela ficou órfã

No sábado, dia 27 de junho, como fazia diariamente há 13 anos, Maicon Busnelo foi almoçar no Colina Grill. Na saída, os proprietários o chamaram para se despedirem, afinal, o restaurante fecharia em definitivo no dia seguinte e eles sabiam que Busnelo não iria porque não trabalha aos domingos. 

— Comecei a chorar e disse que não ia me despedir. Dei as costas e respondi: "até segunda" — conta, emocionado.

Cliente fiel do restaurante da Rua Professor Marcos Martini, no Colina Sorriso, desde que começou a trabalhar na Tramontina (loja ao lado) em 2008, Busnelo ficou muito abalado com a notícia de fechamento. 

— Criei uma amizade com eles. A sensação é de que estou perdendo algo da minha vida — diz. 

Afetado pela crise provocada pelo coronavírus, o Colina serviu o último almoço no dia 28 do mês passado. A família Ferro já tinha a intenção de encerrar as atividades, mas não tinha data ainda. A redução de 70% no movimento em função da pandemia acelerou a tomada de decisão. Foram 24 anos de atuação. 

O restaurante foi fundado por Antônio Octávio Ferro, o Toninho Ferro, já falecido. Ele era sócio de outro tradicional restaurante que não existe mais, o Gianella. Quando deixou a sociedade, montou o Colina Grill. 

Além das seis pessoas da família que tocavam o negócio, o restaurante empregava 12 pessoas. O prédio próprio da família, de 1,6 mil metros quadrados, será alugado para uma rede de supermercados.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 08/07/2020 -  Diversos negócios encerraram as atividasdes durante a pandemia de coronavírus. (Marcelo Casagrande/Agência RBS) (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14540777) -->
Restaurante Colina fechou após 24 anos servindo todos os dias do anoFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Unidade com atividades suspensas

Com duas unidades em Caxias do Sul, o restaurante Qualitá resolveu fechar uma elas por causa da crise gerada pelo coronavírus. O ponto da Os Dezoito do Forte não atende desde 16 de junho. Mas o encerramento é temporário. A unidade será reaberta, só não há data ainda. O retorno depende da melhora do cenário provocado pela pandemia. 

Por enquanto, o Qualitá está atendendo somente no restaurante da Pinheiro Machado. O bufê está suspenso como medida de segurança para evitar o contágio. 

— Estamos servindo só a la carte e está bem interessante, está tendo bom movimento — diz o gerente Gustavo Misturini. 

A partir desta terça-feira, o Qualitá irá oferecer também telentrega de pizzas à noite, de terça a sábado, das 18h às 22h30min. É a primeira vez que o restaurante trabalha com pizzas e delivery. 

— A expectativa é muito grande. Estamos com a estrutura 100% pronta. E os clientes já estão perguntando quando começa porque querem fazer pedidos — anima-se Misturini. 

QUEM JÁ FECHOU AS PORTAS EM CAXIAS

Sapataria Caxiense: após 52 anos no mesmo ponto, filial na Avenida Júlio de Castilhos fechou, no dia 13 de junho. Empresa familiar mantém agora apenas a matriz, na Rua Sinimbu.

Qualitá: unidade da Rua Os Dezoito do Forte está fechada temporariamente desde o dia 16 de junho. Intenção é reabrir quando a crise passar. Unidade da Rua Pinheiro Machado permanece aberta. 

Cabanha’s Churrascaria e Grelhados: o restaurante na Avenida Júlio Castilhos, em frente ao Parque Cinquentenário, fechou após 16 anos de atuação na cidade. 

Dom Giácomo: o restaurante na Rua Vinte de Setembro encerrou as atividades por tempo indeterminado. O anúncio foi feito no dia 17 de junho. 

Vivacce: restaurante do Shopping Prataviera encerrou as atividades no dia 30 de junho, 21 anos após a abertura. Proprietários não descartam retomada quando a pandemia passar, porém, em local menor. 

Colina Grill: estabelecimento do Colina Sorriso serviu o último almoço no dia 28 de junho. Fechamento já era planejado pelos donos, mas a crise acelerou a decisão em encerrar o negócio. Foram 24 anos de atuação. 

Marianinha: o tradicional restaurante da Rua Garibaldi esquina com a Sinimbu, no Centro, com 54 anos de história, encerrou as atividades no dia 13 de junho. O Marianinha chegava a servir 270 almoços nos “bons tempos” de movimentação, há cerca de dois anos, mas a pandemia reduziu o movimento em cerca de um terço. Como a família já vinha repensando o negócio, a crise acelerou o processo. Entre os pratos mais aclamados do Marianinha, o destaque era o sagu, receita do fundador Luis Antoniazzi Neto. Nesta segunda-feira, completou um ano da morte de Antoniazzi.

Dall’Onder Axten Hotel: localizado próximo ao Shopping Iguatemi Caxias, fechou as portas no dia 9 de abril. Cerca de 50 funcionários foram demitidos. O prédio foi devolvido para a construtora e agora será administrado por outra rede hoteleira, a Travel Inn. A retomada do empreendimento está prevista para a segunda quinzena de agosto. 

Hotel Samuara: fechado temporariamente desde maio. O hotel é arrendado pelo grupo Sky, de Gramado. O plano dos administradores é retomar o atendimento em outubro.

La Boom Snooker e Pittsburgh Bistrô Pub Restaurante e Hamburgueria: localizados no bairro São Pelegrino, encerraram as atividades em definitivo. Estavam fechados desde março pelo tipo de registro, como bar e boate, cujas operações estão proibidas por decreto. Sem perspectiva de liberação por conta do avanço da pandemia e sem conseguir renegociar o aluguel dos espaços, que, somados, ocupavam uma área de 800 metros quadrados, a família que administrava os negócios resolveu entregar as chaves no mês passado, depois de 13 anos de atividades. Oito funcionários foram demitidos com o fechamento dos locais.

Mississippi Delta Blues Bar: após quase 14 anos de atuação na noite caxiense, o Mississippi anunciou o encerramento das atividades no final de abril. O bar já estava fechado desde 17 de março após publicação do decreto municipal que suspendeu o funcionamento dos serviços não essenciais.

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