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Especial14/07/2020 | 07h30Atualizada em 14/07/2020 | 07h30

Futuro da economia: o que mudará nos processos de produção após a pandemia

Especialistas acreditam em aceleração de automação e ascensão de startups na retomada da economia

Futuro da economia: o que mudará nos processos de produção após a pandemia Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Ao atravessar uma crise, empresas precisam se adequar à máxima do "produzir mais, com menos". Isso pode implicar diferentes cenários, desde a sobrecarga de funcionários em razão do ajuste no quadro de colaboradores, até a busca por adaptações dos processos. 

No entanto, para baratear uma produção é necessário, paradoxalmente, investir. A indústria, por exemplo, já vinha passando por transformações com a adesão crescente à automação. Para especialistas, com a pandemia, esse processo tende a se acelerar.

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Para as grandes empresas, despender recursos visando ao aprimoramento de processos é quase praxe, mas e as pequenas e médias, terão fôlego para investir? Na visão dos especialistas entrevistados para a sétima matéria da série Futuro da Economia, sim, o mercado não só deve possibilitar oportunidades como também praticamente forçará que todas as empresas se adaptem à nova realidade.

Para falar sobre o futuro da produção, conversamos com o diretor regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-RS), Carlos Trein, e o especialista em gestão da inovação e executivo do Instituto Hélice, Thomas Job Antunes.

Enquanto Trein enxerga o investimento em inovação como a alternativa para otimizar e baratear processos, Antunes destaca as startups como um meio democrático para contribuir no desenvolvimento de empresas.

A necessidade de adaptação, inclusive, segundo eles, deverá movimentar do microempresário à megacorporação, que, além de recuperar o "tempo perdido", voltam com uma nova mentalidade e a visão de que há muitos nichos inexplorados a serem preenchidos.  

Confira o que disseram os especialistas.

"Cadeias de produção cada vez mais robustas"

Carlos Trein, diretor regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI-RS).<!-- NICAID(14544081) -->
Foto: Dudu Leal / Divulgação

Carlos Trein: Diretor regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-RS)

REPOSICIONAR-SE

"As empresas estão cientes de que precisam mudar, às vezes, inclusive o seu produto. Viram nessa crise oportunidades em determinadas situações. Teve uma falta incrível de EPIs (equipamentos de proteção individual), pois tínhamos facilmente produtos vindos de outros países, fundamentalmente da China, então a indústria parou de produzir algumas dessas coisas, como máscara, álcool gel e assim por diante. Várias empresas nos procuraram (Senai), inclusive, para reposicionar suas linhas de produção para produzir equipamentos ou sistemas que sejam necessários no atual momento. Percebemos que, na pandemia, faltaram insumos para coisas simples, mesmo equipamentos para área de saúde. O exemplo mais emblemático são os ventiladores pulmonares, que são poucos produzidos no país e que a China não tem produção. Nem a China, que é a China, conseguiu suprir o mercado mundial. Fazer um ventilador requer atendimento a uma série de requisitos extremamente rígidos que pouquíssimas empresas nacionais têm. A empresa que tem uma afinidade com essa área pode entrar nessa lacuna e produzir equipamentos médicos."

INOVAÇÃO PARA BARATEAR

"Eu acho que a maioria das empresas que sobreviverem terão, sim, fôlego financeiro para investir em inovação (após a pandemia). Até porque a ideia (aderir à tecnologia) é, ou para produzir mais, ou para diminuir custos. Oquêi, sempre requer investimento, mas podem ser investimentos pequenos para modernizar processos e com isso diminuir o custo da produção, aumentar a produtividade do processo ou melhorar alguma característica ou requisito, como diminuição de erros de processo, melhorar controle de qualidade ou segurança da produção. Ninguém vai fazer essa transição de incorporar alguma tecnologia se isso não trouxer ganho real, que tem de estar alinhado com desejo da empresa."

REALOCAÇÃO DE MÃO DE OBRA

"Normalmente, se coloca que a indústria 4.0 vai desempregar. Se ela for empregada com esse objetivo, sim. Mas a gente conhece empresas, como a Tramontina, que está hoje num nível em algumas de suas fábricas em nível de tecnologia de 4.0 e não desempregou por causa disso, pois redirecionou pessoas para outras áreas. Existe possibilidade de automação, mas sem necessidade de desempregar, pelo contrário, vão requerer outros profissionais, com outros perfis, para desenvolver novas aplicações. Normalmente, essas tecnologias geram uma infinidade de dados, que precisam ser analisados para virar informação. Portanto, surgirão novas ocupações, novas profissões, e os profissionais precisarão desenvolver novas habilidades. Existem ocupações que deixarão de existir. O soldador é uma operação que vai decair. O ser humano precisa de um aparato de segurança tão grande às vezes, que fica mais prático substituir por máquinas, por sistemas automatizados, por sistemas de soldagem."

CADEIAS PRODUTIVAS

"Temos oportunidade, para não dizer deficiência, de repensar política industrial no nosso país, para diminuir dependência externa e favorecer alguns elos produtivos para que tenhamos cadeias de produção cada vez mais robustas e, com isso, enfrentar uma concorrência cada vez mais mundial. A concorrência não se dá mais de empresa por empresa, mas sim de cadeia produtiva por cadeia produtiva, é a cadeia de algum segmento brasileiro contra o equivalente chinês. Temos de fortalecer os elos que hoje são mais fragilizados, ou substituindo importações ou desenvolvendo novos produtos que substituam essas importações com vantagens."

"A tendência é de massificação da tecnologia"

Thomas Job, executivo do Instituto Hélice.<!-- NICAID(14544065) -->
Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Thomas Job Antunes:  Especialista em gestão da inovação e executivo do Instituto Hélice

ACELERAÇÃO DA INDÚSTRIA 4.0

"Independente do negócio, tudo tende a se tornar mais digital. No caso das fábricas, os processos produtivos têm a tendência muito forte à digitalização voltada à obtenção de dados e um nível maior de automação. Está se falando bastante que, com a pandemia, o futuro foi antecipado. Essas tendências de tecnologia já estavam em andamento, a diferença é que elas foram antecipadas para uma necessidade de urgência. A questão da automação e da indústria 4.0 já estava em andamento em muitas indústrias, só que agora isso vai ser antecipado por conta da necessidade emergente do distanciamento social. Só os motivos mudaram, até então, esses processos de transformação estavam em andamento por questão de produtividade, competição global, disponibilidade de tecnologia. Agora, com a pandemia, as mudanças devem acontecer de forma mais intensa."

MASSIFICAÇÃO DE STARTUPS

"A tendência é de massificação de tecnologia. E quando falamos de automação, isso gera algum receio de acesso à tecnologia ou até questão de desemprego, mas acredito que muita mão de obra vai ser realocada, como historicamente sempre acontece. Isso claro, dependerá de preparação na educação e, no caso das pequenas e médias, as startups podem estar bem vinculadas a isso. Hoje, as tecnologias que estão inseridas no processo produtivo estão bem disseminadas, sensores, a parte de análise de dados, visão computacional, etc. Muitas universidades trabalham com projetos que acabam saindo empreendedores com startups oferecendo esse tipo de solução. Acreditamos que esse tipo de solução tende a se massificar, tende a ficar mais acessível, e as startups são ótimas parceiras, justamente por serem parceiras e uma pequena empresa ao mesmo tempo."

ALTERNATIVA DE CURTO PRAZO

"Hoje, o mantra é adaptação. Não existe empresa que não esteja pensando em se adaptar, e isso requer capacidade de inovar, buscar parcerias, e justamente aí que as startups surgem como uma boa opção, tanto para pequenas empresas quanto para as grandes, pois as startups são compostas por especialistas no assunto, normalmente têm alguma origem de grande especialização na tecnologia aplicada e que propõem resultados em curto prazo, que é o que todo mundo busca, afinal, caso contrário, pode-se buscar fornecedor tradicional ou tentar fazer sozinho, sem parceria. Isso tende a demorar mais tempo, custar mais caro. Esse é o momento de buscar apoio."

FORMAR REDES

"Quanto mais parceiros, melhor. Se fala que a informação é o novo petróleo, mas, na verdade, o acesso à informação, o acesso à rede de conexões é um grande diferencial. Estar conectado em ecossistemas que te permitem saber quais são as tecnologias de ponta, os diferenciais que estão surgindo, ou que permita uma conexão com instituições de outros países que facilite uma internacionalização, (conexão) a um parceiro que saiba como desenvolver negócio ou esteja interessado em fazer negócio é fundamental. E essa regra vale também para pequenas e médias, buscar parceiros que possam indicar caminhos para a empresa crescer, se manter e até expandir."

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