Desemprego aumentou 72% entre os oito maiores municípios da Serra durante a pandemia - Economia - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Mercado de trabalho11/07/2020 | 07h30Atualizada em 11/07/2020 | 07h30

Desemprego aumentou 72% entre os oito maiores municípios da Serra durante a pandemia

Levantamento considera dados entre março e maio, índices divulgados até o momento pelo governo

Desemprego aumentou 72% entre os oito maiores municípios da Serra durante a pandemia Marcelo Casagrande / Agencia RBS/Agencia RBS
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS / Agencia RBS

Em consonância ao declínio do mercado de trabalho em todo o Brasil nos primeiros três meses de pandemia, os oito municípios mais populosos da Serra — com mais de 30 mil habitantes — totalizam fechamento de 23.350 vagas de emprego, no saldo entre contratações e desligamentos entre março, abril e maio, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, do Ministério da Economia. O número é 72,15% maior do que o total de postos de trabalho fechados em 2019, quando a região somou 6.503 baixas, e 79,7% maior do que 2018, quando a Serra registrou encerramento de 4.973 vagas de emprego.

Apesar do total significativo de 43.907 demissões no período, o índice foi inferior ao registrado no ano passado, de 45.029. A diferença é notável, entretanto, no dado referente às contratações: enquanto em 2019 foram 38.526 entre os três meses, neste ano, foram admitidos 20.557 trabalhadores na região. A retenção nas admissões simboliza justamente a paralisação econômica em razão das restrições das atividades durante a pandemia.

— O número de demissões é semelhante de certa forma, porque na mesma época, no ano passado, a economia estava abaixo das expectativas iniciais e só viria a indicar melhora no segundo semestre, tanto que terminamos 2019 na expectativa de um 2020 muito melhor, até que surgiu a pandemia... — contextualiza a coordenadora do Observatório do Trabalho da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Lodonha Maria Portela Coimbra Soares.

Entre os oito municípios, Caxias do Sul foi o que apresentou maior saldo negativo, com fechamento de 8.766 vagas, sendo 17.815 demissões e 9.049 contratações. Somente na indústria, foram 7.305 desligamentos. O setor é o que mais emprega em Caxias. Até o ano passado, comportava cerca de 68 mil trabalhadores. O segmento, que já vinha apresentando significativas baixas no mercado de trabalho da região nos últimos anos, não deve recuperar a maioria das vagas perdidas no período da pandemia, acredita Lodonha:

— A indústria vem sofrendo modificações desde 2015, aderindo cada vez mais à tecnologia e reduzindo a mão de obra física. O setor não vai contratar a mesma quantidade que demitiu. A probabilidade é de que a maioria dos desligados migre para o setor de serviços — observa.

Depois de Caxias, Vacaria é o município com maior saldo negativo: menos 6.675 vagas. Foram 3,3 mil contratações e 9.975 demissões. Historicamente, entretanto, o município apresenta baixas em patamares semelhantes no período, por ter como base econômica o agronegócio, o que torna a rotatividade igualmente sazonal às safras. Na sequência, Gramado surge em terceiro no ranking, com o fechamento de 2.696 postos de trabalho — 1.124 admissões e 3.820 desligamentos. E Bento Gonçalves vem em quarto, com saldo negativo de 2.267 vagas. Houve 2.907 contratações e 5.174 demissões no período.

POR MUNICÍPIO
EM MARÇO, ABRIL E MAIO —  3 PRIMEIROS MESES DA PANDEMIA

Caxias do Sul

Contratações: 9.049
Demissões: 17.815
Saldo: -8.766

::Setor mais afetado: Indústria. 7.305 demissões e fechamento de 4.548 vagas de emprego.
:: Segmento mais afetado: fabricação de automotores, reboques e carrocerias. 1.770 demissões e fechamento de 1.277 vagas.

Bento Gonçalves

Contratações: 2.907
Demissões: 5.174
Saldo: -2.267

:: Setor mais afetado: Indústria. 2.134 demissões e fechamento de 1.110 vagas de emprego.
:: Segmento mais afetado: moveleiro. 737 demissões e fechamento de 376 vagas.

Farroupilha

Contratações : 1.656
Demissões: 2.941
Saldo: -1.285

:: Setor mais afetado: Indústria. 1.161 demissões e fechamento de 551 vagas.
:: Segmento mais afetado: artefatos e calçadista. 170 demissões e fechamento de 104 vagas.

Vacaria

Contratações: 3.300
Demissões: 9.975
Saldo: -6.675

:: Setor mais afetado: Agropecuária. 7.545 demissões e fechamento de 5.642 vagas.
:: Segmento mais afetado: produção de lavouras permanentes. 7.447 demissões e fechamento de 5.613 vagas.

Canela

Contratações 720
Demissões 1.508
Saldo: -788

:: Setor mais afetado: Serviços. 862 demissões e fechamento de 495 vagas.
:: Segmento mais afetado: hotéis e restaurantes. 331 demissões e fechamento de 249 vagas.

Garibaldi

Contratações: 1.028
Demissões:: 1.492
Saldo: -464

:: Setor mais afetado: Indústria. 782 demissões e fechamento de 293 vagas.
:: Segmento mais afetado: fabricação de móveis. 159 demissões e fechamento de 98 vagas.

Gramado

Contratações: 1.124
Demissões: 3.820
Saldo: -2.696

:: Setor mais afetado: Serviços. 2.377 demissões e fechamento de 1.805 vagas.
:: Segmento mais afetado: hotéis e restaurantes. 1.627 demissões e fechamento de 1.350 vagas.

Flores da Cunha

Contratações: 773
Demissões: 1.182
Saldo: -409

:: Setor mais afetado: Indústria. 696 demissões e fechamento de 329 vagas.
:: Segmento mais afetado: fabricação de bebidas. 106 demissões e fechamento de 67 vagas.

O QUE DIZEM OS SINDICATOS

"Embora essa questão da pandemia traga um cenário bastante preocupante, o que eu tenho insistido é que as medidas são as mesmas por parte das empresas: não há busca para outro caminho que não seja a demissão. Se seguirmos esse caminho de demissão desenfreada, teremos ainda mais dificuldades em enfrentar a questão da pandemia e a questão econômica. Temos observado no sindicato essa propaganda do "novo normal". O novo normal não pode ser a velha política econômica, em que os trabalhadores sofram as grandes consequências. A realidade é que os empresários demitem sem levar em consideração a consequência disso. No momento que as medidas que garantem estabilidade do emprego perderem a validade lá para frente, teremos um número muito mais expressivo de demitidos." Assis Melo, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul e Região

"Os números são preocupantes. O governo (federal) precisaria subsidiar empresas para garantir emprego e entendendo que esse dinheiro também vai voltar para a economia. Mas até agora nada foi pensado para ajudar o trabalhador. A Medida Provisória (936) não teve nenhuma participação dos trabalhadores, que em muitos casos sequer tiveram a chance de escolher dentro das empresas e foram simplesmente dispensados." Ivo Vailatti, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sitracom-BG) 

Comércio

"Estamos muito preocupados com o que vem pela frente. Não era o que esperávamos, esse número tão alto de demissões, mas dentro da pandemia era possível. Temos uma preocupação muito maior de que em algum momento vão terminar os prazos da Medida Provisória 936 (de suspensão de contrato e redução de jornada e salários), e vai ser neste momento que vão começar as demissões em massa mesmo. Ou volta a economia, ou as demissões vão ser bem maiores. O empresário fala que o último recurso é a demissão, mas sabemos que não é isso que acontece. O governo federal teria de garantir recursos para as empresas para que garanta o emprego dos trabalhadores." Nilvo Riboldi Filho, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Caxias do Sul (Sindicomerciários)

Serviços

"Logo que surgiu a pandemia, os empresários do segmento hoteleiro começaram fazer demissões exageradas, foram afoitos, não esperaram o governo. A  partir de abril, diminuiu um pouco por causa da MP 936. O primeiro pensamento foi demitir, corta na carne, poderiam ter cortado mais para cima e manter o trabalhador com emprego e renda. Se tivessem esperado mais, poderiam ter aproveitado as medidas do governo." Silvano Antônio da Silva (Narizinho), diretor do Sindicato dos trabalhadores no comércio hoteleiro e similares de Gramado

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 29/04/2020. Demissões em meio a pandemia do coronavírus, geram apreensões nos trabalhadores da Serra. Foto produzida com carteira de trabalho e Epis. (Porthus Junior/Agência RBS)<!-- NICAID(14488694) -->
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Saldo da região (oito municípios mais populosos, com mais de 30 mil habitantes):

2020

Contratações: 20.557
Demissões: 43.907
Saldo: -23.350

2019

Contratações: 38.526
Demissões: 45.029
Saldo: -6.503

2018

Contratações:37.242
Demissões: 42.215
Saldo: -4.973

Na comparação
Saldo de fechamento de vagas em 2020 é  72,15% maior que o de 2019 e 79,7% maior que 2018.

Leia também
Pesquisa do Simecs apresenta melhora de indicadores de demanda e faturamento em junho
Novo decreto de Caxias, com reabertura de serviços aos domingos, divide opiniões de entidades do comércio

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros