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Economia27/07/2020 | 06h51Atualizada em 27/07/2020 | 06h51

As crises que venci: "É a pior das crises"

Diretora-presidente da Rede de Ensino Caminho do Saber, Maristela Tomasi Chiappin, destaca o desafio de enfrentar a pandemia para o ramo de educação

As crises que venci: "É a pior das crises" Acervo Pessoal/Divulgação
Maristela Tomasi Chiappin começou a empreender aos 17 anos Foto: Acervo Pessoal / Divulgação

A entrevistada desta semana da série “As crises que venci” é Maristela Tomasi Chiappin, diretora-presidente da Rede de Ensino Caminho do Saber e vice-presidente da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC Caxias) representando o setor de serviços. Ela representa um segmento que está entre os mais afetados pela crise atual.

Maristela destaca que a primeira crise que superou foi quando decidiu empreender aos 17 anos. Os pais tinham medo que ela pudesse fazer dívidas e Maristela teve que se emancipar. Outro desafio foi quando construiu a sede própria da rede em 2003. Além destas questões particulares ao negócio, as crises econômicas de 2009 e 2014 afetaram o setor. Mas Maristela destaca que nada se compara ao momento atual. O desafio tem sido manter e adaptar a estrutura para a retomada, sem ao menos ter uma data para isso.

Qual a primeira crise em sua trajetória profissional?

Foi em 1988, quando uma menina, lá da colônia, aos 17 anos, precisou fazer emancipação para responder pelo próprio negócio. Eu abri uma escola infantil, mas meus pais tinham preocupação de sujar o nome da família. Então eu disse que ia abrir em meu nome. Então minha primeira história de superação foi para abrir uma empresa. Aí me emancipei. Aliada à pouca idade, tinha o fato de ser mulher. Pensem há 32 anos como era o mundo empresarial. Ele era muito mais masculino. 

Como você superou estas questões de preconceito, de ser mulher, de ser jovem?  

Foi pela determinação e perseverança. Mas eu nunca encarei só pelo fato de ser mulher, mas pela importância de mostrar a seriedade e o amor pelo que vou fazer. Eu sempre busquei que a qualidade viesse em primeiro lugar e isso acabou superando muitas das dificuldades.

Quais outras crises você enfrentou atuando no setor de educação e qual foi a pior delas?

Uma outra crise bastante relevante foi em 2003, quando eu precisei buscar financiamento para construção do prédio próprio da Caminho do Saber. Pensem que foi o primeiro financiamento de uma escola privada no país.  Não existia sequer um código para o segmento de educação, para a construção de uma escola privada própria. Foi uma grande crise porque já estávamos com escolas em andamento, uma unidade em São Pelegrino e outra no Desvio Rizzo, e nós precisávamos de sede própria. Foi muito difícil de viabilizar, porque não havia histórico de alguém buscar no segmento de educação esse tipo de financiamento. A dificuldade financeira existia. Não tinha o que eu digo, “um paitrocínio”. Mostrar que o segmento de educação também precisava ser olhado, inclusive pelos bancos, foi uma crise enorme superada  Depois, a gente conseguiu fazer outro e mais outro, e hoje a Caminho conta com seus prédios próprios. E temos outras duas escolas de educação infantil que seguiram a mesma linha.

Que outras crises econômicas afetaram o segmento com a perda de renda da população migrando da rede particular para a pública?

Sempre as crises econômicas, e eu poderia citar as de 2009 e de 2014, foram significativas. A família vê a educação como algo extremamente importante. Para migrar da escola particular para a pública é quando realmente existe uma dificuldade financeira. Mas, de todas essas, a pior crise é a atual, porque agora podemos falar em crise econômica, política, social e crise de saúde. Vamos pensar que outros setores, ou com percentual reduzido, ou com abre e fecha, tiveram seus retornos graduais. Ao passo que o segmento de educação está mantendo desde março as suas portas fechadas. Trabalhando muito, sim, mas com portas fechadas. Eu diria que é a pior das crises que eu já vivi nesses 32 anos em função dessa dificuldade toda da sociedade ou da humanidade. São quatro meses sem abrir as portas. Então tem toda a preocupação da qualidade da educação, de como chegar nas famílias e até os alunos, em como manter – e aí falo na educação como um todo, não somente na Caminho do Saber – todos os funcionários nas escolas de educação infantil. Tem famílias querendo alguém para acompanhar porque retornam ao mercado de trabalho. Então é a pior das crises.

Como vocês fizeram para promover as aulas onlines em tão pouco tempo?

Foram muitas adaptações. A primeira delas eu diria que foi mais de caráter emergencial, que foi o retorno. A ideia era de que não ia durar muito tempo. Então foi uma adaptação inicial para chegarmos até as famílias, os alunos, através das aulas virtuais com videoaulas. Aí deixou de ser com caráter emergencial e passou a ser intencional. Porque veio a preocupação de garantir o aprendizado, de fato, e não somente de ensinar, repassar o conteúdo que já estava previsto para um ano normal. Veio toda uma necessidade de interações ao vivo, com ampliação desse tempo de interação para que haja suporte para tirar as dúvidas. As famílias querem saber como vai saber se, de fato, o filho vai estar sendo avaliado para comprovar que está aprendendo. A validação do ano letivo foi outro aspecto a ser superado e depois autorizado pelo Conselho Estadual e Nacional de Educação. Éramos questionados sobre o porquê de a escola continuar sendo um atrás do outro, em sala de aula, de por que a escola não se reinventa. E foi o segmento que de fato se reinventou, porque passamos do presencial para o virtual muito rápido. Não existe essa igualdade para todos irem para o virtual, mas existe a necessidade de evolução. Percebemos que as aulas virtuais deram certo. Talvez o que não dê certo é a escola virtual, porque todo ser humano precisa do social, do convívio. E, por isso, os pequenos sentem tanto, porque o jovem já lida de forma mais tranquila com o virtual.

Como superar crise assim, e qual o principal aprendizado dessa e de outras crises?

O primeiro aspecto para garantia de qualquer negócio é a qualidade, de o aluno ter o sentimento de que pertence ao grupo, se sinta parte e está agregando conhecimento. O outro aspecto é a aproximação, estar perto das famílias, porque a necessidade de cada uma é diferente. Essa percepção no segmento é que vai fazer a diferença e garantir que as famílias sintam o valor agregado. Temos famílias trabalhando em home office, ou que todo mundo voltou para o mercado de trabalho e precisa de suporte ou que perderam seus empregos... Então a aproximação com o cliente, pensando a escola também como empresa, é o que vai fazer toda a diferença.


 
 
 

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