Os reflexos da pandemia e da estiagem para o agronegócio em Caxias do Sul - Economia - Pioneiro

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Agricultura03/07/2020 | 21h14Atualizada em 03/07/2020 | 21h14

Os reflexos da pandemia e da estiagem para o agronegócio em Caxias do Sul

Ano de 2020 trouxe dificuldades e pontos positivos para produtores locais

Os reflexos da pandemia e da estiagem para o agronegócio em Caxias do Sul Antonio Valiente/Agencia RBS
Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

A pandemia do novo coronavírus interferiu economicamente em diversos setores e não foi diferente no agronegócio. No entanto, apesar de todas as dificuldades que o período de pandemia impõe, é bem possível que o setor termine o ano em alta. Pelo menos é o que indica um estudo da consultoria Cogo – Inteligência em Agronegócio. 

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Na Serra, este cenário não se apresenta tão otimista, mas o segmento deve terminar 2020 como um dos poucos que escapará dos enormes prejuízos que a pandemia tem gerado para a economia.

Além dos efeitos das restrições da covid-19, 2020 também está marcado no meio do agronegócio da região por conta de uma estiagem forte no início do ano. Ainda assim, há uma avaliação positiva dos prognósticos no ano. 

— Apesar da seca que tivemos, a nossa colheita não foi das piores da fruticultura. Se colheu menos, mas uma fruta de boa qualidade, com o teor de açúcar elevado e bem gostosa. As outras regiões tiveram problemas bem maiores que os nossos. Claro que tivemos prejuízos, porque quando se produz menos, se vende menos — avalia o titular da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Smapa) de Caxias do Sul, Valmir Susin.

Ele explica o desempenho de outro setor:  

—  Nos hortigranjeiros, tivemos boa produção. Não tivemos praticamente falta de produtos para abastecer a Feira do Agricultor, da nossa Ceasa e da Ceasa de Porto Alegre. Apesar da seca, tivemos um resultado mais ou menos bom. 

Para o secretário, a pandemia não afetou tanto o agronegócio da região pela essencialidade dos alimentos na mesa de todos. Como a base foi feita de maneira adequada na maioria dos produtores, os prejuízos são diminuídos com uma boa estratégia e preparação. 

— Tivemos alguns produtores que tiveram pouca água. Esses tiveram bastante prejuízo. Mas aqueles que tiveram o armazenamento de água e os açudes e que puderam irrigar tiveram uma boa produção e seguem abastecendo nossa região e boa parte do Estado — comemora Susin, contando sobre um trabalho feito para levar ainda mais qualidade ao campo: 

— Vamos fazer um projeto junto com o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para levar mais tecnologia para aqueles produtores que mais precisam, para que eles também possam crescer e tenhamos um nivelamento na qualidade da produção. 

Para o pós-pandemia, a expectativa de uma melhora no setor anima. No entanto, como alerta Susin, é preciso atenção: 

— Esperamos que no próximo ano não tenhamos tantos problemas. Mas as previsões é de que vamos ter uma nova seca na próxima safra. Isso é uma preocupação que nós temos, e temos que nos prevenir por causa disso. A agricultura da região, se não tiver água, não terá produção. 

Alternativa para fugir da crise

A pandemia refletiu diretamente para os associados da Cooperativa de Agricultores e Agroindústrias Familiares de Caxias do Sul (Caaf). O motivo: o público principal “sumiu”. 

– Para nós, foi um baque muito grande. De uma hora para outra, perdemos quase 70% do nosso mercado. A nossa cooperativa tem 280 associados, basicamente de hortifrutigranjeiro, e o destino é quase todo para escolas e prefeituras, para alimentação escolar. Depois têm hospitais, quartéis e outras pessoas, mas de menor volume – diz o gerente da Caaf, Marcos Regelin, que explica como está o processo para a entidade: 

– Fecharam as escolas e não teve mais aula (presencial), e nós estamos em diversas cidades entregando. Então, tivemos muita dificuldade. Se demorar muito mais tempo, vai ser ainda mais difícil, porque os custos são altos. 

A estiagem do início do ano não chegou a derrubar o setor. No entanto, a entidade precisou se adaptar com as variações de 2020, segundo conta Regelin: 

– A estiagem reduziu a oferta, mas fomos buscar. Em um primeiro momento, ela inflacionou os produtos, mas tinha trabalho, tinha mercado. Depois, se perdeu esse mercado, além de ter pouca produção. E aí começaram os problemas. Agora tem bastante produção, mas não conseguimos a totalidade do mercado que tínhamos.  

Para encarar a pandemia, a alternativa da Caaf foi buscar consultoria com entidades. A partir disso, veio a criação de uma plataforma junto da Emater e Sebrae. Através do site Feira em Casa, há possibilidade de os consumidores comprarem cestas com produtos da região.  Mesmo que não tenha solucionado todo o problema, a plataforma já abriu horizontes. 

– Isso está nos dando uma boa aliviada, sim. É importante para nós. E além disso, estamos indo em busca de outros mercados. Indo para licitações, pregões eletrônicos e tentando vender os produtos dos nossos agricultores – afirma Regelin, que mostra algumas ações já tomadas na busca de recuperação: 

– Fizemos um estoque grande de maçã, pois tivemos uma boa produção. Vendemos boa parte disso para mercados do centro do país e da Bahia, exatamente para conseguirmos aliviar um pouco os prejuízos.   

Queda acentuada no PIB do setor

Passada a estiagem e com algumas aberturas na pandemia, é hora de contar os prejuízos de quem produz e as perspectivas de futuro. Segundo o coordenador da Diretoria de Agronegócios da Câmara da Indústria e Comércio (CIC) de Caxias do Sul, Evandro Lovatel, baseado nas informações da Emater-RS Caxias e da Smapa, as perdas na região no primeiro trimestre assustaram.

— Algumas culturas tiveram grandes prejuízos. A beterraba, algo em torno de 40%, cenoura, 50% da produção. Brócolis, couve-flor, em média 30% a menos. Até mesmo o aipim, que é uma raiz seca e parece que não precisa água, ainda assim perdemos 25% — destaca Lovatel.

Ele alerta para o custo disso no total:

— Se olhar toda essa situação, nós tivemos uma perda de PIB do agronegócio, só de Caxias do Sul, de mais de R$ 100 milhões. É um valor altíssimo.

No período da estiagem, Lovatel destaca que nem sempre ter as condições de receber a água dificultou: 

— Quem tinha estrutura para irrigação, perdeu uma média de 20% da produção. Às vezes, havia a estrutura, mas não havia a água. Quem não tinha essa condição, perdeu em uma média de 60%. 

Para ele, será necessária uma evolução no próximo período para tentar compensar tudo que esse tempo entre estiagem e pandemia afetou o setor.

— Muita gente teve uma parada de 80% da entrega dos produtos. Até 90%, em certos casos. Nem todos têm acessos para entregar os produtos em mercados ou minimercados — afirma Lovatel.

Ele conclui que o maior risco da crise afetar estará no futuro:

— O reflexo na economia nós vamos sentir de agora em diante. É dinheiro que não está circulando, que não está se empregando em mão de obra ou em novas tecnologias. Tudo acaba enfraquecendo a economia não só no curto prazo, mas no médio e longo prazo.

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