Como setores da economia caxiense estão lidando com a quarentena imposta pela covid-19  - Economia - Pioneiro

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+Serra23/03/2020 | 06h06Atualizada em 23/03/2020 | 08h16

Como setores da economia caxiense estão lidando com a quarentena imposta pela covid-19 

Decreto municipal impôs restrições e até suspensões nas empresas

Como setores da economia caxiense estão lidando com a quarentena imposta pela covid-19  Camila Taufer/Arco da Velha,Divulgação
Número de encomendas de livros aumentou nos últimos dias na livraria de Martinato Foto: Camila Taufer / Arco da Velha,Divulgação

Com o decreto municipal que restringe o funcionamento de diversas atividades, como forma de conter o avanço do novo coronavírus (covid-19), o mundo do trabalho sofrerá severas mudança. Em Caxias do Sul, indústria, construção civil, comércio, shoppings centers, centros comerciais, galerias, agências bancárias, lotéricas, serviços notariais e registrais estão completamente paralisados. Novas hospedagens em hotéis, motéis e pousadas estão proibidas — permanecem nos estabelecimentos apenas os clientes já hospedados até a data do checkout.

Apenas um grupo de empreendimentos poderá abrir as portas: o de serviços considerados essenciais, como farmácias, mercados e postos de combustíveis. Restaurantes e lanchonetes poderão funcionar, no entanto, somente estão liberados para  realizar atividade única e exclusivamente no sistema de delivery, a famosa telentrega. 

Diante de tantas restrições, muita coisa vai mudar – e já mudou em alguns casos. A internet, que já facilita o trabalho há muito tempo, ganha mais importância neste momento. Os lares viraram escritório de quem tem condições de executar suas tarefas de casa, que trabalha pelo computador no chamado home office. Programas de mensagem, como WhatsApp e Telegram se tornaram ferramentas importantes para a venda de produtos, desde comida até livros – item que acaba ganhando espaço em tempos de folga forçada.  

— Nossa recomendação é que as lojas funcionem com esquema de plantão em casa pelo Whats. Quem já tem e-commerce também. A pessoa pode comprar e o motoboy entrega — orienta Idalice Manchini, presidente do Sindilojas. 

A seguir, confira como os setores estão lidando com a quarentena imposta pela covid-19.

Mais leitura na quarentena

Depois de revisar as questões de higiene, dispensar funcionária que é mãe e tem filhos em idade escolar, reduzir o número de mesas da cafeteria, o livreiro Guilherme Martinato viu aumentar o número de encomendas de livros na Do Arco da Velha – Livraria e Café, em Caxias.

— Semana passada, houve dias em que vendi mais livros por telentrega do que na livraria — revela Martinato, 40 anos, proprietário da Do Arco da Velha.

É curioso, mas o fato levanta uma nova questão na gestão do negócio, com uma revisão na forma de atendimento, com envio de informações sobre os livros por aplicativos ou e-mail. Além disso, o horário da loja reduziu desde a semana passada, funcionando das 9h30min até as 19h.

Agricultura

Se a colônia não planta, a cidade não come. Mas e se a cidade para, a colônia conseguirá ainda vender sua produção? A dúvida é do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Rudimar Menegotto, que teme por possíveis dificuldades no abastecimento diante do cenário de incertezas. 

— Não podemos ficar sem comida, mas, daqui a pouco, pode ter problema para abastecer. Bento vai proibir as feiras na próxima semana, Paraí já mandou fechar tudo. Estamos em final de safra em várias culturas, mas ainda tem tomate, maçã e caqui para colher. Maçã e caqui dá para armazenar, mas tomate não — diz. 

Os agricultores também estão preocupados com a produção futura, já que o dólar passou dos R$ 5 nos últimos dias, o que aumenta o custo para os produtores, segundo Menegotto:  

— O agricultor depende que o consumidor tenha renda para comprar. Claro que primeiro é a saúde, mas tem uma preocupação com a economia depois. 

Bares, hotéis e restaurantes

Um dos setores mais afetados pela quarentena é da hotelaria e gastronomia. Antes mesmo do decreto que determinou o fechamento dos estabelecimentos e das restrições no atendimento, o setor já vinha registrando redução no movimento. Restaurantes, por exemplo, viram a clientela reduzir pela metade na semana passada. Hotéis já registravam 90% de cancelamentos de reservas. 

— O impacto vai ser enorme. O setor vem de uma baixa de janeiro e fevereiro. As empresas pagaram recentemente 13º salário, férias. A maioria das empresas é de pequeno porte e tem muita gente sem capital para repor. Será que vai adiantar parar 15 dias ou vamos precisar de mais? De 30, 40 dias? — questiona Vicente Perini, presidente do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria (Segh). 

Comida congelada

Entre tantas restrições, um dos mercados que tende a crescer é o de comida congelada. Uma das empresas em Caxias que comercializa comida pronta, com opções de entrega domiciliar ou na loja, é a Make Massas. Entre as preferências dos clientes, estão as massas, molhos prontos, lasanhas e as diversas opções de carnes.

— Nas duas últimas semanas, a procura tem aumentado bastante. Eu posso dizer que está três vezes maior do que antes — avalia o gerente Carlos Alberto Bastos, 57, responsável pela unidade da Rua Ernesto Alves, no centro de Caxias.

Para se ter uma ideia de preço, a lasanha varia de R$ 20 a R$ 69, do menor tamanho (400g) à maior opção (1,8kg).

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL (19/03/2020)Case do +Serra, sobre com o comércio está se virando nesse tempo de coronavírus. Nesse case, eles vendem comida congelada e triplicou a procura por esse tipo de comida. na foto, Carlos Alberto Bastos, 57 anos, gerente da loja Make Massas. (Antonio Valiente/Agência RBS)<!-- NICAID(14456121) -->
Mercado de massas congeladas tende a crescer durante o período de quarentena Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Pequenas empresas

Micro e pequenos empreendimentos e microempreendedores individuais (MEIs) terão muitas dificuldades neste período de paralisação das atividades, porque, via de regra, não têm fluxo de caixa como uma grande empresa. A baixa atividade econômica irá requerer alternativas para que não se pare por completo — nos casos em que isso é possível. 

— Estabelecer delivery, por exemplo, reforçar a presença digital, e manter a qualidade. Ou entrega com qualidade ou não entrega. Tem também questões pontuais que precisam ser avaliadas. É preciso reduzir custos, ver onde é possível economizar, conversar com outros empresários para ver que soluções encontraram — sugere Tiago Centenaro Mignoni, coordenador regional do Sebrae. 

Conforme Luiza Colombo Dutra, presidente da Microempa, entidade com 2,6 mil associados, um dos setores mais afetados já é o de eventos. O temor é que muitos pequenos empreendimentos não suportem a crise e acabem fechando as portas de vez. 

— As empresas não têm caixa para suportar. A orientação é que tentem negociar com os clientes, que eles (clientes) não cancelem, mas apenas adiem. Estamos buscando alternativas com outras entidades para maior prazo de pagamentos, linhas de crédito. 

Até o final de 2019, Caxias tinha 28 mil MEIs e 26 mil pequenas empresas, conforme dados do Sebrae. O número de grandes e médias empresas somava 4,5 mil de acordo com a Receita Federal. 

Tele grátis

Pelas redes sociais, o restaurante Me Gusta Casa de Tapas disparou a seguinte comunicação aos seus clientes: "Para você que quer ficar no conforto do seu lar, estamos disponibilizando hoje a nossa deliciosa Sequência de Camarões com tele grátis. Entrega feita por motorista particular e treinado para ter todo o cuidado necessário para a sua segurança. Somente com reserva antecipada pelo Whatsapp 54 99163-1118".

É dessa forma criativa, e com vantagens promocionais, que o comércio caxiense está lidando com a situação de prevenção à covid-19. Entre as medidas adotadas, os proprietários Susana Fabro, 41, e Rafael Fernandes, 38, decidiram dispensar os empregados e só eles dois mantêm a operação do restaurante. 

– Como não temos a opção de fechar em definitivo, pensamos no que seria mais viável. Atualmente, oferecemos telentrega grátis, criamos um cardápio temporário, alternativo, com valores mais acessíveis, e estamos avaliando abrir ao meio-dia, e não apenas à noite. Mas só para vir buscar comida aqui (modalidade take-away) ou para telentrega – explica Susana Fabro.

Restaurante Me Gusta Casa de Tapas oferece tele-entrega gratuíta para os clientes, realizado por carro particular, com motorista treinado e respeitando regras de prevenção.Na foto, o chefe de cozinha, Rafael Fernandes.<!-- NICAID(14457276) -->
Restaurante de comida espanhola oferece entrega gratuita Foto: Susana Fabro / divulgação

Construção civil

Setor que estava começando a apresentar sinais de retomada, a construção civil agora sofre um novo baque. Assim que os primeiros casos confirmados e suspeitos surgiram em Caxias do Sul, pessoas consideradas de grupo de risco foram afastadas do trabalho. Mesmo sem uma orientação oficial até então, construtoras já estavam parando os trabalho na semana passada. 

— É uma sensação de fim de ano, de recolher material nos canteiros de obras. E escritórios estão trabalhando home office. Que passe rápido. Primeiro a saúde, depois os negócios — espera Rodrigo Postiglione, presidente do Sinduscon. 

Até sexta-feira, o dirigente aguardava medidas do governo federal a respeito da flexibilização da jornada de trabalho, adiantamento de férias e uso de banco de horas para funcionários. 

Combustível

Assim como os demais setores, o de postos de gasolina está preocupado com os impactos que o coronavírus trará. Diferente da crise provocada pela greve dos caminhoneiros, em 2018, não deve haver desabastecimento desta vez. Mas também não haverá clientes, visto o avanço da doença e as medidas já adotadas pelas autoridades. 

— Para esta semana, a previsão é de que a redução no movimento seja ainda mais drástica. Em alguns países, a redução foi de 90%. Não sei se aqui chega a 90%, mas vai ficar entre 50% e 90%. Vamos passar por semanas difíceis. A verdade é que não vai ter ninguém na rua — teme Eduardo Martins, presidente do Sindipetro. 

Caxias tem 102 postos de combustíveis e funcionários do grupo de risco, como idosos e gestantes. 

Yôga virtual

Um das alternativas para manter a sanidade das pessoas é não deixar de praticar yôga. Esse é o pensamento da Prakriti — Escola de Yôga, em Caxias: entrar na onda dos cuidados por meio da quarentena, evitando a curva ascendente de contágios, mas também permanecer em equilíbrio de corpo, mente e espírito.

— Como não podemos fechar a escola e ficar sem essa renda, pensamos em uma forma de manter as aulas e o vínculo com os alunos. Por isso, começamos a oferecer essa alternativa ainda na última terça-feira, dia 17. Nas primeiras aulas, tivemos uma média de cinco alunos praticando yôga online — revela Vinícius Santos Rocha, 43, um dos proprietários da Prakriti.

Os alunos assistem às aulas através de uma plataforma para videoconferências. Além disso, estão usando as lives em redes sociais para algumas aulas abertas, como a meditação sat chakra. Rocha diz não ter previsão de por quanto tempo vão manter a escola fechada, apenas com exibição de aulas virtuais, mas o primeiro prazo é até o dia 30 de março. Conforme for o avanço da covid-19, poderá estender por mais tempo.

Serviços

Vice-presidente de Serviços da CIC e proprietária da rede Caminho do Saber, Maristela Chiappin também precisou se adaptar à nova realidade. Adotou na escola as videoaulas para que os alunos não deixem de estudar. Foi a solução encontrada para não parar totalmente.  

— É um momento de buscar alternativas — diz. 

Home office é uma delas, que acaba se encaixando em diversas atividades, como para escritórios. Já em outros empreendimentos, como academias, não há como não dar um tempo no funcionamento. É preciso fechar. 

— Não temos ideia de quanto tempo vai durar. Haverá um preço para todos: para as empresas e para quem vai ficar em casa — lamenta Maristela. 

Supermercados

Os supermercados serão dos pouquíssimos estabelecimentos a permanecerem abertos em Caxias no período de quarentena determinado pela prefeitura. Conforme o presidente do Sindicato dos Gêneros Alimentícios (Sindigêneros), Eduardo Slomp, o estoque é bom e não há risco de desbastecimento. 

Apesar disso, ele recomenda que as pessoas se programem para ir ao mercado apenas quando necessário, para evitar aglomeração. Além disso, devem evitar levar crianças nas compras. Idosos poderão fazer pedido por telefone – os estabelecimentos estão orientados a fazer entrega para esse grupo. 

E, embora se pense que o setor não será afetado pela crise, não há como prever. Isso porque quem já fez estoque para passar as próximas semanas não deverá voltar ao mercado para novas compras. 

— As pessoas só anteciparam. Não quer dizer que vamos vender mais — diz Slomp. 

Indústria

Com a paralisação da indústria, principal atividade econômica de Caxias do Sul, a cidade vai parar. Cerca de 35 mil metalúrgicos ficarão em casa nos próximos dias — sendo a maioria das empresas Marcopolo e Randon, que já haviam anunciado parada antes do decreto municipal. Não há como prever ainda o impacto das férias coletivas "forçadas". 

Conforme o presidente da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Caxias do Sul, Ivanir Gasparin, com a medida, infelizmente, todos perdem, desde funcionários a donos de empresa. 

— O nosso apelo é no sentido de que o empresário não demita e não reduza salário neste momento, afinal, a pujança caxiense foi feita a quatro mãos. É momento de união entre funcionários e empresários — pede Gasparin. 

Comércio

Lojas cheias com a nova coleção, porém, fechadas. Ou seja, sem faturamento nos próximos dias. Sem opção, o comércio terá de atravessar a crise que afeta todos os setores. 

— Tenho 40 anos de comércio e nunca passei nem por algo parecido — lamenta Idalice Manchini, presidente do Sindilojas e dona de quatro unidades da Pole Modas. 

Para minimizar os efeitos, um acordo com o sindicato dos comerciários estabelece medidas como concessão de férias mesmo sem período adquirido e utilização de banco de horas. Mesmo assim há o risco de demissões: 

— Mas acredito que o empresário vai segurar até que dá.

Para quem pode, uma alternativa é utilizar as plataformas digitais, como e-commerce e WhatsApp. 

CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 19/03/2020Academias fecham após decreto para combater o coronavírus em Caxias.Engenharia do Corpo na Mateo Gianela(Lucas Amorelli/Agência RBS)<!-- NICAID(14455834) -->
Aulas presenciais na Engenharia do Corpo foram substituídas por aulas virtuais nos próximos diasFoto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Academias

Espaço de grande circulação de pessoas, as academias tiveram de fechar as portas temporariamente. Mas para não correr o risco de quebrar, algumas adotaram medidas para manter e, até mesmo, atrair novos alunos. 

A Engenharia do Corpo, por exemplo, está oferecendo aulas pela internet e pausou os planos. Se ficar um mês fechada, o aluno terá um mês a mais para recuperar. E quem contratar um plano agora ganhará seis meses de bônus. A “promoção” é uma maneira de garantir a entrada de dinheiro neste período.

Embora a parada nos negócios seja ruim financeiramente, Alexandre Zanella, proprietário da Engenharia do Corpo, entende que ela é necessária para que o vírus seja combatido com mais rapidez: 

— Se o governo não tomar medidas drásticas, vamos demorar mais para voltar. 

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