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Inverno quase sem turistas17/07/2020 | 09h08Atualizada em 17/07/2020 | 10h42

Com economia 86% dependente do turismo, Gramado registra baixo movimento em julho

Pandemia reduz drasticamente a passagem de turistas pela cidade no inverno, considerada uma das épocas com maior apelo para atrair visitantes

Com economia 86% dependente do turismo, Gramado registra baixo movimento em julho Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Pandemia de coronavírus reduziu drasticamente a passagem de turistas por Gramado Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Uma selfie aqui, outra foto discreta de casal acolá. É quase como se turistas se sentissem intrusos na rotina da população gramadense no frio de julho de 2020. Há quatro meses, o município da Região das Hortênsias vivencia dias estranhos: ruas vazias, comércio parcialmente inoperante e a escassez de visitantes dão o ar de cidade pacata a uma estrutura acostumada a receber cerca de 6,5 milhões de turistas ao ano.

O abalo da crise acaba sendo mais perceptível em julho, quando tradicionalmente visitantes vêm à Serra gaúcha atraídos pelas baixas temperaturas. O esvaziamento dos pontos turísticos, restaurantes fechados e as lojas vazias formam um cenário atípico para quem estava acostumado a uma realidade completamente diferente.

– É bem diferente a cidade estar vazia nesta época. Na manhã (de quinta-feira), atendemos umas seis pessoas. Em épocas normais, a loja estaria sempre lotada desde a abertura – relata a gerente de uma loja de chocolates, Karina Vieira.

Cerca de 86% do Produto Interno Bruto (PIB) de Gramado são gerados pelo turismo, que contribui em mais de R$ 1,5 bilhão anualmente para a economia local. A época mais efervescente do ano é o tradicional Natal Luz, nos meses de novembro, dezembro e janeiro. Julho, entretanto, é o segundo período de maior apelo turístico e o mês que alavanca o movimentado segundo semestre da região.

– Esse período está muito abaixo. Normalmente, é muito bom pela questão do frio e as férias escolares. Em termos de movimento quase se equipara ao Natal Luz. É uma perda muito grande para nós. E se já estava complicado, essa mudança de bandeira (da laranja para a vermelha) matou de vez. Muitos cancelamentos, muita gente com medo. A nossa ocupação média histórica é sempre acima de 70% nesta época e não vamos atingir 20%, talvez nem 15% – lamenta o presidente do Sindicato da Hotelaria, Restaurantes, Bares, Parques, Museus e Similares da Região das Hortênsias (SindTur), Mauro Salles.

Turismo no inverno de Gramado em 2018 e 2019.<!-- NICAID(14546990) -->
Ruas movimentadas e lojas lotadas: situação em 2019 era muito diferente da encontrada atualmente no municípioFoto: Prefeitura de Gramado / Divulgação

Nos pontos mais simbólicos do coração da cidade, como os arredores da Igreja São Pedro, Fonte do Amor Eterno, Palácio dos Festivais, Rua Coberta e Largo da Borges de Medeiros, a movimentação é quase de passagem. A maioria dos estabelecimentos na área central opta por permanecer fechada diante da falta de turistas e das restrições impostas pela bandeira vermelha no Modelo de Distanciamento Controlado.

– As pessoas estão fugindo de aglomerações e o baixo movimento na cidade reflete esse momento. O turismo é um cluster e no momento que falta um membro desse cluster, todo ele é prejudicado. Quando uma parque deixa de funcionar, a família não reserva o hotel e, por consequência, não vai frequentar o restaurante – avalia Rafael Carniel, presidente da Gramadotur.

Após a retomada, em meados de abril, a ocupação da rede hoteleira da cidade registrou progressivamente percentuais de 10%, 16%, em maio, e 20% em junho. De acordo com o presidente da Gramadotur, a expectativa é poder alcançar 30% em julho, embora as restrições da bandeira possam reter o índice.

Restrições de funcionamento

Para Carniel, as incertezas da classificação das regiões no programa do governo do Estado desgastam ainda mais o desempenho do setor.

– É preciso haver revisão da condição do abre e fecha, o turismo já não está mais aguentando essa oscilação. Somos o segundo destino turístico do Brasil em número de habitantes e isso demandou muito investimento e mão de obra qualificada e que está tendo que ser demitida neste momento. Precisamos de um olhar especial sobre a realidade da região.

 GRAMADO, RS, BRASIL, 16/07/2020 - A cidade de Gramado está deserta, se comparar com o movimento de turistas que teria sem a pandemia de coronavírus. Comércio fechado e a tradicional Rua Coberta vazia é um cenário incomum. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14546846) -->
Tradicionais pontos de Gramado registravam baixo movimento na manhã desta quinta-feira (16)Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

– Não adianta manter hotelaria e fechar restaurante, bar. Não queremos descontrole, bagunça, mas não podemos parar totalmente – pontua o presidente do SindTur.

Estranheza para o visitante

Passeando na Rua Coberta, sem ter muito do que usufruir com relação a serviços, o casal de Guarulhos (SP), Celso Leite e Andréia Cunha, vivencia o contraste de uma outra experiência que tiveram na cidade, há quatro anos, quando escolheram Gramado como o destino para a lua de mel.

– Tivemos visões completamente diferentes. A primeira vez que viemos estava bem cheia de gente. Mas a cidade continua bonita, mesmo com todas as lojas fechadas – relata Andréia.

Embora lamentem não poder aproveitar a experiência completa, Celso, que atuava como agente de viagem e perdeu o emprego na pandemia, afirma ter empatia com a situação:

– Ficamos tristes porque imaginamos o que os donos de negócios estão passando. Bom não está para ninguém, mas para nós, por não estar lotado de gente, o risco acaba sendo menor, pois nos dá segurança com relação à contaminação pelo coronavírus. E o local que nos hospedamos nos inspira confiança e cuidado.

 GRAMADO, RS, BRASIL, 16/07/2020 - A cidade de Gramado está deserta, se comparar com o movimento de turistas que teria sem a pandemia de coronavírus. Comércio fechado e a tradicional Rua Coberta vazia é um cenário incomum. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14546820) -->
Em Gramado nesta quinta-feira (16), Celso Leite e Andréia Cunha vivenciam o contraste de uma outra experiência que tiveram na cidade, há quatro anos, quando escolheram o local como o destino para a lua de melFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Já Aline Maccari, da cidade de Itapema (SC), que visita a cidade pela quinta vez, relata que a experiência tem sido bastante diferente de todas as outras.

– Desta vez está tudo deserto. A gente dá um jeito de aproveitar, mas seria melhor se os bares e restaurantes estivessem abertos – comenta.

"Movimento caiu de 90% a 95%"

Há 25 anos no mercado, a Brocker Turismo, uma das mais conceituadas agências de turismo receptivo do Estado, amargou, desde o início da pandemia, uma retração de mais de 90% dos negócios.

– Não termos turistas, principalmente nesta época do ano de férias e inverno, é muito triste. Já não tivemos na Páscoa, quando estávamos com tudo organizado. Mas infelizmente é uma situação que o mundo está passando e temos de lidar. Nosso movimento caiu de 90% a 95% – aponta a empresária e diretora da empresa, Any Brocker.

Ela também indica a mudança de classificação do distanciamento controlado como um constante transtorno administrativo:

– Comunicar esse abre e fecha é muito sério. Além de todo o problema de chamar o funcionário, tirar de suspensão, colocar para trabalhar e depois tirar de novo. É um transtorno muito grande em termos operacionais e muito caro. Por outro lado, a imagem que fica é ruim, pois os turistas não sabem se tá aberto ou fechado. O turista que chegou no último final de semana, no início dessa semana fechou tudo e é difícil para eles entenderem.

Para o futuro, Any comenta que a empresa busca reestruturar os seus produtos. Embora tenha tradicionalmente clientes de todo o Brasil como principal público, ela acredita que o turismo regional será a alternativa para implementar uma nova estratégia para o negócio:

– Estamos focando na reestruturação dos produtos, dos passeios, principalmente tentando focar turista regional, entender o que ele busca e aprimorar essa experiência. No final de março, no início da pandemia, 80% dos clientes da Brocker Turismo remarcaram seus pacotes para 2021 e 20% cancelaram as suas vindas.

NÚMEROS

Capacidade hoteleira
:
: Gramado possui 18.258 leitos de hotéis e 8,3 mil leitos de aluguel de temporada.
:: Entre abril e junho, a cidade registrou, no máximo, 20% de ocupação.
:: A expectativa é que em julho ocorra um incremento de 30%.

Turismo em Gramado
:: Representa em torno de 86% do PIB do município (entre R$ 1,5 bilhão e R$ 1,8 bilhão).
:: Entre 6 milhões e 6,5 milhões de visitantes por ano.

Fonte: Gramadotour

Na lista de viajantes

De acordo com o site de reservas Booking.com, Gramado é um dos destinos mais adicionados em listas de viagens de brasileiros, conforme levantamento feito entre maio e junho. A plataforma permite que usuários criem relações de cidades que gostariam de visitar. Além de Gramado, Rio de Janeiro (RJ), Campos do Jordão (SP), Monte Verde (MG) e Porto de Galinhas (PE) completam o ranking.

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