Em plena pandemia, produtos de cesta básica chegaram a aumentar 16% em Caxias, aponta pesquisa - Economia - Pioneiro

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Consumidor26/05/2020 | 20h19Atualizada em 26/05/2020 | 20h19

Em plena pandemia, produtos de cesta básica chegaram a aumentar 16% em Caxias, aponta pesquisa

No geral, levantamento constatou mês de abril com terceiro maior aumento em 12 meses

Em plena pandemia, produtos de cesta básica chegaram a aumentar 16% em Caxias, aponta pesquisa Antonio Valiente/Agencia RBS
Creme dental e oléo de soja foram os produtos que mais apresentaram aumento no período Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

O preço médio da cesta básica em Caxias do Sul aumentou 0,87% em abril— mês já atingido em cheio pela pandemia do coronavírus — no comparativo a março. Inflação com ajuste em zero soa tecnicamente insignificante, porém, para o bolso do consumidor, o impacto tem dimensão maior. O custo geral da cesta básica passou de R$ 910,47, que custava em março, para R$ 918,07.

O 0,87% refere-se à média dos itens que compõem a cesta, mas, individualmente, alguns produtos tiveram alta de mais de 10%. Isso em pleno contexto da insegurança, instabilidade e apreensão do consumidor no enfrentamento à pandemia de coronavírus.

— O aumento médio de 0,8% aparenta ser pequeno, mas alguns produtos tiveram aumento de até 16%. E os grupos que mais têm impactado são típicos de período de quarentena. Se a pessoa tem pouca grana, se, por exemplo, ganha o salário mínimo e compromete 300 por mês nas compras, esses 16% vão prejudicar ainda mais. Para muita gente, pouco adianta a gasolina ter baixado se o azeite aumentou — avalia o diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (IPES) da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Roberto Birch Gonçalves.

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Os produtos que mais aumentaram no período foram creme dental (16,25%), óleo de soja (16,21%), café moído (13,26%), erva para chimarrão (12,53%) e leite condensado (12,13%). Já as maiores reduções foram constatadas no leite (-4,12%), frango (-3,06%), apresuntados (-2,98%), refrigerante (-2,59%) e arroz (-2,11%). Porém, como se percebe, os índices de redução foram bem menores do que o dos aumentos. Além disso, segundo Birch, mesmo as reduções de itens como carne e leite não compensam os recentes aumentos que os produtos vinham sofrendo.

— Tem coisas que diminuíram agora, mas aumentaram alguns meses atrás. Que já estavam com preço elevado. Leite, carne. Reduzir a carne agora depois da montoeira de aumento que teve em janeiro e fevereiro acaba sendo ilusório — comenta Birch.

Para as próximas semanas, ele ressalta que leguminosos também podem sofrer reajuste, em razão do impacto da estiagem.

— A sazonalidade não se aplica nesses aumentos que ocorreram, ela só se justificaria em produtos in natura, tomate, às vezes a carne, às vezes o leite, em caso de estiagem. Mas a estiagem vai afetar, sobretudo, as leguminosas, ou seja, até isso vai piorar, com impacto em verduras e frutas nos próximos dias — ressalta.

O aumento de 0,87% é a terceira maior média registrada nos últimos 12 meses, atrás apenas de dezembro e novembro de 2019, que registraram reajustes de 0,89% e 0,88%, respectivamente.

Em um ano, a cesta básica registrou aumento de R$ 56,46, passando de R$ 861,61, em abril de 2019, para R$ 910,47, em abril de 2020.

Pesquisa foi divulgada na última semanaFoto:

"Os produtos não estão baixando"

Diante de cenário de desemprego e receio do consumidor, o diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes) da UCS, Roberto Birch Gonçalves, avalia com preocupação o aumento do preço dos produtos que compõem a cesta básica.

— Em qualquer crise tem setores que são menos atingidos, como é o caso da alimentação e higiene pessoal, que não são impactados porque a procura é muito grande, tanto que alguns dos itens têm limitação de compra (atualmente). Mas os produtos não estão baixando de preço. Isso é ruim porque famílias de menor renda acabam por sentir mais ainda os impactos — acredita Birch.

O fato de produtores e o próprio varejo não terem reveses de produção e abastecimento, segundo ele, tornaria os setores privilegiados para praticar valores mais acessíveis, em sensibilidade ao momento:

— A cadeia como um todo, desde produtor, entregador, transporte, atacado, varejo, tanto de primeira necessidade, quanto medicamentos, não está sentindo problema ou dificuldade para vender os seus produtos. Nos primeiros dias (de pandemia) até houve falta (de estoque) em razão da falta de transporte, não de produto. Mas agora com abastecimento garantido, gente comprando bastante, estamos ainda vendo manutenção (do preço) ou aumento desses produtos, e não uma queda. É um momento que as pessoas deveriam no mínimo ter sensibilidade, ter compreensão de que seu lucro pode afetar a vida das outras pessoas.

A própria circulação limitada dos consumidores em tempos de distanciamento dificulta que as compras possam ser feitas em estabelecimentos com preços mais vantajosos na opinião de Birch.

— Em situações normais, quando existe variação de preço grande, vai de mercado a mercado. Como vai dar essa orientação em época de distanciamento/isolamento? Precisaria haver sensibilidade de quem está lidando com produtos de primeira necessidade, que são medicamentos. Se não querem reduzir os preços, pelo menos não aumentem.

A pesquisa da cesta básica abrangeu 436 famílias de Caxias, e os preços são coletados em seis redes de supermercados que atuam na cidade. As marcas dos produtos consideradas são as mais indicadas pelas famílias consultadas.

Percentuais de reajustes de produtos que encareceram foram consideravelmente mais elevados em comparação a itens que reduziramFoto:

Entidade nega aumento

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios de Caxias do Sul (Sindigêneros), Eduardo Slomp, nega que o mês de abril tenha sido de aumento na cesta básica. Embora não apresente pesquisa, ele informa que itens citados no estudo do Ipes não procedem com a realidade do mercado.

— Café moído baixou mais de 30% (a pesquisa informa que aumentou 13%). Não houve aumento da cesta básica, óleo de soja vendíamos a R$ 4,29, hoje vendemos a R$ 3,99. Alguma coisa aumentou, mas muita coisa baixou de preço, como tomate, leite, que ninguém fala. Carne de porco baixou um monte, frango também baixou um monte, a carne de gado se manteve. Não sei que tipo de pesquisa foi feita, está errada — contesta Slomp.

Na visão do presidente da entidade, os estabelecimentos, inclusive estariam sendo sensíveis com relação à contenção de reajuste em diversos produtos, especialmente os à base de trigo.

— O trigo é a base de muito alimento que consumimos, não só o pão, toda massa, biscoito, enfim. O dólar subiu, o trigo é importado, e mesmo assim os mercados mantiveram os preços, se sensibilizaram. Se só aumentaram um pouco já é grande coisa. Se comprava pão a R$ 7 ou R$ 8, ou R$ 4 nas promoções. É o mesmo preço há quatro anos. O óleo de soja é quase 18 anos que está entre R$ 3,75 a R$ 4,29 — avalia Slomp.

O presidente do Sindigêneros prometeu à reportagem apresentar pesquisa com estabelecimentos da região ainda nesta semana.

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