O futuro da economia: como serão as novas formas de trabalhar após a pandemia - Economia - Pioneiro

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Especial02/07/2020 | 07h00Atualizada em 02/07/2020 | 07h00

O futuro da economia: como serão as novas formas de trabalhar após a pandemia

O que trabalhadores devem esperar e como empresas vão se reestruturar na retomada

O futuro da economia: como serão as novas formas de trabalhar após a pandemia Antonio Valiente/Agencia RBS
Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Em circunstâncias normais, as transformações no mercado de trabalho se reduzem à movimentação de contratações e desligamentos. Tudo gira em torno do índice do desemprego e na preocupação de melhorá-lo. Com a pandemia do coronavírus, não há perspectiva otimista nesses dados, pelo menos para este ano. De março a maio — no período da pandemia — , o Brasil registrou saldo negativo de 1.487.425 em vagas de emprego formal. 

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Isso num cenário de total incerteza de quando a curva da economia começará a mudar de curso. O risco de demissão iminente e maior dificuldade para reinserção no mercado de trabalho para quem já estava desempregado são os cenários mais óbvios como consequência do contexto. Mesmo para os que permanecem em plena atividade, muita coisa mudou, e o desafio é conseguir lidar com isso.

— Num primeiro momento, tivemos esse choque, fomos empurrados para isso, não nos estruturamos, não nos preparamos, e isso gera angústia, gera medo. Mas ao longo do que vamos aprendendo e nos adaptando, isso tudo vai se clareando e tornando-se uma oportunidade de repensarmos as nossas profissões — avalia a supervisora de Desenvolvimento Humano, Denise Maschio.

Como cada setor vai reagir após a pandemia ainda é uma incógnita, tal como o mercado de trabalho vai se postar na nova conjuntura econômica. A quarta reportagem da série O Futuro da Economia busca saber como os elementos que despontam devem influenciar numa nova realidade e mentalidade de trabalhadores e empresas, buscamos a opinião de dois especialistas em Recursos Humanos: o professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) Business School, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e palestrante do Encontro Sul-Americano de Recursos Humanos (ESARH), Cláudio Queiroz, e a supervisora de Desenvolvimento Humano do Grupo Bertolini e integrante da Associação Serrana de Recursos Humanos (ARH Serrana), Denise Maschio.

Confira os destaques das projeções que ambos fizeram para o cenário pós-pandemia do mercado de trabalho. 

"Corona antecipou reflexão sobre carreiras"

CLÁUDIO QUEIROZ: professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) Business School, da Fundação Getúlio Vargas e palestrante do Encontro Sul-Americano de Recursos Humanos (ESARH).<!-- NICAID(14534331) -->
Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Confira o que Cláudio Queiroz pensa sobre o futuro do mercado de trabalho

CONSUMO INFLUENCIANDO EM CARREIRAS
"O comportamento do consumidor vai afetar nas carreiras, vai afetar existência de alguns empregos e empresas. Muita gente que ficou em casa e fez mais comida, algumas delas perceberam que algumas coisas que pagavam muito caro não vão mais querer pagar, até porque muitas rendas familiares diminuíram. Deve haver impacto por exemplo em restaurantes. Pessoas podem não jantar fora tão frequentemente, como também podem passar a refletir sobre o consumismo: será que preciso daquela roupa nova? Será que preciso trocar de carro? E isso vai remodelar a economia e forçar pessoas a mudar de profissão ou as empresas a diminuírem de tamanho, o que deve incentivar também o empreendedorismo." 

TRABALHO REMOTO E EFICIÊNCIA RELATIVA
"Só tem gente falando coisa positiva do home office, mas desconsideram que o ser humano gosta de contato social. Nem todo mundo consegue se adaptar a esse processo de estar afastado do seu grupo de trabalho. É óbvio que numa pandemia é fácil convencer todo mundo, mas tem gente que funciona melhor na convivência. E também muitas funções que precisam de acesso à estrutura da empresa. Também há o aspecto das empresas que, por causa do home office, querem acabar com horas de trabalho e passar a tratar por relação de produtividade. Estabelece uma meta, o tempo que você vai levar é por sua conta. Isso demanda responsabilidade e autogestão dos trabalhadores. Os gestores já vivem esse mundo, mas no mercado de trabalho tem muita gente que precisa de uma pessoa controlando. Por outro lado, temos setores que conseguiram comprovar que funcionam no sistema remoto, como por exemplo educação e saúde. Por que eu preciso ir no médico da cidade onde eu moro? As profissões ampliarão seu leque de atuação se conseguirem trabalhar com tecnologia e poderão oferecer os seus serviços para todos os lugares."

PRESTADORES DE SERVIÇO
"O mundo empresarial vai pressionar o Congresso para alterar novamente a nossa legislação trabalhista, para que tenhamos leis mais flexíveis. Justamente para possibilitar o contrato sem vínculo empregatício. Isso vai fazer aumentar o número de prestadores de serviço, pessoas que deixarão de ser empregadas e prestarão um serviço. Essa ideia começou em 1990, quando tivemos o lançamento do conceito "Você SA", no qual você é responsável por sua carreira e, na época, também foi ocasionado porque muitas pessoas foram demitidas. A tendência é aumentar o número de empresas estimulando esse pensamento da contratação de serviços." 

PAUSA PARA REPENSAR
"As pessoas não faziam mais pausas. O coronavírus trouxe momento para as pessoas refletirem e ressignificarem o sentido da própria vida, e nisso o trabalho vem junto. Algumas pessoas vão decidir que não vão trabalhar tanto quanto estavam trabalhando, que não vão mais se submeter ao que estavam se submetendo, que não querem mais ganhar o que estavam ganhando. Vamos ter quantitativo muito grande de pessoas que vão fazer revisões do tipo ''eu trabalhava num ambiente que era muito desrespeitoso e desgastante" e vai pensar que não quer mais gastar vida num lugar assim. Tem gente que quando chega em casa do trabalho está tão cansado que só vai dormir. E aí levanta a questão: "o que estou fazendo da minha vida?" Essa questão de refletir a própria vida sempre acontece em determinado momento, mas a pausa do coronavírus permitiu antecipar essa momento. O corona está antecipando o momento da reflexão da pessoa sobre sua carreira. E quanto mais você valoriza a sua vida, mais você valoriza a tomada de decisões da sua carreira." 

"Não vamos poder parar de aprender

DENISE MASCHIO: supervisora de Desenvolvimento Humano do Grupo Bertolini e integrante da Associação Serrana de Recursos Humanos (ARH Serrana).<!-- NICAID(14534332) -->
Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Confira o que Denise Maschio pensa sobre o futuro do mercado de trabalho

TRABALHAR EM ESTRUTURAS MAIS FLEXÍVEIS
"Muitas coisas que de dentro das empresas pareciam ainda difíceis de serem aceitas ou testadas, como a relação de trabalho home office, teletrabalho, etc, a pandemia nos obrigou a experimentar. E depois desse período, certamente essas empresas vão repensar suas estruturas e a relação das pessoas com o trabalho. Essa noção de estar dentro uma estrutura, obrigado a cumprir horário rígido de trabalho, vem sendo muito questionada, mais do que nunca agora com essa experiência que estamos tendo. A pandemia vai deixar esse legado em considerar estruturas mais flexíveis, modalidades mais flexíveis."

DIFÍCIL PARA OS MAIS VELHOS
"O problema é que nem todo mundo está familiarizado com todas as tecnologias, porque a tecnologia até então não era uma condição para exercermos os trabalhos. Mas a partir do momento que entramos nesse processo da pandemia, tivemos de aprender a fazer reunião virtual com cliente, com a empresa, conhecer aplicativos diversos. É todo um movimento de aprendizagem para uso da tecnologia que pessoas mais jovens têm mais presente, pois estão mais dentro desse contexto. Mas as pessoas mais velhas estão correndo atrás, é preciso se adaptar se quiser se manter neste mercado digital, que não é para amanhã, é para agora."

FORMAÇÃO E QUALIFICAÇÕES
"A primeira grande mudança é a própria reestruturação do processo de aprendizagem, dos currículos, da estrutura de educação em si, que também vai precisar se adaptar, pois temos um modelo de ensino de décadas, e o contexto do mundo está mudando. Entendo que a educação também sofrerá adequações para poder formar pessoas para este novo momento, pois sabemos que hoje o currículo do curso não prepara exatamente o profissional para o desafio do trabalho dele, mas isso será uma necessidade. O currículo em si, a educação formal da pessoa, de certa forma perde um pouco da relevância, por essa formação não preparar integralmente a pessoa. Então, além de uma formação acadêmica, as pessoas vão precisar manter essa postura do aprender a aprender, aprofundar os desenvolvimentos das competências necessárias para atuar no mercado de trabalho. Não vamos poder parar de aprender, diferente do modelo anterior, que era fazer faculdade e pós-graduação e acabou. Agora, além das formações, é preciso buscar, se instruir, sempre se atualizando para se manter competitivo. Se as vagas vão ser mais restritivas é preciso ter mais qualificação para buscar elas."

DÉCADAS DE EMPRESA, UM MODELO OBSOLETO
"O modelo de trabalhar longos anos dentro de uma empresa já é questionado há bastante tempo. Claro, se você fica vários anos dentro de uma organização que te oferece oportunidades de estar se desenvolvendo, ocupando posições em áreas diferentes, isso é saudável. Mas aquele modelo de ficar dentro de uma estrutura por longos anos repetindo a mesma experiência, os profissionais não têm nem mais saco para isso. As pessoas querem ter oportunidade de crescer, não necessariamente em cargos diferentes, mas em aprendizagem. A questão de a gente encontrar pessoas com 20, 30 anos de empresa, como tinha com bastante frequência, tende a diminuir, não ter relações tão longas, a não ser que a empresa consiga proporcionar um ambiente de aprendizagem contínua para essa pessoa se manter motivada dentro dessa estrutura."

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