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Artes manuais05/06/2020 | 20h34Atualizada em 05/06/2020 | 20h37

Os novos caminhos de quem vive do artesanato no período da pandemia

Um setor que precisou se reinventar e se mostrou mais forte

Os novos caminhos de quem vive do artesanato no período da pandemia Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Mara Couto faz sucesso nas redes sociais com as bonecas de pano Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Já se vão quase três meses que as medidas de isolamento e distanciamento social por conta da pandemia do coronavírus mudaram a rotina de todos. Entre as consequências deste novo momento, as pessoas permaneceram muito mais tempo de casa. 

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Como forma de passar o tempo confinada no lar, teve gente que investiu em exercícios em casa, outros colocaram leituras e séries em dia. No entanto, um número cada vez maior de pessoas tem apostado em uma antiga prática: o artesanato.

Segundo pesquisa realizada pela empresa que realiza a Mega Artesanal, feira de produtos e técnicas para artes manuais da América Latina, três pontos marcaram o comportamento do mercado durante a pandemia. Primeiro que, no Brasil, comércio e indústria do artesanato mantiveram as vendas acontecendo neste período.

Outra situação apontada entre os mais de 500 expositores da feira revela que os pequenos comércios precisaram se reinventar para conseguir atender a demanda de quem buscou nas artes manuais uma solução. Além disso, a pesquisa mostrou que os consumidores com mais tempo em casa assistem a tutoriais na internet, compram insumos pelo WhatsApp e redescobrem o prazer terapêutico do fazer manual.

As artes manuais como forma de terapia fez com que o termo "faça você mesmo" retomasse força e transformasse a incerteza de um período em solução para algumas pessoas e necessidade de reinvenção para outros.

Dentista inverteu prioridade

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 05/06/2020 - Mara mCouto tem uma verdadeira casa de bonecas.Além de médica ela produz bonecas de pano, e durante a pandemia de coronavírus, por meio das redes sociais, viu o negócio crescer. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14516197) -->
Dentista divide tempo com o consultório, mas agora prioriza o artesanatoFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Dentista e odontopediatra, Mara Couto está no mercado do artesanato desde 2010. Reconhecida por conta das bonecas de pano que faz — e que iniciou a confeccionar há 18 anos — e pelos cursos que ministra, ela sempre dividiu a carreira na Odontologia com a paixão pela arte. No entanto, durante a pandemia, o caminho que era tratado como um hobbie se apresentou de outra maneira.

— O meu novo mercado é melhor que o consultório. Essa quarentena me mostrou isso. É uma coisa que eu amo fazer, mas eu dividia minha vida no meio. As bonecas desde 2010 trabalho como um negócio, mas ainda em forma de hobbie. Agora, vou continuar com o consultório, mas inverto esse processo. O negócio artesanato passa a ser o meu principal — admite Mara.

Essa mudança não é por acaso. Antes do início da pandemia, Mara vendia livros e revistas que produz com os moldes e os ensinamentos de como fazer a arte das bonecas. Nos últimos três meses, no entanto, ela digitalizou todo o material e começou a comercializar pela internet. Suas vendas cresceram, não só no material online, mas também nos exemplares impressos e enviados por correspondência.

As redes sociais serviram como catapulta para que essas vendas se ampliassem. Mara fortaleceu o trabalho com as lives ensinando a arte das bonecas e viu um boom de pessoas acompanhando suas atividades.

— Juntando Instagram e Facebook, só na quarentena já são quatro mil novos seguidores _ diz orgulhosa a artesã, que tem quase 10 mil seguidores em uma rede e mais de 26 mil curtidas na página em outra.

O cuidado em cada detalhe que Mara tem quando faz suas bonecas reflete também no carinho com que trata cada peça que vende. Além das revistas e dos cursos, Mara comercializa também peças e artigos para que as pessoas consigam produzir suas próprias bonecas de pano, como óculos, enfeites para cabelos e até os cabides em tamanhos reduzidos para cada modelo diferente feito por suas alunas.

O aumento das vendas e o aumento do prazo com que os Correios estão trabalhando acabam gerando alguma dificuldade, mas não impedem a expansão das atividades.

— Quando a entrega é por Sedex mais fácil, não há grande problema. A dificuldade ocorre mais em cartas para enviar as revistas, principalmente. Como mudou o processo dos Correios nesse período, algumas pessoas demoram um pouco mais a receber — afirma a designer de moda Silvia Cioato, braço direito de Mara nas produções e que organiza boa parte do trabalho de comércio online.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 05/06/2020 - Mara mCouto tem uma verdadeira casa de bonecas.Além de médica ela produz bonecas de pano, e durante a pandemia de coronavírus, por meio das redes sociais, viu o negócio crescer. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14516215) -->
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Em um grupo de empreendedores do artesanato na Associação da Empresas de Pequeno Porte do RS (Microempa), Mara encontra com pessoas interessadas em fortalecer o setor, que tem mostrado seu crescimento mesmo em uma hora de dificuldade.

Mara mudou de prioridade e tornou o artesanato seu negócio principal. Ainda que não abandone a Odontologia, ela sabe que sua decisão é reflexo de uma mudança no comportamento de muita gente.

— Muitas pessoas começaram a me acompanhar neste momento, e isso me motiva ainda mais. E acabo percebendo que, fazendo o que a gente gosta, não tem como dar errado — conclui a artesã.

Feira sem aglomeração, via app

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Antes da pandemia, Le Marché Chic reunia cerca de 60 expositoresFoto: Rafael Sartor,Le Marché Chic / Divulgação

A feira Le Marché Chic, que tradicionalmente reúne artesãos, artistas e criadores autorais da região, precisou se reinventar. Sem a possibilidade das aglomerações em tempos de pandemia, um aplicativo foi criado para que as vendas pudessem ocorrer online. Segundo a idealizadora do projeto, Luciana Alberti, após um mês do lançamento da plataforma, ainda não são todas as pessoas que consomem a arte via digital do que é produzido. No entanto, ela acredita que é um processo em desenvolvimento:

— A gente está plantando uma sementinha, que é bem diferente da feira presencial. O trabalho feito à mão tem um valor agregado pela demora e por serem peças exclusivas. Então a compra é muito por impulso. Estamos nos adequando no aplicativo para essa nova fase.

Com contato com tantos artesãos, Luciana acredita que a normalidade ainda está longe. Em cada feira, a média era de 60 expositores. Destes, 35 já estão incluídos no aplicativo. A característica do público consumidor também interfere na realidade do setor.

— Tem muita gente assustada. Cerca de 80% das marcas que expõe comigo vivem de feiras. E elas não acontecendo, essas pessoas ficam sem vender. Todo mundo tenta através da internet. Mas impactou muito nesses pequenos produtores. Os consumidores estão sem dinheiro e dando prioridade para outras coisas. Mesmo assim, agora, os artistas já estão se animando e empolgando, buscando se reinventar — afirma a curadora, entendendo que o setor será mais valorizado após esse período:

— Essa coisa mais genuína, mais verdadeira, vai vingar após a pandemia. Eu acredito nisso, que as pessoas vão ter mais consciência. O retorno vai ser muito benéfico para quem trabalha com isso.

Reflexo comercial em lojas de máquinas e de aviamentos

O aumento da procura das pessoas por fazer sua própria arte reflete também no comércio. Um exemplo que mostra essa demanda local está na empresa de Léo Souza. Além de vender máquinas de costura, a loja de Souza presta assistência técnica para consertos dos equipamentos. Durante a pandemia, os prazos precisaram ser ampliados.

— Sempre tivemos muito trabalho, só que nesse período triplicou a demanda por consertos, acessórios e manutenção, além das pessoas que quiseram uma máquina de costura nova. Isso acabou nos sobrecarregando o trabalho — admite Souza.

A alta demanda e a dificuldade de transporte dos materiais acabaram refletindo também nos processos de entrega do lojista.

— Estávamos com estoque programado para 90 a 120 dias e isso acabou em 30 dias. E São Paulo, que estava mais lento o processo, também atrasou. Ainda hoje estamos com essa dificuldade, distribuindo pedidos entre fornecedores para suprir o material, porque nem todo mundo tem o que a gente precisa — conclui Souza.

Nas lojas físicas de aviamento, a procura por materiais tem sido grande na maioria dos locais. Porém, segundo relato de alguns empresários, ainda há preocupação por conta do coronavírus.

— O pessoal ainda está receoso de ir para a rua. Muita gente que faz o artesanato é do grupo de risco, o pessoal da terceira idade, e não podem sair de casa. Alguns mandam filhos ou netos para comprar, mas às vezes o pessoal não entende do negócio, então dificulta para eles também — afirma Tarcísio Marin, proprietário de uma loja de aviamentos.

Segundo o empresário, para quem ainda não estava adaptado à realidade virtual, as vendas foram difíceis enquanto houve o fechamento total das lojas:

— Eu tenho 20 mil itens (na loja). E são cores, tamanhos e formatos diferentes. Se fosse uma linha específica, seria mais rápido esse processo.

Entre aqueles que se adaptaram mais rápido e os que estão em processo, as artes manuais parecem, de fato, ter reconquistado um lugar importante na vida das pessoas.

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