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+Serra18/05/2020 | 13h55

Na contramão da crise, algumas empresas da Serra conseguem se manter estáveis ou até aumentar faturamento

Mesmo em período de pandemia, empresas da região contratam e até concluem expansões 

Na contramão da crise, algumas empresas da Serra conseguem se manter estáveis ou até aumentar faturamento Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Independente da crise, os impactos sempre serão relativos. Embora com efeitos inéditos e homogêneos, a pandemia de covid-19 segue a regra. Em divulgação de boletim que monitora a situação econômica do Rio Grande do Sul, a Receita Estadual informou que as vendas do varejo caíram 26% na Serra e 49% nas Hortênsias, no período que compreendeu os primeiros 28 dias das restrições e isolamento, entre 16 de março e 24 de abril. O comparativo é com igual período de 2019.

No entanto, da mesma forma que alguns setores sofrem desmontes como resultado da recessão repentina causada pela pandemia de covid-19, na contracorrente, segmentos mantêm estabilidade e até aumentam o faturamento no período.

– Alguns setores vão continuar produzindo e acabarão até sendo beneficiados em períodos de crise, isso acontece sempre. É o caso da alimentação, que segue a lógica de que as pessoas precisam comer e por isso vão consumir. Nesta atual (crise), os que se destacam são os segmentos de medicamentos e saúde, a alimentação e o mercado digital – destaca a economista Maria Carolina Gullo.

– Ativos relacionados a commodities (minério de ferro, soja, celulose, além de alimentação, como carnes), que estão diretamente voltados ao mercado internacional, se beneficiam deste momento. Em parte pela depreciação do real em relação ao dólar, pois parte das receitas é proveniente de exportação. Também setores ligados a consumo básico (varejo) possuem uma relação inversa com o impacto da pandemia nos mercados. O varejo que possui um e-commerce mais desenvolvido que outros segmentos e, mesmo com o lockdown no mercados, a receita de certa forma foi mantida, mesmo que em menor proporção. Por fim setores ligados à tecnologia da informação em casos devido à quarentena sofreram menos ou aumentaram sua demanda – afirma o sócio da Messem Investimentos, Mauro Silveira.

Entre as demandas crescentes mais notáveis, se sobressaem máscaras de proteção, álcool gel e produtos de limpeza. São indústrias, entretanto, que não beneficiam diretamente os mercados locais. A concentração econômica em matrizes, inclusive, é um dos aspectos que tornam cidades e empresas mais vulneráveis a impactos de uma crise generalizada.

– Não tenho dúvidas de que essa crise fez muitos empresários repensarem os seus produtos, e os municípios, a sua matriz econômica. Por exemplo, máscaras, álcool em gel e até ventiladores, que são produtos relativamente simples, não estão sendo produzidos aqui. A indústria preferiu importar da China, por ser mais barato. Acabamos refém de uma produção que não é nossa, num momento que o mundo inteiro depende de um mesmo produto. Isso vai gerar discussão do que vale a pena produzir e do que não vale a pena produzir – avalia Gullo.

Foto: Estudo aponta perspectivas de reação dos segmentos após a pandemia

Além do óbvio

Fora da camada visível de setores lucrativos, entretanto, alguns empresários percebem o momento como oportunidade de projetar o seu produto.

– É possível ter o empresário com visão, que pode pensar: como meu produto pode se encaixar neste momento? Como posso adaptá-lo? – sugere Gullo.

Com a visão de oportunidade, então, é possível livrar-se da concepção de que a economia se restringe ao consumo de bens, o que acaba sendo um fator limitador para a exploração de mercado. A própria Messem, surgida em Caxias do Sul há mais de 12 anos, explorou o nicho de especular a rentabilidade fora do sistema bancário. Atualmente, é um dos segmentos que não só mantém estabilidade financeira durante a crise, como também contrata num período em que o mercado de trabalho sofre contínua baixa. Entre abril e maio, a empresa admitiu oito novos funcionários, fluxo que não deve ser interrompido, segundo Silveira:

– Nossa expansão é planejada, nos últimos 5 anos tivemos um crescimento por volta de 100% todos os anos. E, para manter essa velocidade de crescimento, é muito importante reforçar o time comercial com planejamento. Países mais desenvolvidos possuem 90% dos recursos de liquidez investidos fora dos bancos, enquanto no Brasil esse número é menos que 10% , portanto, tem muita oportunidade, e com os juros nos patamares atuais, as pessoas tendem a buscar outras alternativas onde tenham melhor

rentabilidade. Por isso, continuamos acreditando que nosso mercado vai permanecer crescendo nos próximos anos – comenta o sócio da Messem.

A empresa tem atualmente quatro filiais e cerca de 220 funcionários. A meta para o ano é aumentar o pessoal para 270 empregados.

Foto: Se é possível investir, invista!

Rede de mercados expande e adquire duas unidades

No final de 2018, sócios da rede de mercados Savi dissolveram a parceria. Um deles, Cassyus Amaral Carneiro, decidiu então colocar em prática uma política própria de gestão e investir no mesmo ramo, criando a marca QualiBem. Iniciou operações na antiga unidade do Savi, no bairro Santa Lúcia. Um ano depois, satisfeito com o desempenho dos primeiros meses (com aumento em 70% no faturamento), passou a articular a aquisição de uma nova unidade, junto com seus três outros sócios. Acabaram adquirindo duas.

– Queríamos expandir, até porque, se comprássemos para duas lojas, as negociações seriam melhores. Então era uma necessidade para manter nosso preço e sermos competitivos no mercado. Tivemos oportunidade de, em fevereiro, negociar com a rede Adilis e conseguimos concluir (as negociações) em março deste ano. Em 11 de março, compramos as duas filiais deles, uma no bairro Castelo (também em Caxias do Sul) e a outra em Flores da Cunha – relata Cassyus.

Rede QualiBem inaugura loja em Flores da Cunha.<!-- NICAID(14499546) -->
Unidade da rede em Flores da CunhaFoto: Divulgação / QualiBem

A aquisição foi às vésperas do início das restrições das atividades econômicas para o enfrentamento do coronavírus.

– Na semana seguinte, estourou a pandemia. Já estávamos com esse receio, mas acreditamos no trabalho e resolvemos confiar. Ficamos em dúvida num primeiro momento, ainda bate às vezes essa dúvida, mas estamos indo muito bem – destaca Cassyus. Para aquisição e reformulação da estrutura, foram investidos R$ 3 milhões. As lojas passaram a funcionar com as novas fachadas há cerca de uma semana, mas as atividades iniciaram em torno de um mês atrás. Os resultados, até o momento, já atestam o investimento, ressalta o sócio:

– Em 30 dias de trabalho, conseguimos mais de 30% de aumento de faturamento em uma loja e mais de 20% na outra, em comparação ao que faturava a antiga rede.

Em época de cautela e retração da maioria dos empresários, Cassyus diz que a expansão era necessária, independentemente do momento. E não deve parar por aí: para os próximos meses, a rede pretende ampliar a unidade localizada em Flores da Cunha.

Com a implantação das duas novas unidades, a QualiBem passou de 45 para 80 funcionários.

Efeitos devem ser sentidos

Cassyus admite que o segmento de alimentação acaba não sofrendo um prejuízo tão grande no período em razão de se tratar de consumo essencial. Ainda assim, reconhece que os impactos negativos da crise com a pandemia afetam, sim, o empreendimento.

– No primeiro momento, gerou um boom, e o pessoal foi para o mercado por medo da escassez. Agora já mudou o

comportamento de consumo. O supermercadista não sobrevive da cesta básica, tem a cesta básica, mas o que sustenta são os outros produtos com valor agregado maior, e hoje as pessoas priorizam a cesta básica, o que certamente impactou na rentabilidade – pontua.

A inadimplência, estima ele, também deve ser uma problemática a ser enfrenada nos próximos meses.

– Como o mercado joga muito para frente, tem gente que paga com cheque para 90 dias, e agora que vão começar a estourar esses cheques. Acreditamos que teremos inadimplência de três a quatro vezes maior neste período – explica.

Investir para estar à frente no futuro

Diretor da Planeta Água, Leandro Pergher<!-- NICAID(14499538) -->
"Agora é hora de contratar, tem bastante gente boa desempregada", defende o empresário Leandro PergherFoto: Felicità Filmes / Divulgação

Em março, quando precisou paralisar as atividades, a direção da Planeta Água, empresa de Farroupilha que fabrica e vende purificadores e filtros de água, precisou decidir se continuava a obra de ampliação da empresa, cerca de 80% concluída, ou se tomava a decisão cautelosa de parar temporariamente. Optou por continuar o investimento de cerca de R$ 1 milhão, mesmo em tempos de coronavírus.

– Estávamos tendo um desempenho neste ano muito melhor do que o projetado e, no ano passado, da mesma forma. Quando a crise surgiu, não tinha nem terminado março e já

tínhamos alcançado a meta do trimestre. Não foi investimento arriscado, estava tudo dentro do planejado, só resolvemos manter – destaca o diretor Leandro Pergher.

A filial deve ficar pronta nos próximos meses. O setor administrativo, que vai triplicar de tamanho, já deve estar funcionando em junho na nova unidade, que será composta por dois pavilhões, sendo um fabril.

– Vamos ter um setor administrativo novo, vamos ampliar o comercial, e na outra parte fabricar novos produtos. Na matriz, com o espaço que desocuparemos, pretendemos ampliar também a fábrica.

Atualmente, a empresa conta com 107 funcionários. A expectativa de Pergher, é contratar pelo menos mais 10 para a futura produção.

– Agora é hora de contratar, tem bastante gente boa desempregada. Quem conseguir contratar agora vai se manter depois. Dá para pensar de duas formas: ou a gente para e vai na onda de tudo o que está acontecendo ou podemos enxergar como oportunidade. A maioria não consegue enxergar oportunidades e precisa recuar.Como a gente já vem fazendo o tema de casa, vamos dar um passo para frente. Quando tudo isso voltar, o consumidor vai optar por nós – defende o empresário.

Há mais de 17 anos no mercado, a empresa “dobra de tamanho a cada quatro anos”,ressalta Pergher, e pretende manter essa média de crescimento. Ele admite que a crise afeta as vendas, que caíram pela metade em comparação a “tempos normais”. Projeta que a baixa deve continuar pelo menos por mais três meses, mas diz que a empresa pretende, ainda neste ano, recuperar os prejuízos. 

– A gente vem construindo a empresa há anos, com a valorização da marca,cuidado com os clientes, para justamente garantir uma empresa sólida. Não é aquela que ficou 30 dias parada e vai quebrar. O bom resultado que viemos fazendo estamos colhendo os resultados. É no momento de crise que vemos quais as empresas que realmente fizeram o dever de casa – ressalta.

Como estratégia de gestão para a saúde financeira da empresa, Pergher conta que a diretoria divide a organização em um planejamento macro, projetando cinco anos à frente, e outro micro, anual, com pesquisas de mercado, constantes adaptações conforme a capacidade fabril e o comportamento do mercado.

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